Sobre o Euro-2004 diz-me, com a simpatia habitual, o LNT no Tugir que “É que, caro JPT, o Euro 2004 fazia sentido num contexto global de desenvolvimento. Deixou de fazer quando o objectivo passou a ser só o próprio campeonato.”
Aceito essa afirmação. Que tem lógica. Mas face a essa ideia como debater a pertinência do Euro-2004? Eu só vejo duas formas:
1. aceito a realidade de que “o Euro faz sentido num contexto global de desenvolvimento do país”. E parto dessa ideia para a discussão. Cada um terá a sua noção de “desenvolvimento”, cada um de nós terá as suas ideias sobre as articulações possíveis entre esse “desenvolvimento” próprio ou um em “abstracto” e o Euro. E cada um de nós botará a sua opinião, somando-lhe umas ideias mais ou menos sonantes a “puxar a brasa à sua sardinha”.
Eu tenho uma, apenas exemplo. Em Leiria (ali entre os estádios de Lisboa e de Coimbra) o União de Leiria fez três anos espantosos. Três treinadores do melhor (Manuel José, José Mourinho e Manuel Cajuda), bons jogadores, equipas a jogar futebol bonito, e excelentes resultados desportivos, 5º e 6º lugar, ida à Europa. E uma média de espectadores inferior a 1000. Um estádio de 30 000 espectadores? [repito: entre Coimbra e Lisboa] Para quê se é óbvio que o público não é ali elástico?
Eu tenho uma, apenas exemplo. Em Leiria (ali entre os estádios de Lisboa e de Coimbra) o União de Leiria fez três anos espantosos. Três treinadores do melhor (Manuel José, José Mourinho e Manuel Cajuda), bons jogadores, equipas a jogar futebol bonito, e excelentes resultados desportivos, 5º e 6º lugar, ida à Europa. E uma média de espectadores inferior a 1000. Um estádio de 30 000 espectadores? [repito: entre Coimbra e Lisboa] Para quê se é óbvio que o público não é ali elástico?
Meu caro, este registo é-me absolutamente insuficiente. Daqui eu só posso esperar conclusões muito pouco analíticas, preconceituosas. Tipo encarar a referida articulação com o desenvolvimento concebendo-o como derivado da indústria da construção civil (tipo, crise económica, baixe-se a sisa, conhece?). Ou mais preconceituosas ainda, tipo, um “desenvolvimento” ligado aos complexos câmaras/clubes-construtoras e suas influências nos aparelhos políticos centrais. Aliado a um contexto político onde o mito da “obra” domina. Tudo preconceito, porque tudo proveniente do diz-que-diz. Sem ironia.
Ou
2. “o Euro 2004 fazia sentido num contexto global de desenvolvimento” pois foi estudado enquanto tal. Há (houve) uma reflexão articulada, relativamente sistémica que aponta os efeitos potenciadores de desenvolvimento do Euro-2004 no país. E é essa reflexão prévia à candidatura, ao dossier de encargos, que deverá ser a base para uma discussão sobre a legitimidade (pesei a palavra) desta operação.
Não me refiro a um conjunto de entrevistas ou declarações dos vários responsáveis (”bom para o turismo, bom para a imagem, a afirmação, etc.”), no domínio das generalidades. Não me refiro ao caderno de encargos e receitas previstas, que desenvolvimento não é lucro ou prejuízo final.
Refiro-me a um plano conjunto que tenha projectado, detalhada e sistematicamente, o papel do Euro no desenvolvimento do país. Não que acredite num estatuto demiúrgico de um plano prospectivo. Mas porque será sobre esse plano que se poderá discutir da racionalidade ou não da operação. E sobre a sua justeza. E sobre o que falhou ou não. (Até porque senão o seu “o objectivo passou a ser só o próprio campeonato” assume estatuto de infalsificável, donde de nada me serve)
Existe essa abordagem prévia? Esse estudo de desenvolvimento? Essa base para uma discussão séria e o menos preconceituosa possível? Documento único ou plural. Passível de ser criticado à luz da altura. Passível de servir para identificar as articulações que não foram feitas. Passível de ser criticado à luz de hoje.
É que se há, e caro LNT isto é dúvida de emigrante, muito gostaria eu de ter acesso. Para o poder ler como “estudo de caso”. Como cidadão e como aprendiz destas coisas do desenvolvimento.
E também para poder discutir entre amigos deixando cair os lugares-comuns e as “bocas” aos grupos mafiosos que mais parecem os feiticeiros, todos falamos deles mas parece que nunca se vêm, donde não devem existir. Ainda que eficientes. Tal e qual os feiticeiros.
Abraço, e desculpe o longo mugir.
Nota final: respondeu o LNT, simpática e venenosamente. Enviando-me ao documento matriz e anunciando-me outros. Eu e a minha mania de botar, lá me fui eu meter numa carga de trabalhos! Se os perceber hei-de voltar ao assunto, dentro de algum (muito, acho) tempo. Porque sobre tais projectos decerto que haverá muito a dizer (para quem saiba da poda, claro está). Os meus agradecimentos (ainda que assustados).

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