O impensamento na minha terra

Lá em Portugal agora atiram-se a Carrilho, candidato a Lisboa, por causa de umas patacoadas com a mulher e o filho. Ridículas, presumo, que não vi. Ridículas em si, ridícula a utilização da mulher e dos filhos em campanha. Como ridícula foi a utilização da filha de Louçã na sua campanha [mas aí os Bichos-Carpinteiros não se agitaram nem gozaram: é interessante ver que enquanto JMF se preocupa com a deselegância no blog, a sua blogoparceira JAD prima pela elegância do humor]. Porque é, mais vídeo ou menos vídeo, da mesma concepção de indivíduo com exercício político que se trata - o que Carrilho alarga até à utilização da imagem familiar reduz na fundamentação familiar da sua ideologia.

Mas na realidade toda esta discussão sobre Carrilho só demonstra a monumental mediocridade dos palradores, dedicados ao impensamento constante.

Pois à luz da prática política portuguesa Carrilho tem todo o direito, diria mesmo o dever, de utilizar a sua mulher (e porque não restante família?) na actividade política.

Pois, e já aqui o escrevi, tornou-se tradição a utilização política da mulher do Presidente da República, uma afronta ao espírito da República e à própria lei. Entenda-se, a já chamada “primeira dama” tem assessores, até gabinete, que para ela trabalham, cumpre funções de representação e não só (até de política externa). Não está na lei, ninguém a votou, ninguém a nomeou. A utilização presidencial da respectiva mulher é assim um atentado.

Mas o chicquezito pensante, à direita e à esquerda, a sul e a norte, sobre isso nada diz. Esmagado, como povo inseguro que é, pelo peso simbólico do “mais alto magistrado da nação” “comandante em chefe” etc.

Assim sendo se o Presidente usa a mulher porque não hão-de usar os outros políticos? É um uso que se tornou consignado na prática. Mais, se no Presidente é um uso através da utilização dos meios públicos, portanto imoral, ilegal e contra-republicano, no caso Carrilho são apenas recursos privado-partidários que estão em causa. Pelo menos não é ilegal. Como no caso presidencial.

Ridículo? Decerto. Mas menos do que as aproximações à “quasi-mãe da Nação”. E muito menos do que o impensamento de tanto intelecto. Cada vez mais ululante. 

1 comment so far ↓

#1 jpt on 06.17.08 at 1:38

Não é mau lembrar que, quando vai aos jogos da selecção numa toilette ‘nacional’, num trapo abandeirado, além de mais, segundo a lei (se quisermos ser legalistas), ofende um dos símbolos da pátria (dá-me logo vómitos a lenga-lenga da pátria). Triste, triste é pensar que quando chega a hora da verdade, com algumas honrosas excepções, mulheres com carreiras viram dondocas do mais vegetativo que se pode imaginar. A meu ver, a crítica da instrumentalização devia incidir precisamente aí e não nos dividendos ‘imorais’ que os maridos, candidatos a lugares políticos, retiram.

Publicado por: Afonso Bivar às junho 29, 2005 05:33 PM
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