6.2.

Outras sociedades históricas (e não digo todas porque não o posso empiricamente comprovar) usam e usaram práticas abortivas como mecanismos de controle de natalidade. Controle global e controle individual da reprodução. Ligados a concepções sobre os recursos existentes, gerais e os disponíveis em cada caso particular.

Também é (ou foi) recorrente a prática do infanticídio. Como forma de controle da reprodução legítima, ligada a concepções de descendência legal. Como efeito de concepções simbólicas e/ou de saúde/normalidade [em algumas sociedades africanas o infanticídio de albinos e/ou gémeos, p.ex.].

O infanticídio horroriza-nos. Mas, se não formos anacrónicos, poderemos entendê-lo (também) como prática de controle em sociedades onde a concepção de pessoa, ou de início do percurso da pessoa social, é algo diverso.

Mesmo entre nós ainda não há muitas décadas se baptizava as crianças, se lhes dava nome, personalidade social, apenas após aquele ano em que elas provavam poder medrar. Vingavam.

Em quantas sociedades as recém-nascidos não são “chorados”, ou seja, não são carpidos, não são ainda pessoa social, a sociedade não cumpre luto (claro que são chorados por pais e parentes, mas isso é outra dimensão).

Ligeiro exemplo: onde vivo posso perguntar a quem acabou de ter um filho, “então que nome tem?” que a resposta será “vamos ver”, ou seja ainda há-de ser pessoa, ainda há que escolher (ou ser escolhida) o laço com os antepassados [lá está ele com o “exótico” dirá o mais imbecil dos visitantes, que os há decerto; não, apenas o “igual”, com outro requebro, mas isso entenderão os outros visitantes]

Este argumento apenas para salientar, não é apanágio da sociedade ocidental, portuguesa, esta vertigem de controle da natalidade, nem esta manipulação estratégica dos corpos das mulheres (porque é disso que se trata, da manipulação social dos corpos das mulheres, ainda que sob ideologia individualista, onerando-as dos custos morais ainda para mais).

É fenómeno recorrente. O que será novidade é o facto de se estabelecer em sociedades de opulência. Sim, coloquei o termo que pensei, “opulência” não está ao correr da tecla.

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