Um exemplo de democracia?
O ministro da defesa português, Augusto Santos Silva, em declarações ao jornal “i” invoca Péricles, o grego, como supremo mane do seu pensamento estratégico. E fiel a esse antepassado de democracia, e como tal à transparência das instituições estatais face aos cidadãos a que servem, informa via jornal que Portugal passará a ter espiões militares no Líbano. Saúdo este exemplo cristalino de democracia do governante.
Ou será (apenas) um cúmulo de estupidez, de “olhem para mim aqui ministro” a tanto pensar e fazer?
Aproveito para recordar uma velha entrada do ma-schamba, onde lembrei quando o jornal “Independente” publicou a lista dos espiões portugueses, era Veiga Simão ministro da defesa de António Guterres (finais do século passado). Nunca então se investigou verdadeiramente quem tinha passado isto para o jornal, quase obrigatoriamente um parlamentar não-socialista da Comissão de Defesa. Ou seja, nunca ninguém se interessou por inquirir (e prender) o traidor que era deputado. Nem cuspir na cara dos filhos-da-puta do “independente” (director, accionistas e os seus trabalhadores que não se demitiram no momento imediato – presumo que todos) que a troco de uma “caixa” varreram os interesses do país (se bons, se maus, é outra coisa, mas discutível de outro modo). Ou seja, traíram – como antes se dizia. Como hoje se deve dizer.
Seria interessante que os blogs portugueses – cheios de jornalistas, tantos deles -, e em particular os de “direita” (tradicionalmente mais sensíveis a estas questões e a estes valores) que com toda a certeza hoje se vão rir e pontapear o supra-pontapeável Santos Silva (paz à alma do sociólogo, precocemente falecido) tivessem um bocado de memória. Porque “honra” (antiga concepção hierárquica) ou “dignidade” (actual concepção equitativa) é coisa que, vê-se por este exemplo, não abunda. Um mundo de santos silvas, é o que é.
Adenda: em comentários e textos alheios referindo este texto surge o nome de Paulo Portas como envolvido neste caso, na sua condição de director do Independente. Ao escrever o texto pensei que o referido chegaria para o situar temporalmente [Veiga Simão ministro de Guterres, finais do século] mas pelos vistos isso não chegou, dado o peso da memória que há de Portas nessa condição. Então aqui fica a adenda, Portas há muito que não era o director do jornal nessa altura.
Abaixo, nos comentários, o comentador P.R. diz que isto é uma “desculpabilização” do presente. Não me parece, ou pelo menos não o entendo. Associei, de imediato, os episódios (que são muito distintos em termos de mau-funcionamento, este apenas um exagero comunicacional do ministro) no sentido de frisar uma “leveza”, um “descuido”, do Estado no tratamento que dá aos seus serviços de informação (os secretos e os militares). Se calhar, e pensando melhor, ainda bem que assim é.
jpt





Uiiiii !!! Foste muito bem!
Muito bem escrito, de facto, “a troco de uma “caixa” varreram os interesses do país” e ninguém se importou com isso. E porque importaria? Relativismo moral impera na Europa e não só nela…
Não se deve desculpabilizar o presente com base em falhas do passado ou passaremos o tempo a nivelar por baixo sucessivamente.
PR: a) não me parece que se possa retirar do texto qualquer desculpabilização do presente;
b) como já disse em comentário num texto acima julgo que estes episódios são diversos. A divulgação pelos serviços parlamentares e pelo jornal dos membros dos serviços secretos portugueses é um caso gravissimo. Estas declarações de Santos Silva são apenas descabidas: os serviços de informação militar não são secretos (ou, pelo menos, não funcionam apenas nesse registo), e como tal não há qualquer periculosidade que seja associada a estas declarações (há um post no 31 da Armada a este respeito que é um perfeito disparate). Estabelecem-se com concordância dos locais que os recebem – é disso (independentemente dos seus contornos) que ASS falou. Mas são descabidas, pois fazem associar esta actividade com o vulgo “espionagem” – se a palavra “espiões” foi de ASS é grave, mas até presumo que seja de redacção do jornalista (como quase sempre facilitando na expressão, até por desconhecimento do que está a falar). E também porque a discrição, até para consumo interno, é o requerido. A azáfama pública que isto gerou é prova suficiente que o ministro falou mal.
Mas é, repito, um caso de entoação. Não de acção, como o foi o que aqui referi.
isto gerou é prova suficiente que o ministro falou mal.
Mas é, repito, um caso de entoação. Não de acção, como o foi o que aqui referi.
[...] Marujo, no Cibertúlia atentou neste meu texto sobre espionagem e fez uma ligação. Aí mesmo, em teclado corrido e em conversa pouco cuidada com o [...]