O Trinta e Um da Armada – blog lisboeta que algo me faz lembrar os anos 80s de Lisboa, ainda que sem o viço de então – decidiu comemorar o 25 de Novembro de 1975 colocando uma estátua de Jaime Neves defronte ao Campo Pequeno. Confesso alguma simpatia pelo agit-prop sorridente, ainda que esparvoado.
Mas três notas sobre o episódio: a) o piroso da estátua, tipo estética Pierrot lacrimejante ou menino mijão bruxelense. A pequena-burguesia da capital poderia elevar-se um pouco; b) a bimbalhice da estátua (ou toponímia) de homem vivo, coisa mais apropriada às estéticas dos caciques risiveis lá dos municípios, tipo Prof. Doutor José Vieira de Carvalho, do que ao bem-pensar da capital; c) a insistência na história do “Campo Pequeno”, que dá numa falta de pachorra para a ignorância (que nem sequer é propositada) festiva: o local é sempre evocado a propósito de uma tirada de Otelo Saraiva de Carvalho, essa imbecil e repugnante personagem da história recente portuguesa. Disse um dia o agora coronel Saraiva de Carvalho, chegando de Cuba onde tinha ido a lições, que colocaria os “fascistas” (noção então semanticamente extensa, dada a confusão generalizada e a ignorância política extrema em que o país vegetara e vegetava) no Campo Pequeno. Ainda hoje, 35 anos depois, chega-se a esta altura do ano e os memorialistas gemem ao pesadelo de então. Nunca, por ignorância de acne intelectual ou por mera desonestidade pré-socrática, se lembram de referir que o dito foi em resposta à vox populi de então que reclamava colocar os “comunistas” (noção então semanticamente extensa, dada a confusão generalizada e a ignorância política extrema em que o país vegetara e vegetava) nos campos de futebol (como tinha sido marca particular no então recente golpe de Augusto Pinochet no Chile).
O humor é inteligente e culto (e sério). O resto é uma seca. O Trinta e Um da Armada é, cada vez mais, uma mera seca. A ver se encontro melhores restaurantes por Lisboa do que este fast-food.
jpt

3 comments ↓
A estatua e inenarravel! Fui ver e agora ha uma visao que nao me sai da cabeca: a estatua a avancar toda gaiteira, com os bracinhos a dar a dar ao som da musica La vem o Nody lalalalalalala…. Homenagem ou achincalhe?
A história do 25 de Novembro de 1975 é muitíssimo, vastamente mais complexa do que um “mero” erguer de estátua por estes senhores do tal de blogue a Jaime Neves possa sugerir. Há uns tempos li uma longa biografia de Costa Gomes, a qual indiciava um quase impossível jogo de forças e o xadrez (como sempre, centrado em Lisboa, com sombrios relatórios do Norte e do Alentejo) entre os militares que se opunham e os respectivos apoiantes. Considero que foi um milagre aquilo não ter descambado em tiros e mortes.
Mas acho piada que os senhores do tal de blogue tenham pensado mais ou menos no mesmo que eu.
Mas é como já referi: sair em Fevereiro de 1975 de um Moçambique de pernas para o ar e cair num Portugal ao rubro foi coisa que me chegou para duas vidas, muito obrigado. Fazer engenharia social e económica via revoluções não é para mim, lamento.
Não há nada pior do que quando somos esquecidos pelos nossos.
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