Mas poucos o fundamentam coerentemente. Como se houvesse um mal original que poluísse a noção do que defendem.
Não li nada tão explícito, ponderado, tolerante, tão certeiro como isto:
“Por motivos diferentes, muitas mulheres optam por interromper a gravidez, abortando o feto que têm em seu ventre. Há certas ocasiões em que as razões que as levam a esta decisão são de carácter económico, porque o casal, ou a pessoa, considera que não tem os meios necessários para manter a criança que iria nascer, tomando em conta as exigentes necessidades que a nossa sociedade impõe aos seus membros. Outras pessoas optam pelo aborto porque consideram que emocionalmente não podem enfrentar todas as implicações que significa trazer um ser humano a este mundo. Certas sociedades modernas estimulam o controlo da natalidade por considerarem que não podem solucionar os problemas que um aumento de população representa. Um dos métodos de controlo é o aborto.
Toda a mulher deve poder decidir por si própria o que deseja fazer com o seu corpo. O Talmude afirma: “Úbar yérej imó”, que significa que o feto faz parte do corpo da mulher e por isso carece de individualidade própria.”
O último parágrafo tem um valor extremo, como num particular contexto teológico se conceptualiza a relação mulher / feto. E, portanto, como se conceptualiza este último.
Aceitando esta concepção ou não a aceitando, ela não deixa de ter esse estatuto. A de um particular contexto cultural/religioso/teológico (escolha-se). Alto estatuto, digo. Mas particular.
Portanto dificilmente reclamável como certeiro porque universal por quem se levanta contra outros (pre)conceitos religiosos/teológicos/culturais particulares.
[Quem exige um pensamento laico não pode andar à cata de uma concepção religiosa particular que caiba na sua concepção - e isto não se refere obviamente ao autor do blog em causa, que a cada post que passa mais prezo]
Já o parágrafo primeiro descreve um conjunto de razões para abortar. Reconhecíveis para as sociedades que conhecemos. Todas derivadas de e ancoradas em valores sociais. Nenhuma restrita à relação mulher/feto e sua concepção.

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