19 de fevereiro, essa que se tornou especial, ano após ano. De a meio do dia me lembar do “mais um ano…”. Há 11 anos que vivo em Maputo. Vim por 3. Vou indo …
(dir-se-á “vou indo”?)
Escrevo à mão, o que me é raro, tão raro que já sou incapaz de textos definitivos quando assim. Uma velha caneta de tinta permanente, oferta paternal (eu em saudades? pois se 19 de Fevereiro). Empapo de suor as páginas e esborrato a escrita, página sobre página, como me lerei? Tenho o polegar direito preso, como se espartilhado entre falange e falangeta (e já não sei o resto, esquecida a ladaínha) - demasiado computador, nem preciso da médica para o dizer…
Nisto de escrever à mão, nisto de data de efeméride, regresso a anos atrás. E daí ao meu país (blogopaís também). Um país livre, finalmente livre da maldita culpa, essa ideia com que a igreja o impregnou séculos a fio. Um primeiro-ministro que mal amanhou o seu cursito, homem de andar a ganhar uns tacos por fora, ilegais, tipo de uns acordos de deontologia desonesta, e agora é uma referência. À culpa diz nada, até aplaudido por quem tecla. E se ele assim, boas notícias para todos nós, pois morta a culpa. A puta da culpa.
Tempo para voltar. Que num país desculpado até para um merdas como eu há lugar. E, se calhar, com uma pitada de cagança mais outra de atrevimento, até vou a referência. Pois como aquilo vai quem não o pode sonhar?
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12 comments ↓
Ambas as pitadas são necessárias para ir a referência. O caminho não é asfaltado. Há, até, quem lá chegue sabendo ler, escrever e ouvir os clássicos — e seja um merdas em figura de gente.
Eu não compreendo que gente cursada se não recorde das dificuldades dos vintes. Ou é porque um gajo para ser PM tem de vir das boas famílias e da alta burguesia?, e só devia tirar canudo quem já era abastado?
Este PM foi um erro de casting no curso e como aluno, como tantos estudantes, universitários e antes disso, que andam lá porque ninguém lhes dá emprego, ou porque os pais lhes dizem que nunca serão alguém sem a merda do papelito que garante que são drs, por burros que saiam das faculdades. Que tem isso a ver com as suas evidentes capacidades como político e governante (ainda que discutível o gosto partidário)?
Não me responda a mim sem responder a si.
Um abraço pela efeméride — dupla ao que adivinho. É muito tempo.
PQ:
1. (já que este post é categoria “Diário”) “Eu não compreendo que gente cursada se não recorde das dificuldades dos vintes.” - eu lembro-me. Fui mauzito aluno, baldas, incapaz. E, muito provavelmente, um erro de casting onde estava (há por aí uns bloguistas que foram meus colegas e que o poderiam comprovar se estivessem para isso). Mas isso não é o ponto …
2. “Ou é porque um gajo para ser PM tem de vir das boas famílias e da alta burguesia?, e só devia tirar canudo quem já era abastado?” - é que não faço a mínima ideia das origens económicas (e sociais) do PM. Se fizesse não me interessariam para nada … Já agora, tenho para aí uns velhos posts na altura da candidatura de Cavaco Silva a PR exactamente nesse sentido - muito me irrita a cagança elistista dos teclistas (já agora, na sua maioria netos de machambeiros armados em finórios de linhagem). Francamente, não percebo como essa parte do comentário me vem cair no colo.
4. “O caminho não é asfaltado.” - nem para todos. Estou um bocado farto de tanto asfalto por aí, pelo menos nas vias de alguns …
5. “Há, até, quem lá chegue sabendo ler, escrever e ouvir os clássicos — e seja um merdas em figura de gente.” - pois com toda a certeza. Até abatem sobreiros…
6. “Que tem isso a ver com as suas evidentes capacidades como político e governante (ainda que discutível o gosto partidário)?” - tem muito. Não o curso, não os cursos, não os galões. Mas o jeito com que foi chegando. Que continua. O gajo é bom? Óptimo, óptimo para o país, que mais posso eu desejar? - não tenho partido e se vivesse encostado as únicas almofadas que ainda reconheço ainda é por ali que estão (coisas da universidade, já agora). E à merda um gajo vai encontrando-a em todo o lado, por isso PS ou outro vou ali e já venho … Vou-me perguntando é se este pacote ideológico, o “desenrasquismo” de cabotagem, é uma boa herança a deixar - ou chega os 3% de deficit público para animar a malta
7. “Não me responda a mim sem responder a si.” Já me respondera.
8. V. é jornalista. Quer-me entrevistar? “o nosso bloguista em Moçambique”? Aceito. Mas vamos combinar as perguntas que V. me pode fazer, tá bem … (não me mandava à merda?) “Não me responda a mim sem responder a si.”
9. Cumprimentos
Dois comentários (perguntas) muito diferentes:
1. Voltas mesmo?!
2. Sabes isso ao certo: Foi mesmo assim que Socrates e os entrevistadores acordaram previamente as perguntas?!
1. Espero (sinceramente) que não. (até me arrepia a ideia)
2. Ponho as mãos no lume sem ter a certeza. Está aí o elo para hipotética confirmação. Ainda que hoje em dia polémicas em blogs-jornais (ver o Abrantesgate) daí sejam risíveis.
Não me custa nada a acreditar que os PMs vão à TV combinando o teor das entrevistas (eles são produto apetecíveis aos anunciantes, mais não seja por isso). O que me custa imenso é que gente que vim a aprender a gostar de ler ache isso “natural”. Ou que se encante com os frutos dos eventos.
Mas também é verdade (categoria “diário”) que inadvertidamente apaguei 28 paginas de um relatorio (”naõ sou propriamente um tecnólogo” como dizia há pouco tempo, caritativamente, o PQ) e estou em directas para o reescrever. E que tenho o polegar fanfo (olha, uma das minhas palavras preferidas e que esquecera). E que se nada disso tivesse acontecido estava na cama ou nos whiskies e não a escrever posts inúteis. Ou seja de que vale toda esta teclice?
3. Abraço
(ah, não disse lá, belo post o teu do outro dia sobre o papa e isso)
ai ai… cá vai. Salto 1, 2, 4 e 5 e 7, ficamos os dois satisfeitos.
6. “Vou-me perguntando é se este pacote ideológico, o “desenrasquismo” de cabotagem, é uma boa herança”
Se alguém matou a ideologia, foi Soares e não Sócrates. Sócrates é um político moderno, no pior que o termo tem. Age como Blair, Clinton, Zapatero. (OK: Zapatero não tem problemas orçamentais, pelo que consegue navegar um pouco mais à esquerda).
Não sei se é boa herança — mas diga-me o jpt como se governa uma nau com as tormentas da (endemicamente fraca) economia acagaçada pelos amarelos e pelo petróleo incerto, do meter o dinheiro pela certa no curto prazo (chamem-lhe bolsa ou apostas mútuas, é a mesma coisa, é consumo de dinheiro e não sementeira), sem os camiões TIR de dinheiro da União (agora é cada tusto regateado e conferidas as contas, o regabofe já era), da sociedade intelectualmente paralizada pelos olhos da serpente da televisão, da oposição acéfala, a globalização, da incerteza terrorista…
Eu cá não sei. Parece-me que em águas destas a cabotagem é mais indicada que o cabotinismo de agir para uma plateia que já existiu, já.
(É isto e apenas isto que me faz escrever, não pense que tenho alguma ligação, não tenho, e simpatias distribuo, como as antipatias)
8. Não combinaria as perguntas consigo. Tem estatuto para muito, eventualmente até para amigo, mas não para combinar perguntas. Pelas regras que aprendi, não se combinam perguntas com ninguém mas às duas figuras de estado concedem-se algumas graças quando as entrevistas são formais e “festivas”, como era o caso.
Já agora: um jornal pode pagar 10.000 dólares para obter uma entrevista em que o entrevistado só responde a questões previamente acertadas, mas não pode acordar temas genéricos com um primeiro ministro para obter a entrevista no dia de anos deste?
9. Os aviões fizeram-se para viajar. Venha cá mais vezes de férias e fins de semana, se puder, mas a mim cheira-me que aí se vive melhor. Com mais entusiasmo e desafios, pelo menos. E, tirando aquilo da língua, cada vez mais a pátria de um homem é onde está a família próxima dele.
9. O problema é que não há Low Cost no vai-vem.
8. O jornal pode comprar entrevistas a quem quiser (até ao gajo do Ma-shamba, a ver se ele vai de férias ver a parte da família que está longe). E até pode (no que o mundo se tornou …) entrevistar o Primeiro Ministro no dia de anos dele (António de Oliveira Salazar não deveria gostar disso mas os assessores dele, mais os tipos do Século et al, deveriam amar fazer coisas dessas - ainda que presume que o António Ferro preferiria, nos seus tempos, algo mais burilado). Eu permito-me dizer que é uma espécie mui baixa de política, e assobiar o seu agente activo (que é o PM, ele não é uma mera vítima da mediocridade ou venalidade alheia: sobrevive disso, produz isso - e não estou a infantilizar os “pobres” jornalistas. Valem o que valem, exactamento como o PM. Mas não estão legitimados pelo sufrágio, daí que sejam “menos” criticáveis) Sei que estou no escorregadio dever ser, mas a “política real” não está na natureza das coisas, é mera ideologia (mero “dever ser”, pronto).
Em suma, anda-se rasteiro aí, produz-se rasteiro aí (o “desenrasquismo” de cabotagem não é uma não ideologia post-engavetamento, é uma ideologia. vibrante, e é isso que choca. Aliás, ela não choca, confronta. O que choca é assistir a quem vai atrás disso
6. Não sei se a sociedade está intelectualmente paralisada - honestamente estou fora há muito; e cheira-me a discurso escatológico. Aliás parece-me que Portugal está hoje melhor do que nunca - se pior ou melhor do que no ano passado ou 2003 pouco importa, em termos de médio prazo está bem e sofre fundamentalmente de “choradismo”. E também não acho que um PM ou PR devam ser pastores, ideológos, ou agit-props. Mas intuo que haja limites para esta maneira de ir.
6. ” a cabotagem é mais indicada que o cabotinismo de agir para uma plateia que já existiu, já” Com esta ganha, não tenho verve para ripostar …
Anda-se rasteiro aqui, facto. A mais níveis do que eu gostaria de admitir. Mas — lá está — também aí as honras não se pode dizer que tenham sido inauguradas pelo Primeiro de hoje.
Eu, pastoreios, só gado. Pessoas pensam, honram-se. De um PR espero acção e que não se engane demais. Cavaco deu acção mas enganou-se um bocado e depois dele foi sobretudo retórica e boas intenções, valeram alguns ministros esparsos. Este volta a dar acção e vejo-o acertar mais que errar — vou-me lá agora importar com as miudezas, eu moelas é petisco, não prato principal.
(Apesar de entusiasta sou um desiludido com a raça humana mais as suas virtudes, já deve ter reparado.)
Fique bem, tenho aqui um projecto ao lume para apresentar amanhã, ou mais logo.
1. “Pessoa pensam, honram-se” - pois, exactamente. Está aí o motivo do texto, é bom perceber que, afinal, concordamos na forma. Mas não tanto no conteúdo
2. bolas, o projecto ao lume? o que os semiólogos do meu tempo gostariam de ter maquinarias destas …
Bom dia JPT,
11 anos são muitos ! O mesmo vivi eu em Angola mas foi até 1964…mas a atracção por África é sempre grande.
Se voltar volte porque sim e não pelo país que, de momento, não gosta. Será bem vindo e cáestando verá que também não é tudo tão escuro como parece.
E cada um é referência naquilo que sabe fazer e não naquilo que os outro pensam que ele sabe fazer. As eleições de 2005 não foram para a Ordem dos Engenherios forma para a AR. E Sócrates foi escolhido para 1º ministro e não para bastonário.
Para quem discorda das suas ideias e do seu programa é combatê-lo nesse plano…mais uma razão para o seu regresso ser bem vindo.
Cumprimentos
AP 1. eu gosto imenso do meu país. 2. estou certo que serei bem-vindo quando voltar - seria uma tremenda arrogância pensar o contrário. Quem sou eu para ser mal-vindo algures? 3. Em 1964 apareci eu… 4. não vou insistir, julgo ter sido sobre as aventuras socráticas. Mas convém ter um bocado de memória: santana lopes quando PM foi vilipendiado (e merecia-o, estou ciente) por ter dado uma entrevista num sofá baixo e de pernas relativamente abertas (lembra-se). O actual PM tem um percurso de baixezas deontológicas e as pessoas (ou muitas delas) encolhem os ombros. Há algo de estranho nisto, cada um que adjective como quer - mas se me dizem que o tipo é fabuloso, excelente PM, para quê resmungar. O que interessa é o acesso à Liga dos Campeões, não é assim?
cumprimentos, obrigado pela simpatia
11 anos???? a que recordar aqui os tempos de adido cultural, por ali tinham chances os artistas plasticos, era a sala de exposicao com variedades, mas tambem as conversas do corredor ecoavam o parabens de alguem que actulmente para alem da Ilha, docencia tem um “Ma-schamba”… para quando um exposicao colectiva da sua coleccao de obras JPT uma sugestao…
Grato pela simpatia. Exposição? Eu não tenho muita coisa, há anos que não compro quase nada - o taco ficou muito curto, algumas alturas de aperto (e agora é outra). E tenho uma parede cheia de obras oferecidas que nunca chegaram … (os grandes nomes são muito “generosos” de boca)
Mas é uma boa ideia, sei que há duas ou três exposições de colecções particulares em gestação - lenta, lenta
abraço
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