Ainda que com algum atraso aqui transcrevo a crónica semanal do frequentador e patrocinador da Ma-schamba
António Botelho de Melo
“A Escolha Acertada”
14 de Junho de 2004
Esta semana tornou-se óbvio que, perante o acontecimento quiçá mais histórico para a Europa desde que os exércitos americano e soviético agressivamente marcharam para capturar a Berlim Nazi e, no processo, desfizeram o sonho do III Reich de Adolf Hitler, a reacção mais observável nos cidadãos europeus ao projecto europeu foi entre uma indiferença quase total e um ténue comentário em relação aos partidos políticos no poder nos seus respectivos países.
Refiro-me, especificamente, à eleição no passado fim de semana, para preencher os 732 lugares no Parlamento Europeu, um órgão supostamente primordial – seminal - da legitimidade do projecto da criação de uma versão tribal e sui generis de uns Estados Unidos da Europa – a União Europeia (EU).
Em Portugal, o torpor quase patético de uma campanha essencialmente o mais bocejante e patega possível, completamente inútil e obliterada pelo início do campeonato europeu de futebol, que ali se realiza graças ao avaliante esforço do célebre comunicador televisivo e agora alegado serial pedófilo Carlos Cruz, e por um fim de semana longo com “pontes” por tudo quando é de sítio (parece que foi tudo para a praia e para a casa de campo passar o feriado de 10 de Junho), foi só algo sacudido pelo sentimentalismo oportunista de alguns políticos, quando um candidato do Partido Socialista, o ex-ministro socialista António de Sousa Franco, o tal que entre a certitude das contas e e a emoção das questões sociais escolhia a segunda opção, morreu de um ataque cardíaco.
“Era um santo”, foi o consenso geral imediato. As televisões tentaram explorar o evento ao máximo, sem grande sucesso, pois o foco geral era naquilo que se tornou na inesperada derrota da equipa de futebol portuguesa perante a suposta e tecnicamente pindérica equipa da Grécia (por dois golos a um) e o ritualismo gótico e quase imperial que a viúva de Ronald Reagan, Nancy, achou por bem dar ao funeral do grande ex-presidente norte-americano, e que incluiu andar na CNN ao vivo a passear o caixão para trás e para a frente entre o Capitólio em Washington e a biblioteca presidencial em Simi Valley. Tudo isso vi no conforto abastado de um Holiday Inn em Sandton City, o principal centro do mundo com dinheiro em toda a África.
O que aconteceu foi que, em termos do que os políticos consideram desejável, a eleição em Portugal foi, no mínimo, desinspirada. Isso é confirmado por uma taxa de abstenção quase anedótica face a outros escrutínios. Na Polónia, que acedeu à União há pouco mais que um mês, cerca de noventa por cento do eleitorado escusou de se dignou votar. E supostamente lá não há praias algarvias. Os portugueses votaram mais – diz um artigo do Diário Digital de segunda-feira que se incomodaram nada menos que 3.393.670 eleitores portugueses. A percentagem dos votantes não chegou aos quarenta por cento.
Mais importante, ninguém parecia ler os resultados e tirar deles as devidas ilações políticas. O que parecia claro, sim, é que uma minoria politicamente activa (ou “activada”) achou por bem votar neste ou naquele sentido, tipicamente para mandar recados aos partidos no poder, mas a partir daí a indefinição era quase total. Essa minoria, como vem já sendo típico dos apetites do eleitorado português, achou por bem dar uma “tareia” política à coligação que governa, dando ao Partido Socialista e aos seus parceiros ideologicamente mais próximos, uma maioria qualificada – a maior desde o pronunciamento do 25 de Abril de 1974.
Estando Portugal a ferro e fogo em boa parte devido aos deslizes programáticos e orçamentais do PS do tempo do Engº António Guterres, tal é tão caricato como de esperar. Mais ainda se se tiver em conta que o Dr. Durão Barroso e a sua equipa, nestas circunstâncias particularmente delicadas, vêem-se forçados a ter de desmantelar uma boa parte do edifício socialista-nacional-porreirista que foi sobrevivendo estes anos todos e que tornou Portugal mais pobre e menos competitivo, em particular face à concorrência dos novos membros da UE.
Mas a verdade é que, apesar de imensa legislação comunitária estar já a emanar a partir do aparato que é o Parlamento Europeu em Estrasburgo, a instituição continua a ser vista como uma emanação exótica e obscura do aparelho político, à falta de uma África, Ásia ou Oceania distantes, um bom sítio para mandar políticos no ócio e/ou carecidos, ou merecedores, de uma bendita injecção de cash no bolso, com a vantagem adicional de ficarem também longe da casa para chatearem a sério.
Ou seja, de facto, para metade do eleitorado, a decisão, este domingo, de ir para a praia muito provavelmente foi a escolha acertada.

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