Portugal. ‘E uma questao de espirito, ou de falta dele. Falta de “democraticidade”, de apego pela democracia, pelo exercicio publico ou privado da opiniao - sendo esta desinteressada, desinteresseira, interessada ou interesseira, informada ou desinformada, esperta ou imbecil, ‘e ela, sao elas, o seu entrecruzar, que contam. Estar contra isso nao ‘e arrogancia, ‘e mero acantonamento. O acantonamento do poder, crispado. Suicidario: felizmente, pelos energumenos que la estao; infelizmente, pela democracia que assim se impotencia.
Dai esta ligacao ao Avatares do Desejo, um completamente de acordo: no apontar o dedo aos tiques persecutorios, censorios, policiescos de um presidente da camara e do seu sequito (Rui Rio et al); no detectar-lhe a osmose (o humus adubado sera o mesmo) com a directora Margarida Moreira (que confirma usar os servicos do Estado para recensear “…tudo o que tem saído na comunicação social, nos blogues, ofícios, em tomadas de posição, em artigos de opinião..” que a critique, coisa muito para alem do mero arquivo de um organismo publico)), partidaria da delacao, da denuncia anonima, da abjeccao moral (que leio ter sido chefe de gabinete de Augusto Santos Silva - a ser assim confesso o meu incomodo, como justificar um regresso aos textos de um brilhante sociologo se homem turbo deste lixo? Frise-se, um homem desonesto nao pode ser bom cientista social pois obviamente falsificara o real para acorda-lo a sua retorica. E so um homem desonesto pode, dizendo-se democrata, ancorar-se nesta gentalha).
Estes tiques do poder sao continuos. A esmagadora maioria nao vem para o publico. Lembro ha anos que um contratado de um ministerio assistiu a uma audicao parlamentar a um secretario de Estado da cooperacao (o cujo, alias, ate me foi simpatico quando o conheci aqui). Dessa reuniao fez uma analise critica e fez circular via e-mail. Foi despedido. Uma tecnica dos servicos estatais fez um mero FW desse e-mail: foi dispensada. Nao ‘e diz-que-diz: conheco todos, ate aos que nem aparecem neste breve resumo e andaram a tratar dos processos.
Da delacao lembro receber de um importantissimo mas mero director-geral um documento oficial, assim espalhado pelos arquivos de multiplos organismos estatais. A instrucao era simples, que eu “comentasse” uma carta anonima, ali reproduzida, falsificando um “pretogues” para parecer obra de mocambicano como se estes fossem o colonial Parafuso. A carta dedicava-se a vida de uma professora portuguesa, criticada entre outras coisas, lembro, por frequentar a esplanada do Hotel Polana. “Comente” tal merda, mandava o miseravel director-geral, ainda que importantissimo (desses que nao so aceitam como induzem o tratamento de “Professor” bem antes do doutoramento). “Uma carta anonima nao se le”, comentei ao “doutor”. A professora nao ficou no seu posto, claro esta. Parece que ia ao Polana …
‘E tambem por isso que nada concordo com o sumo do Eduardo Pitta: os aqueles nao sao melhorzinhos do que os aqueloutros. ‘E um ambiente, um modo de viver, um achar que (tem que ser) ‘e assim - os episodios acima sao historias daqueles e daqueloutros, os canalhas ainda sao ou sao-no outra vez ou virao a ser “directores-gerais (nao) professores”. E ‘e por isso que insisto com o Lutz: os inimigos sao estes, nao o folclore autoritario sim o real autoritario.
(o objectivo do Ma-schamba quando o reabri era nao falar de Portugal. Mas eh um bocado dificil evitar a esparrela bloguistica, caramba, o rincao geme e um tipo irrita-se, quixotesco, familia dixit.
Tem custos isto - como o de perder elos em neo-blogs mocambicanos. Cada um bloga como quer, cada um ela como quer, e ainda por cima hoje os elos nao sao o motor de leituras que foram ha anos. Sao mais um simbolo de relacionamento. Mas ao ver um blog abrir com o primeiro elo aqui a velha casa e reparar na sua queda sorrio ao chauvinismo bloguistico. Tao digno como o chauvinismo. Tao esperto como. Seja qual for o rio que banha o dono.)

4 comments ↓
Meu deus! Percebi bem? Um blogue moçambicano deslinka-te porque criticas o governo português???
Bem, um link dum blogue destes seguramente não interessa, não deve interessar, mas triste é…
De todo o assunto que refere fun lendo aqui e ali em retalhinhos e pareceu-me penoso: a suposta (vamos faze-lo bem) falsidade do título do 1º ministro, etc. O feito de que se poida despedir a uma pessoa (era funcionário?) por esse motivo paréce-me assombrosa (podera ser denunciado por injúrias mas despedido antes de julgado?), mas o que acabo de ler neste post supera a minha capacidade de comprensão se é que estamos falando de um Estado democrático. Lembra o famoso romance de G. Orwell, 1984.
JPT, não sei se costumas visitar o Glória Fácil, mas vale a pena ler este post
Orwell nem tanto, apenas gentinha a elevar-se a gente.
Lutz, não será porque critico o governo português (aliás é interessante ver como no bloguismo moçambicano se sucedem entradas solidárias com o Portugal Profundo). Acredito que seja porque falo de Portugal, e pouco-pouco justiça me seja feito. Não é verdadeiramente importante, ainda que a pessoa em causa, que não conheço pessoalmente, seja muito louvável. Mas é denotativo de questões étnicas, chamemos-lhes assim
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