Eu, membro confesso do “submundo”

[Texto alterado, amansado na forma, depois de ler este texto de Paulo Pinto Mascarenhas]

ainda assim permito-me ao elogio (imundo, dada a minha condição putrefacto-rastejante)  deste texto do Hoje Há Conquilhas, em especial no que acertadamente diz sobre a mediação política e a bloguismo. Vem isso a propósito de que dois políticos portugueses, António Costa e Pacheco Pereira, concordaram sobre o bloguismo português ser este um submundo (com a ressalva de 1%). Apesar de mim acho algo estranho:

a) o bloguista médio é o eleitor, portanto os dois políticos desconsideram os eleitores como “submundo”. Espero que repitam as afirmações durante a próxima campanha eleitoral.

b) Também acho estranho que um político no activo seja comentador político – que grau de esquizofrenia será necessário para que António Costa, presidente da câmara de Lisboa, comente com alguma latitude assuntos políticos camarários, da sua ou de outra câmara?

c) E ainda acho estranho pois dizer que “eles” (os bloguistas, ou seja “nós”) são (somos) ”submundo” é o mesmo tipo de raciocínio iletrado, adverso à análise, que invectiva “eles” (os políticos), esse “eles são todos iguais”, uns “malandros” – há muitos anos o Miguel Esteves Cardoso escreveu uma deliciosa crónica exactamente sobre esse “eles”. De Pacheco Pereira não se esperaria tal deslize populista.

d) A única vez que falei em público por assuntos não profissionais foi em Outubro de 1983, numa RGA da faculdade de Direito. Falei porque dias antes José Apolinário e António Costa, então líderes da Associação de Estudantes, tinham entrado na nossa turma de 250 caloiros para que votassemos uma moção de apoio à Associação. Recusámos, acabados de entrar não os conhecíamos e exigimos votar a moção em três pontos separados: o apoio ao diálogo com a Reitoria passou, as duas alíneas de apoio à Associação e aos seus métodos e reclamações foram “chumbadas” (com 95% de abstenções, exactamente por não os conhecermos). No dia seguinte o átrio da Faculdade de Direito apresentava um grande cartaz com os resultados das votações: lá estavam os resultados da nossa votação, elidindo a verdade, sublinhando o apoio da turma do 1º ano à Associação de Estudantes.

Para mim ficou sempre esta memória de José Apolinário e de António Costa, a de tipos de um partido democrático, que já crescidos aos 23 ou 24 anos, finalistas de Direito num regime já estabelecido democraticamente, falsificavam os resultados de votações democráticas. Cada vez que vejo António Costa, ao vivo nas visitas a Moçambique ou na TV ao lado de Luís Filipe Vieira lembro-me do nojo de então, da minha irritação, corado no palco de Direito a falar para os mais-velhos de então.

Mas não me posso admirar. Afinal ele é político. E “eles” são todos iguais. Um submundo.

Meus manos, pelos vistos.


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7 Responses to “Eu, membro confesso do “submundo””

  1. PreDatado diz:

    Caro JPT,
    Há muito que deixei de ver a quadratura do círculo. Desde sempre que achei que o nível era o das conversas em família, embora não a uma voz mas sim a três (quatro com o fraquissimo moderador) praticamente da mesma família. Aquela pincelada de pseudo-esquerda que de vez em quando lá aparece (vidé percurso político de José Magalhães e político-empresarial de Jorge Coelho) é como dizia um amigo meu para enganar guarda-redes. Ao contrário do JPT eu não acho que “eles” sejam todos iguais. Acho apenas que são iguais, embora uns um pouco mais iguais que outros. Subscrevo-me, de sua irmandade com consideração, Uma Ratazana acabada de sair do lixo.

  2. jpt diz:

    Vamos lá, eu não acho que “eles” são todos iguais. Acho é que há homologia intelectual entre o discurso que invectiva 99% dos bloguistas e o que faz o mesmo aos políticos.

    Eu nunca vi o Quadratura do Círculo. (mas já agora, desde que não seja o Rui Patrício, que enganem os guarda-redes …)

    Abraço arratazanado

  3. sabine diz:

    De António Costa é melhor não esperar nada de bom, sobretudo depois da história que conta.
    De Pacheco Pereira é preciso esperar isso e bem pior. Nunca vou esquecer nem perdoar um texto que ele escreveu à alguns anos sobre a blogosfera em que este pseudónimo – SABINE – era referido. Nem dos textos que escreveu depois desse sobre a blogosfera!

  4. LNT diz:

    Ora, ora, meu caro comendador

    Então vexa foi ao meu estamine anti-social deixar que lá não voltará porque não se quer confundir com o submundo, coisa que a ser verdade o indica como sendo do Mundo, isto é, a comenda dá-lhe direito a pertencer à minoria do 1% que na CML e no Abrupto é quase aceitável.

    Seja, não frequente mais aquela casa de má fama, mas reconsidere a honra de ser seu mandatário. Nunca tinha sido mandatário de ninguém e não abrirei mão da honraria sem me bater como um barbeiro arratazanado.

  5. jpt diz:

    Saiba, caro ex-mandatário, que V. nem é dos piores desse seu mundo. Mas questões familiares impedem-me de continuar a frequentá-lo, bem como aos seus pares. De qualquer modo se algum dia lhe puder ser útil, e aos seus, disponha – nós, aliás, Nós sabemos estar, e sabemos que isso nos obriga a algum convívio com Vós, aliás vós.

  6. rui mota diz:

    Do Pacheco Pereira não esperava a declaração, mas, pensando bem, há muito tempo que ele pensa que o “abrupto” faz parte dos tais 1%.
    Do António Costa, para além de não saber do que estava a falar (percebia-se isso pelo tom displicente com que resumiu a “questão dos azulejos” a um equívoco de gente bem intencionada) fica a ideia de um político incomodado pela crítica à má gestão do espaço público.

  7. [...] – Tomás Vasques – Hoje há conquilhas amanhã não sabemos (aqui, aqui, aqui e aqui) – Paulo Gorjão – Vox Pop (aqui e aqui) – Rui Vasco Neto – Sete vidas como os gatos – Pedro Correia – Corta-Fitas – Valupi – Aspirina B  – Paulo Pinto Mascarenhas – Atlântico – José Pimentel Teixeira – Ma-Schamba [...]

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