Há um ano, enjoado com a “esquerda obamista” lusa (e a outra, lá-de-fora; e o racismo negro virado obamista) pus-me a resmungar contra os obamistas – para ter a prova de que estou fora de Portugal há muito: bem que fui gozado por não saber quem era Rui Tavares, o obamista de referência de então, hoje mais célebre pois já eurodeputado do Bloco de Esquerda, a simpática agremiação política portuguesa nada estalinista nem trotskista, ou por outra, nada neo-comunista que tanto atrai o voto dos militantes impensadores portugueses, e acolhe seus filhos e irmãos mais novos nas colónias de férias dos “pioneiros” de hoje.
Quando agora leio que o fantástico Obama se recusa a receber o líder anti-colonial Dalai Lama não posso, entre outras coisas, de lembrar os ruis tavares, os bloquistas de esquerda, os ex (e espero que não futuros) presidentes jorges sampaios. Entre eles há os parvos. Uma pequena minoria. E os patifes. A maioria. É, consta, a maioria de “esquerda”. Sinistra, literalmente.
jpt

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Verdadeiramente lamentável. O Tibete foi invadido e anexado. Parece que foi pior que o que os indonésios fizeram a Timor. Não sabia que esta era uma questão de esquerda-direita mas no Portugal côr de rosa já se viu de tudo. Na América, idem aspas aspas. O desejo de “purificação” pós Bush, um pouco como o desejo dos que elegeram Jimmy Carter em 1976 para limpar a suposta sujeira de Richard Nixon, frequentemente resulta nestas situações. A China exerce a sua pressão e nimguém diz nada.
Não é uma questão “esquerda-direita”. Apenas é uma questão político-ideológica que desmascara o vácuo da questão “esquerda-direita”
Hum… pois.
So para tentar clarificar:
uma pessoa que se identifica mais com politicas de esquerda como redistribuicao progressiva de rendimentos atraves de impostos; providenciacao universal e gratuita de alguns bens e servicos essenciais e presenca forte do estado na economia para regular as relacoes de poder entre agentes economicos e limitar as chamadas “externalidades negativas”, so para falar do campo economico tem o direito a reconhecer as politicas do Obama como mais proximas dos seus ideiais que outras figuras politicas da (ainda) nacao mais poderosa do mundo e por isso preferir a sua presenca na casa branca sem ser um patife e/ou parvo?
E os (ex)-bushistas sao o que exactamente? Ha resmungos para ler?
A ver se me clarifico um pouco tambem: percebo e concordo perfeitamente com o seu ponto acerca da clubite acefala. Dai a sentenciar o vacuo da esquerda/direita vai um salto logico que nao acompanho. Culpa minha porventura.
LL levantando questões mais vastas do que: a) uma mera caixa de comentários; b) o meu parco saber [e vice-versa nos adjectivos].
Apenas consigo: sobre a esquerda/direita ancorada o papel regulador/redistribuidor/potenciador do Estado. Hum, nem chega para explicar a tradicional dicotomia, nem é homóloga face às múltiplas configurações dos Estados e suas dimensões desenvolvimentistas. Parece-me …
Mais, acho que concordamos no vs a clubite. A palhaçada obamista aí dos esquerdalhos foi (e ainda é?) absolutamente deprimente.
Resmungos vs-bushistas. O ma-schamba tem seis anos de resmungos (até há pouco o LNT me disse mero Marreta). Com toda a certeza vs bushismos – em particular vs os tontos da “direita inteligente” liberal aí lusa, completamente pró-bush, nada liberal, diga-se, e ao invés da tradição da direita yankee-desconfiada dos países europeus. Muito ortodoxos, nada blasfemos, se é que me entende.
Acima de tudo, na falta de eixos ideológicos explícitos (ou sistematizados ou confessáveis – em particular os neo-comunistas chics do BE), só resta À pobre e inculta “esquerda” portuguesa o anti-americanismo (embrulhado em sonhos pós-americanos obamistas. Apesar de ele próprio, Obama, afinal apenas Obama). Gringuismos de trazer por casa, aí na santa terrinha, a la obama, a la palin
O Obama tem os mesmos valores de José Sócrates. Por isso não recebe o Dalai Lama. E eu já estou farta de ver o Dalai Lama aceitar muito pacificamente decisões deste género. O Dalai Lama pode ser um bom líder religioso (não sou perita nessa matéria), mas enquanto líder político não presta (nota-se à distância).
A B de Melo: o Tibete não era nenhuma democracia antes da invasão chinesa! A invasão apenas lhe retirou a independência. Assim, nem os chineses são nenhuns benfeitores para os tibetanos nem o regime antes da invasão chinesa era recomendável!
JPT: detestei o Bush, detesto a acção dos neoconservadores ainda hoje mas nunca tive ilusões em relação ao Obama: ele é 90% marketing e 10% de ideias boas (ou menos). E não foi só o Rui Tavares do BE que glorificou o Obama: muito maior glorificação fizeram os PSs. que gosta de citar. O Obama não é aliás, uma paixão unânime “dos esquerdalhos”. E acho que nem todo o anti-americanismo é um clubismo!
Li atentamente os comentários de Sabine. Donde permito-me sintetizar ser a sua perspectiva que a)se o hipotético líder dum qualquer país “não presta” e (não “ou”, neste caso) b) se o regime desse país não for “recomendável”, c) logo, invade-se e retira-se-lhe “apenas” a independência. E o corolário aqui é meu: especialmente se o visado for um Tibete completamente indefeso e o invasor for uma China que tem o tempo, os recursos, a teimosia e a oportunidade de o fazer impunemente.
É isso?
Sendo um atributo peculiar deste excelente blogue o de pertencermos a esta comunidade relativamente pequena que é a que fala, escreve e pensa nesta estranha derivação do Latim que é a língua portuguesa, considero apropriado convidá-la a ver os casos onde, nos últimos cem anos, num dos oito países lusófonos, para não ir mais longe, se reuniram as condições em que, nos termos a que se referiu, se justificaria a invasão (presumo que pelos vizinhos) e (“apenas”) a perda da independência nacional.
A doutrina subjacente a essa forma de ver as coisas já fez jus várias vezes na História e nas Relações Internacionais. Chama-se, alternativamente – ou pendularmente – conquista, criação de impérios, colonização.
É o que eu vejo no caso do Tibete. O Dalai Lama pode ser um líder que não lhe agrade, o Tibete podia ser uma pocilga desgraçada cheia de moscas (não é), mas era dos tibetanos e era para eles decidirem o que querem fazer consigo e com o seu destino, dentro das regras normais do respeito pelos direitos humanos e do direito internacional.
Nem acredito que estou a discutir isto. Mas agradeço o seu comentário e mande sempre.
PS – sobre o Obama é guerra do senhor ao lado.
[...] mais se revela o que sempre foi: ele é 90% marketing e 10% de ideias boas (ou menos). Em Portugal, ao contrário do que afirma JPT, Barack Obama foi glorificado pelos socialistas à procura de um guru, por alguns [...]
A B de Melo:
- São duas coisas diferentes: o lider ser mediocre e o regime não prestar. Que no caso do Dalai Lama se conjugam.
- Nunca concordei com a invasão Chinesa ao Tibete. Não pretendo desculpar os chineses. Os chineses têm vilipendiado os direitos humanos não só no Tibete como em toda a China. A ideia de um Tibete independente e sem o autoritarismo religioso de antes agrada-me.
A propósito: nasci depois de 1974 e sempre fui favorável à independência das colónias.
Sabine, é livre de pensar e defender o o que quiser, especialmente num fórum destes, e depreendo que concordamos no essencial, se bem que não tenha então entendido muito bem o conteúdo do seu primeiro escrito, acima.
Folgo em saber que, tendo nascido após 1974 (eu nasci depois de 1959 e antes de 1961) tenha sido “sempre” em favor da independência dos territórios anteriormente administrados por Portugal. Se bem que, exceptuando Timor, que levou uma esfrega das antigas da vizinha Indonésia, e Macau, que era alugado, a questão seja, especialmente desde que nasceu, meramente académica.
Uma pitada de sal.
Iniciado o corrente ano lectivo, na Filipa de Vilhena – Porto, uma professora de geografia resolveu efectuar, como parece ser usual, testes de diagnóstico.
Fazerem o mapa de Portugal.
NENHUM, ZERO alunos incluíram os Açores e Madeira!!!
Esboçaram apenas o rincão continental!
Isto é público, tendo sido relatado numa reunião de Pais.
Por falar em colónias e suas independências, lembrando-me dos casos específicos de STPríncipe e Cabo-Verde, não teria sido já oportuno ter dado a independência às colónias dos Açores e da Madeira?
Os alunos da Filipa de Vilhena não se devem importar nada mesmo.
Nao estou a tentar ser fastidioso caro JPT, a serio que nao, mas continuo a nao acompanhar o salto logico:
Para comecar a minha descricao dos ideiais politicos de esquerda supra nao e exaustiva, pelo que dizer-me que e inadequada arrisco a provocacao e chover no molhado.
Em segundo lugar se a sua justificacao para um alegado vacuo na dicotomia lateral se percebo bem as suas entrelinhas e que as actuais esquerdas e direitas ja nao pugnam exactamente os mesmos ideias de quando foram fundadas parece-me fraca. Todas as instituicoes e ideias evoluem, trazendo para um exemplo mais comezinho e proximo do seu (e meu) coracao: o Sporting e o Benfica de hoje nao sofreram evolucao desde que foram fundados? Perante um hipotetico sim sera que isso significa que a dicotomia e rivalidade da 2a circular e hoje vazia de sentido?
PS:
E que tal uns links para esses resmungos bushistas. Pode nao parecer mas tenho mais que fazer que andar a vasculhar os arquivos de um blog.
Grande(s) discussão(ões) que para aqui vai(ão):
1B – se me mandassem fazer o mapa de Portugal assim, de repente, também não metia as ilhas adjacentes (ou regiões autónomas, como preferir). E não ando nessa escola. Nem sei bem desenhar as ditas ilhas (e são quantas?). Isso não me impede de protestar os desvarios separatistas da pena (ou teclado) dos assessores do senhor Carlos César e os demissionismos intelectuais dos partidos (e semi-partido Verdes) de rabo parlamentar. Ou seja, a dimensão gráfica não esgota a reflexão.
Quanto à independência das ilhas … se as referidas populações votarem a favor num hipotético referendo livre não me oporia. Lamentaria, mas que fazer …? Proporia sim o veto a qualquer futura entrada na UE, mas isso são contas de outros rosários. De qualquer forma não me parece que seja essa uma questáo em cima da mesa (para além de umas festas mais ou menos etilizadas no Verão madeirense)
1B – de sorriso em sorriso, e já que colocou a questão da autodeterminação para as ilhas adjacentes no contexto deste post, deixe-me que frise que náo me parece que haja uma fundamentação histórica nesse sentido, tal como é consignada no direito que vem sendo reclamado como geral. Ainda assim se quiserem (no condicional) não me parece que deva ser “proibido”
Sabine náo sei bem porquè é que o Dalai Lama náo é bom lider político (confesso que não sou especialista da causa tibetana), mas também me parece que náo é esse o caso.
O debate sobre a “teocracia” tibetana vem à baila quando se questiona a invasão chinesa – quando há poucos anos o Dalai Lama veio a Portugal e se previa a sua ida ao Parlamento o PCP escreveu contra o “cacique teocrático” em mais uma prova da sua inferioridade moral e ideológica. Na prática é a teocracia primitiva tibetana vs a modernidade chinesa, até laica (para nao dizer ateia). Náo me parece que seja essa a questão actual.
ABM e SAbine: não tenho nenhuma guerra contra o Obama (irrita-me o uso político que faz das suas filhas criancinhas, desconfio de um candidato que se passeia no meio dos seus “directores de fé”, mas enfim …) Apoiava, enquanto abstencionista portuguès, o candidato McCain apenas (e friso, apenas) devido a ter lido que Clint Eastwood o apoiava (sendo o homem o meu alter ego como poderia desprezar essa indicação?)
De resto concordo com a SAbine, não são só os BEs esquerdalhos que o apoiavam em Portugal – o homem tornou-se numa espécie de SuperPop Limão, até o escritor Saramago o apoia. Só espero que todos estejam certos, que Obama e o seu director de fé (melhor, ainda assim, do que a D. Clinton que nos confessou na TV que costuma conversar com o Espírito Santo) resolvam os múltiplos problemas do mundo.
LL tive um trabalhão a organizar (e ainda não acabei, é insano) o ma-schamba. Náo posso jurar que esteja tudo o que aqui resmunguei sobre bush ou isso mas deve estar qualquer coisa (mais sobre os luso-bushistas do que do resto) http://ma-schamba.com/cat/eua/ E obrigado pelo interesse
Quanto ao resto, e náo opinando eu sobre instituições bairristas que V. propóe como materia de reflexão, tenho que explicitar a minha discordância. É óbvio que desde a sua fundação o Sporting Clube de Portugal evoluiu. Mas isso náo implicou nenhuma mudança ontológica, continua dotado do mesmo conteúdo, da mesma “alma” se me permite a metáfora
O problema de acordar tarde, de ter algo insípido que fazer logo de manhã (longa longa bicha na Repartição das Finanças, ainda por cima e para variar) e ter ter tão ilustres parceiros neste ténis da caneta é abrir o computador e já estar a perder por cinco bolas a zero. Mas dialogar com tais cabeças pensantes é um prazer – e uma honra.
Mais uma vez refiro que não estou dentro da questão Obama-BE-etc, para além do que vou lendo nestas linhas. Isto em parte porque não consigo levar o BE a sério – como nunca consegui levar o PCP.
O Sr Canário do Luabo (Umbhalane) no entanto comentou algo que merece um comentário. Prepare-se que aqui vai.
É só para que me entenda melhor e a minha posição. Assim fica registado, e quem ler isto, com uma vaga ideia de porque escrevo o que escrevo.
1. Verdadeiramente, Portugal na sua fascinante história de nove séculos colonizou apenas partes do Brasil e partes de Angola. Isto porque a) Portugal nunca teve população suficiente para “colonizar”, nem fora esse o plano e b) se analisar os últimos cem anos antes de 1974, incluindo a vigência do longo mandato do prof dr Salazar, a esmagadora maioria dos portugueses que havia emigrou para o Brasil, a França, Venezuela, àfrica do Sul, Alemanha, Suiça e Estados Unidos da América.
2. Sendo o projecto colonial um suposto desígnio nacional desde uns 20 anos antes da Formação da Sociedade de Geografia em Lisboa (em 1875) há aqui um divórcio básico entre desígnio nacional e fazer o que era essencial para o concretizar; aliás, analise todos os eventos desde a questão de Lourenço Marques em 1869, o Ultimato inglês em 10 de Janeiro de 1890 e subsequentes manobras diplomáticas e poderá, como eu, concluir que a esse desígnio, soberba e milagrosamente preservado pelos sucessivos governos e diplomatas, quer na Monarquia, quer na I República, não correspondeu na prática a mais do que um esforço tépido de demarcação e algum investimento, e no caso de Moçambique (que conheço melhor) de investimento britânico travestido. No caso de Angola houve um maior esforço e outra atitude, veja o que escreveu o grande Paiva Couceiro.
3. Sabe que o relógio das (des)colonizações começou a contar quando, no final da I Guerra Mundial, na Sala dos Espelhos em Versailles, se estabeleceu o princípio – doutrinário a partir de então nas Relações Internacionais – do “direito dos povos à sua auto-determinação”. Na altura um mimo algo quimérico de Woodrow Wilson que ficou no papel e mesmo assim toda a gente pensava que era só para brancos europeus e etíopes …
4. …até que no fim da II Guerra Mundial reúnem-se os poderes victoriosos em São Francisco e não só é aprovada a Declaração dos Direitos Humanos (pela mão da viúva de Roosevelt, Eleanor) como criada a Organização das Nações Unidas (posteriormente instaladas num terreno oferecido pela família Rockfeller em Manhattan) e, pela mão dos americanos, nomeadamente Ralph Johnson Bunche, é estabelecida a doutrina da descolonização e são criados os mecanismos formais de como proceder….
5. …à qual provavelmente ninguém ligaria pevide não fosse o facto de que a) o Reino Unido começou a preparar activamente as suas colónias para a independência (as principais já se governavam a si próprias há muito tempo, a Índia/Paquistão foram em 1947), b) o palco da Guerra Fria moveu-se para o chamado 3º Mundo durante os anos 50, c) a crescente onda de independências, que culminou no ano em que nasci, 1960, e que determinara, uns anos antes – mais visível na conferência de Bandung em 1955 – o aparecimento de um movimento activamente a favor dessas independências (quase a qualquer custo), d) o surgimento de elites locais que articulavam todo este processo muito bem (às vezes bem demais) e de países que dois dois lados (americanos e soviéticos e mais tarde chineses) lhes davam apoio diplomático, logístico e militar.
6. No seu pressuposto da “sagrada herança dos egrégios avós”, de que “os pretos não estavam prontos” e que o projecto era “criar novos Brasis em África”, o que duraria mais uns cem ou duzentos anos, Salazar e, por extensão, Portugal, lidou com marcado sucesso contra esta hecatombe, com cinco factores críticos que eu assinalaria: a) a tomada de posse, nos EUA, de John F Kennedy, que muito activamente conspirou contra os interesses de Portugal (veja um livrinho do Freire Antunes que se dedica só a isso); b) nessa tónica, a tomada do Estado da Índia por Nehru no Natal de 1961, explicitamente apoiada por Kennedy via o seu embaixador em Delhi, John Kenneth Galbraith; c) o gradual envolvimento dos EUA, e da União Soviética no conflito, via estados clientes como a Argélia, a Coreia do Norte e os países da Cortina de Ferro; d) as dificuldades próprias do regime em Portugal, um país com recursos limitados, que era na prática uma ditadura uninominal com a mesma pessoa no poder há trinta anos consecutivos, e) aquilo que eu chamaria “a puta da idade”: quando em 28 de Abril de 1961 a batalha pelas colónias se desenha, o principal arquitecto da sua defesa perfazia 72 anos de idade e não tinha nem sucessor, nem sucessor à sua medida (peço desculpa aos fãs de Marcello Caetano).
7. A partir do fim dos anos 50 já tudo era uma questão de tempo, não de se as independências deviam ou podiam ser feitas. De Gaulle assinalou isso contundentemente na Argélia. Os próprios boers sul africanos, país onde a questão não era a independência mas o governo eleito por voto da maioria (negra) jogaram pelo tempo e tiveram sorte, pois conseguiram aguentar o seu regime até Ronald Reagan acabar com o imperialismo soviético e assim negociar a evolução do seu regime ainda com algum poder negocial e, mais importante, livres das interferências da Guerra Fria (e com a sorte de terem no outro lado da mesa um Nelson Mandela).
8. Como bem sabe não foi o que aconteceu com os cinco territórios que Portugal detinha em África. Não fossem velhas cumplicidades e aquela basesinha aérea na açoriana Ilha Terceira, Portugal agia em isolamento. Salazar ficou incapacitado a partir de Setembro de 1968. Caetano não estava nem de perto nem de longe à medida do desafio (há um livro velhinho do Jaime Nogueira Pinto que até dói ler sobre isso) e a sociedade portuguesa estava minada pela ditadura, pela corrupção e por um crescente desalento em relação ao projecto colonial, para o qual, pelo menos publicamente, nem se aceitava publicamente mais do que uma vaga, nominal, autonomia (até o Presidente da Câmara Municipal de Lourenço Marques era nomeado). Os movimentos a lutar pela independência radicalizaram-se cada vez mais e estavam quase exclusivamente dependentes das armas e dinheiro do bloco Soviético (com uns importantes contributos escandinavos). E da sua execranda ideologia.
9. Para os nativos desses territórios a independência era obviamente indiscutível, fosse quando fosse e fosse como fosse – como infelizmente se viu. O mesmo se pode dizer dos portugueses metropolitanos – como também se viu.
10. Era pois uma questão de tempo. E quando aconteceu, quase nimguém o esperava, quase ninguém estava preparado. Nimguém, excepto os capitães de Abril e aparentemente os 9.8 milhões de “antifascistas” que subitamente surgiram na manhã do dia 25 de Abril de 1974.
Um nota final sobre os Açores, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.
Se Portugal tivesse resvalado para o comunismo em 1975 e a Assembleia Constituinte não tivesse forjado o estatuto da Autonomia, provavelmente os Açores teriam ou ficado independentes ou então, como aconteceu em 1828 aquando da contenda entre Dom Miguel e o seu irmão Dom Pedro, sido a base para uma reconquista. Por acaso sei umas coisinhas giras sobre o assunto.
É minha opinião pessoal que, como os Açores e a Madeira, Cabo Verde e São Tomé muito mais teriam beneficiado em ter mantido o estatuto formal de territórios portugueses, especialmente à luz dos dias que correm, em que Portugal integra a União Europeia.
Mas aconteceu o que aconteceu e o mundo de hoje é o que é. Os Açorianos e Madeirenses são portugueses e os restantes são países soberanos e independentes.
Com um bocado de sorte – e mais tempo -estes povos se darão e talvez um dia os nossos netos e bisnetos se possam sentar à mesa para beber um copito e vislumbrar algumas coisas que temos em comum, nem que seja comer bacalhau, beber tintol, sofrer quando o Sporting, o Porto ou o Benfica perdem, ou ler um bom livro escrito por um de nós sem precisar de tradução.
O sangue derramado, as lágrimas vertidas, as enormes perdas materiais e de oportunidades, a estonteante alegria de ver as independências, perder-se-ão também com o tempo, com estas gerações que já estão a morrer, perante a enorme tarefa de, todos e cada um, construir um futuro melhor.
e fica isto assim, perdido numa caixa de comentários? Ó homem, agora tens um blog, ao menos bloga estas coisas que te brotam quando vens da Repartição de Finanças
Obrigado pelo link JPT, sempre deu para vislumbrar mais alguns dos seus pensamentos sobre o tema, nao e facil porque voce, ja suspeitava, agora confirmo gosta mesmo de meias palavras. Continuo a nao concordar consigo, agora em 3 pontos:
– O la de cima;
– Penso que esta rigorosamente errado acerca do Sporting manter a “alma” intacta (e o mesmo se aplica ao Benfica ja agora);
– A sua embirracao com Obama e incompreensivel, nao reconhecer nele uma fundamental mudanca no panorama politico e ideologico americano (dentro dos limites do possivel como e obvio… presumo) e irracional.
Existem neste momento naquela nacao 50 milhoes de pessoas naquele pais sem acesso a cuidados de saude. Ele tem estado de ha meio ano a esta parte a tentar criar um sistema pelo menos universal de saude por la.
Isto nao e fundamentalmente diferente dos politicos do outro lado da barricada? Nomeadamente o outro que aparentemente e a escolha do “blondie”.
O primeiro acto politico do tipo foi assinar uma ordem presidencial para fechar guantanamo. Tao simples quanto isto, algo que o outro lado da barricada insistia ser um grande problema insoluvel (alegadamente) do ponto de vista legal, tactico e logistico. Problema foi e ainda subsiste, mas e de vontade politica.
Mas uma coisa lhe agradeco:
– faz-me reflectir sobre os fundamentos da minha admiracao pelo gajo e
– questionar os fundamentos racionais da minha conviccao na superioridade moral da esquerda, tanto a original como a actual.
E sobre este segundo ponto reconheco que terei de facto de aprender mais. Obrigado.
PS: ABM, de facto este comentario deveria ser chamado para o corpo principal da chafarica.
Enfim… por outro lado de facto isto:
http://news.bbc.co.uk/1/hi/world/europe/8298580.stm
E completamente mentecapto. Sem me sequer meter a analisar especificos comeco por realcar que o chefe da diplomacia americana nao e o laureado.
Vamos lá a ver, a minha irritação com o tipo (aliás agora ilustre galardoado com o Nobel da Paz) é um bocado reactiva, confesso. Digamos que Obama me irrita malgré lui … o que me irrita é: a) África: “agora é a nossa vez”; b) Europa: “A Améééérica, a Amééééérica”; c) Portugal: o esquerdalhismo obamizado. De resto o homem tem feito coisas – ou querido fazer – simpáticas. Isso do Guantanamo, pois. E aquilo da saúde é lá com eles, mas é-me simpático (mas não me apanhará a fazer blogopropaganda do sistema nacional de saúde americano, acho que é uma maluquice generalizada – toda a gente a opinar sobre a política interna lá do país deles, é o tal gringuismo). Reservo-me o direito de não ter paciencia para as filhotas a discursarem na convenção democratica, para a mulher que se deixa retratar como “rainha africana”, condição à qual tem tanto, repito, tanto direito como eu mesmo (e nao estou a sair de nenhum armário). E mais as patacoadas de que a biblia diz a verdade.
No que náo concordo é no facto de aqui vir dizer que a intemporal alma sportinguista tem sofrido qualquer erosão temporal. É um arquétipo, e assim continuará. Haja respeito …
A superioridade moral de um dos lados. Pois, eu aí não vou opinar, náo pareça que estou a reclamá-la para mim, que é coisa que nem me passa pela cabeça.
(E, agora não para si dedicado, está a ver como o Obama tem razao em nao receber o cacique teocrático que se reclama de ungido dalai lama, o raio do obscurantista? Levou com a medalha a mais o taco nobelesco. Aliás, nóbelesco …)
E o chefe da diplomacia americana, aliás a chefe, deve estar lixada com o seu amigo Espírito Santo. Tantas conversas tidas e nem a presidència nem o nobel …
Exmos
Por puxão de orelhas executivo do JPT e post-scriptum do Sr. Lowlander, irei dar uma marteladazita no “solilóquio histórico das libertações” (que, comos e pode depreender, fiz de esguelha) e inserir como texto de “corpo de chafarica” (O Acordo Ortográfico release 3.0 já tem designação para “post”?).
Fazes muito bem. Será uma espécie de “apresentação” do (já não tão) novo machambeiro. E põe lá, se possível, o nome da bibliografia que evocas (fica sempre bem).
Quanto ao acordo ortográfico acho que o espírito é: escreve como te apetece, perdão, apetesse ka jente precebe
Li algumas referências sobre Cabo Verde e só vos digo uma coisa: o país está muito bem como está.
Claro que sim Amílcar Tavares.
Que continue na boa onda, nesse bom caminho.
Mas poderemos sempre exercitar os neurónios, não?
Sr Amilcar, CV esta mais do que no bom caminho e tem um povo e e cultura excepcionais. Convivi muito com os cabo-verdianos quando vivi nos EUA e estive nas Ilhas ha tres anos em passeio (nao turistico). Espectacular.
Mas nao confunda isso com o que referi e considere o ponto de vista comparativo e do desenvolvimento: nos ultimos 40 anos, choveu dinheiro a serio nos arquipelagos madeirense e acoriano, quase todo vindo dos cofres do tesouro portugues e da uniao europeia. Os efeitos na infra-estrutura, servicos e qualidade de vida da populacao foram dramaticos. CV nao teve um influxo comparativo. Mas nao se poe valor numa independencia, nao e, e como referi o caminho foi tracado e os cabo-verdianos sabem muito bem tomar conta de si. Ha muitas maneiras de desenvolver. Puerto Rico, que foi colonia espanhola e depois americana, optou por um estatuto de estado livre associado dos EUA e beneficou de apoios substanciais dos contrbuintes norte-americanos, quando podia, e teve a oportunidade, de se separar dos EUA.
(desculpe estou num PC sem acentos…
@A B de Melo, @umBhalane:
Concordo. Essas fórmulas (vulgo: boleias) são óptimas e dão resultados imediatos.
Mas, ganhar as coisas por mérito próprio, com muito sacrifício, é “priceless”!
Não é?
Sr Amilcar,
Deixe-me fazer de advogado do diabo por um minuto – e não falo de CV. Nem de mim.
Não concordo. “Priceless” é quando os outros pagam e nós não temos mérito, nem suamos nem sacrificamos – nem sequer temos direito de exigir. Priceless é obter Algo em troco de Nada. Priceless é tomar o caminho fácil. Priceless é chorar baba e ranho para ver se pinga algum sem se mexer uma palha. Priceless é fingir que se merece para receber ajuda quando se sabe que nem se merece nem devia receber ajuda nenhuma. Priceless é estender a mão para uma esmola quando se é pobre porque se é preguiçoso, invejoso e se quer viver como os ricos mas não se fazer o que os ricos (presume-se) fizeram. Priceless é arrogar-se direitos quase dinásticos a apoios sem se ter nem mérito nem moral para o arrogar.
Ganhar as coisas por mérito próprio e com muito sacrifício devia ser, teoricamente, o normal.
Mas neste mundo de filhos da p e do que tenho visto, tem 95% chance que o que lhe passa à frente do nariz nem tem que ver com mérito nem com sacrifício.
ABM náo me parece que tenhas percebido o ponto em questão: “não tem preço” ganhar as coisas com sacrifício, por mérito próprio – é essa a posição comentada, portanto parece-me que Vs. concordam nisso. E também, pelo que AT disse e tu explicitaste “não se põe preço numa independência”.
Eu nao concordo muito com a antropomorfização da questão, isso das sociedades (neste caso os países) terem “virtudes” e “defeitos” que costumamos atribuir aos indivíduos. Mesmo no regime metafórico parece-me que leva a obscurecer os conteúdos sociológicos das coisas.
Bom dia Sr Amilcar e JPT
Acho que parcialmente correcto JPT.
Eu não me referia a países; nem às independências per se – mal de mim e não batia com o que eu tinha dito antes (bem, sempre posso enlouquecer durante o fim de semana e defender conceitos completamente opostos em escassas 72 horas). A antropoformização “parcial” neste pequeno diálogo começou antes quando o Sr AT referiu que “ganhar as coisas por mérito próprio, com muito sacrifício, é ‘priceless’ “.
Talvez com uma ironia um pouquito ácida, refiro-me ao evidente mas pouco estudado fenómeno, comum após a conquista de direitos fundamentais (neste caso, a concretização das independências e das autonomias) em que, dramática e desoladoramente, o acto seguinte não é as elites sacrificarem e suarem por “mérito próprio” para, por seus próprios meios, promoverem a criação da riqueza, desenvolver, educar, trazer conforto e segurança às populações (a real, não a demagógica) e em vez disto ver-se essas elites a enveredar pela apropriação encapotada do pouco que já há, pela definição de coutadas, pela subsidiocracia, pelo “eu sou pobre, tu és rico portanto pagas tu”, pelo uso do termo “cooperar” para realmente dizer “tu pagas e eu gasto como bem me apetecer”, mediante esquemas onde impera a corrupção, o compadrio, o atribuir arbitrário de benesses a alguns em detrimento do todo. Sim, é uma questão social – da sociedade – mas a que directamente está associado um elevado (elevadíssimo) grau de antropoformismo. Pois no fim quem faz isto, quem adopta estas atitudes são homens e mulheres reais, com nomes. Leio sobre eles todos os dias nos jornais e internet. E repara que esta questão não é de forma alguma exclusivo dos nossos brothers and sisters africanos: em diferentes graus, é transversal a todos os nossos países onde se fala português e não só.
Acho que entendi bem o comentário de AT. Por isso mesmo precedi a minha invectiva avisando que ia fazer o papel de advogado do diabo. Pois infelizmente ser-se independente e depois esbanjar esse capital em negociatas, subsidiocracias e corrupção de quem manda parecem ser duas faces da mesma moeda quando acho que a mais idealista visão de AT (idealista mas correcta) é que ser-se independente deve ser prelúdio para, com as nossas próprias mãos, fazer obra.
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