The Clash

Agosto 27th, 2010

Na passada semana aqui ficou um texto sobre o bloguismo português que correspondeu a um simpático convite do Pedro Correia, do Delito de Opinão para colocar naquele blog um texto. Trago-o agora para aqui, mania de ter arquivo próprio e também para que alguém hipoteticamente interessado e a quem tivesse escapado o possa ler:

Agradecer ao Pedro Correia este convite para escrever para o Delito de Opinião não é protocolo. É contexto do que se segue. Pois mesmo que blogo-veterano isto de meter algo num grão-blog, como o DO se tornou – o único dessa mole que consumo diariamente -, levanta logo aquela velha questão, até de algum stress, do “o que dizer a estes tipos?” – os muitos, e nisso louváveis, aqui leitores. Um imigrado treme nessas coisas, devo meter um requebro semi-tropical?, uma ponte inter-continental?, um daqui “estamos juntos”? um voo rasante sobre o onde vivo?. Ou restrinjo-me à parca política lusa, também ela habitual no DO ainda que felizmente nada monopolista? E nessa hesitação, até pobreza, é o cidadão que convoco, sai-me texto sobre o aí, o aí da política. Esse aí que há anos vou sabendo fundamentalmente por via dos blogs – se exceptuarmos a fértil actividade futebolística. Então boto sobre blogs, esse “espelho da nação”, pelo menos para alguns – que nesse blogocentrismo não serei o único emigrante, sei-o bem por anos de entre-bloguismo.

Longe vão os anos 2003-4 onde a gente apareceu desatinada a botar opiniões, frenética nas teclas, cada um pontapeando ou beijando o que que lhe ia na alma, tempos onde se afirmaram alguns manitus da opinão livre, desassombrada (idólatra que sou fiquei-me romeiro do jaquinzinho jcd, Lucky Luke do bloguismo, genial destruidor do anacletismo nacional). Os tempos foram passando e o colectivismo (nada liberal, diga-se) veio a impor-se no bloguismo, as grandes congregações bloguistas tornaram-se um must, na dita “esquerda” e na neo-dita “direita”. Então o motor dessa agregação chamava-se blogómetro, que os sonhos de teclistas lisboetas (e, vá lá, portuenses) eram o de destronar, abruptamente, José Pacheco Pereira do papado bloguista. Formaram-se e reformaram-se ene blogs evangelistas, de porta em porta, arengando os respectivos profetas. Era engraçado, naveguei então nesse encapelado mar de links, sentindo-me em casa – entenda-se, vivo num país [Moçambique] cuja grande revolução da actualidade é a monoteísta, são omnipresentes os profetas e profetismos, as igrejas e correntes “africanas”, a evangelização e a coranização (coisas de que não se fala na RTP-África, mas do que se poderia esperar daqueles funcionários públicos tão dependentes do senhor secretário de estado do momento?). In-blog, chegado a casa, era quase como estar lá na rua, nos distritos (no mato, dizem os de fora), ouvindo o “alá é grande” “deus nosso senhor tudo pode” e essas coisas. Claro que aí Zizek ou Hayek (ou Hayeck?, para recordar a mais profunda discussão teórica de quase uma década de bloguismo em Portugal) eram os profetas ministrados – enquanto uma minoria, aquela burguesia que vive nas vilórias, libertada do jugo das machambas e já em casas de alvenaria, falava em Blair como reencarnação do bem.

Entretanto o Paulo Querido vendeu o weblog.com.pt e o blogómetro perdeu alguma panache. Ainda por cima ninguém – nem mesmo os jornalistas lisboetas, frutos do caldeirão Frágil-Jamaica/Tokyo  - conseguia deitar abaixo o jpp do pedestal quantitativo. Adivinhava-se a crise, um desgaste do ânimo. Mas alguma blogo-esperança renasceu quando Vasco Pulido Valente e Constança Cunha e Sá irromperam, imperiais até, no bloguismo. Para se retirarem – num dos mais (ou mesmo “o mais”?) ridículos episódios dos anos 00 lusos, uma pequenez medonha – no dia seguinte a ultrapassarem o sitemeter abruptal. Mas pelo menos tiveram o efeito (o mérito?) de apear o blogo-top como meta-mor.

A partir daí, e enquanto o próprio país ia deslizando, e talvez também por isso, algo foi mudando. Alguns raros individuais encanecidos continuaram, adaptando-se ao tom da época, cada vez mais beligerantes ao serviço da “sua majestade” de cada qual. Os super-blogs mantiveram-se, algo voláteis pois mutantes de nome, com transferências até sonantes qual mundo da bola e, de quando em vez, entrezangas prenhes de inter-links, cheias de sub-textos e private angers, tudo isso em crescendo de alinhamento que neles cada vez mais suava o agendismo. O bloguismo-punk morrera há muito, o blogo-rock envelhecia em espasmos e fomos nós, incautos (?!) leitores, sendo encerrados no top of the pops. Com os ciclos eleitorais a indústria desceu à rua e tomou, definitivamente, conta do assunto e no pacote de gabinetes do pró e do contra se foi formando um regime profissionalizado, penteado, no qual ao clic-clic de entrada já se sabe o que esperar, vai-se à missa in-blog para se reafirmar as certezas quais escalfetas. O actual Festival da Eurovisão parece não perder audiências [fui ver o velho blogómetro antes de botar isto, confere ...] mas é óbvio que os maestros, cantores e jurados [e até o Eládio Clímaco e a Ana Zanatti] não percebem que a obesidade advém via google search: quanto mais “arquivos” tens para trás mais gente te chega ao engano, é o verdadeiro teorema bloguístico.

E ficou um mundo de gente trabalhando in-blog, uns cara destapada outros nem tanto, não lhes vão cair os patrões na lama. Dos pacotes de assessores ou não, proto ou ex, brotaram alguns. Assim feitos “Lisboa” muitos discutem, veementes, quem é quem, de onde vêm, com quem jantam (“eu jantei com A, ele existe” “eu ensinei X a blogar, e em minha casa” e, um must, “eu tirei esta foto a V que por acaso se percebe mal na foto mas – estão a ver? – ele existe“), um “quem” “são” “esses” “alguns” que é forma, ladainha, de ir tentando comprovar que o tudo isso, a tal “Lisboa”, sempre vai existindo. No fundo, no debate pró ou inpró-nomeação julgam-se nomenclatura. Entretanto, lá longe, a gente da net, essa que em tempos alimentou via clic-clic a quantidade de blogs que foram florindo, já lá não está. Pois encontra-se, noite fora, nestes pós-bloguismos do youtube/facebook, gente com nome e de fotografia espetada no “perfil”. Enquanto o tal pacote “convicto” não imigra para cá, trazendo o “remoquismo” que lhe é alma, andamos noutra, a “gostarmos” uns dos outros, Uns a ler. A ver. A ouvir. Outros a meter. The Clash, hoje:

(um filme precioso dedicado aos premiados dos prémios Gandula Blog 2004 e Gandula Blog 2005, atribuídos pelo ma-schamba – então blog individual. Aqui ficam as ligações para quem os quiser recordar.)

Entretanto depois de escrever o texto reli este “O Fim da Blogosfera”, de Paulo Querido, já velho texto (tem dois anos, nestes tempos isso é fóssil). Tem o interesse de ali referir o grupo “A” de blogs portugueses (uma elite – ao nível do seu reconhecimento, não estou a valorizar ou desvalorizar -interactuante), grosso modo é sobre esse meio de bloguismo político que acima falo.

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A tripartição

Agosto 27th, 2010

[G. Steiner, Nostalgia do Absoluto, Gradiva (2003 [1974])]

Devo sugerir, com hesitação, mas, espero, alguma seriedade, que a famosa divisão da consciência psicológica humana – id, ego, superego – deve muito à divisão em cave, quartos e sotão da casa da classe média vienense na viragem do século XIX para o XX.” (25).

(muito a propósito, ver a entrada anterior)

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Song Dance – Pavlov’s Dog

Agosto 26th, 2010

Escrevo “burguesia” um outro escriba lê “luta de classes”. Obviamente que me lembro deste velho grupo – e descubro que ainda anda por aí. Como os tresleitores – sempre impantes.

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Tráfico de Pessoas

Agosto 25th, 2010

Simpático material de WLSA Moçambique, em formato postal, divulgando a Lei nº 6/2008 (prevenção e e combate ao tráfico de pessoas) e os Gabinetes de Atendimento às Mulheres e Crianças Vítimas da Violência e a Linha Fala Criança.

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Sobre o Petróleo e Outras Fontes Energéticas em Moçambique

Agosto 25th, 2010

[imagem encontrada aqui]

No PembaAtolL um muito interessante texto sobre as múltiplas dimensões desta supra-actual questão. A ler. Mesmo.

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Sociedade de Protecção de Animais de Moçambique

Agosto 24th, 2010

[Pedro]

Abaixo fui informado da existência desta Mozambique Animal Protection Society. Para quem quiser colaborar aqui fica a ligação ao sítio. (A causa é mais-do-que-justa donde não elaboro sobre a língua da organização ou, pelo menos, do seu sítio).

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Última contratação do Sporting

Agosto 24th, 2010

Este é que era bem-vindo. Internacional AA.

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Deus Criou a Mulher

Agosto 24th, 2010

["Sofia Loren em Portugal", Póvoa do Varzim, 1956 - fotografia de Agnes Varda; Postal Edições 19 de Abril, 1997]

 Miguel Marujo, no Cibertúlia atentou neste meu texto sobre espionagem e fez uma ligação. Aí mesmo, em teclado corrido e em conversa pouco cuidada com o blogo-confrade, e até um pouco a despropósito, deixei crítica ao seu E Deus Criou a Mulher, afamado blog do qual o Miguel Marujo é um dos responsáveis, e o qual é dedicado ao culto da beleza feminina, nisso acolhendo enfática recepção no mundo bloguista português. Para quem tenha interesse na minha má disposição ela argumenta-se aqui, na caixa de comentários.

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Gata Joana

Agosto 24th, 2010

A Inês encontrou-a na rua, ouviu-lhe os aflitos miados de bebé abandonado. Ao entrar em casa cabia-me na palma da mão. Então vivíamos na Engels, era uma época bem feliz da nossa vida e logo ela se juntou neste caminho que então pensávamos ser menos complicado. Também por isso sempre a associámos a uma espécie de “tempos doirados” da família. Cresceu assim, primeiro princesa de flat e depois, já com a Carolina em casa, rainha de rua no Sommerschield, intratável nos seus domínios, reconhecida até com vassalagem por vizinhança, residente ou trabalhadora. Mimosa em casa, uma leoa lá fora. O orgulho dos seus …. “donos”.

Foi amadurecendo, perdeu aquelas correrias meio desabridas, aquele arquear de cavalo de toureio com que nos brindava quando brincava. Mas nunca perdeu aqueles seus gostos de gata rica, de destruir sofás e cortinas caros. Acompanhou com desvelo em leito alheio as raras doenças familiares, interrompendo então o controle dos seus domínios externos.

Gentil e atenta nos seus tempos livres dedicava alguma atenção a este membro secundário da família pt, e madrugada fora acompanhava – algo blasé – este mundo do bloguismo, e outras coisas de escritório. Sublinhando com a sua língua áspera a sua concordância com alguma afirmação, criticando com mordeduras alguns pontos menos conseguidos.

Há um ano adoeceu. Acompanhada desde bebé pelos melhores dos médicos, inultrapassáveis em desvelo e competência, recuperou. Ficou boa num ápice e voltou ao seu reino. Agora piorou, um último mês de preocupações diárias. Teve que morrer ontem, aos 12 anos. Estamos que nem sabemos como …

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Cromos Prováveis

Agosto 24th, 2010

(por AL em produção fictícia) –

AVISO: qualquer semelhança com pessoas ou acontecimentos reais será pura coincidência


Era um falhado! Estacionava a vida de escombros e fracassos num buraco a que chamava casa. Ocupava os dias a desenvolver projectos que não passavam dos sites e em folhetos que lhe consumiam o capital de arranque (pouco, muito pouco, quase sempre nada). Já entrado na meia idade vivia sustentado pela família, amigos e por aqueles com quem se ia endividando. Dizia-se sonhador e aos erros consecutivos chamava opção de vida; com esse mant(r)a tapava a avalanche de fracassos que o compunham. Pode mesmo dizer-se que era bem sucedido a fracassar.

Uma outra coisa conseguia fazer com sucesso: seduzir! Protagonizava na perfeição o papel de sedutor cinéfilo. Ah!, isso sim!, saía-lhe sempre bem. Pelo menos durante algumas semanas, ou dias. As deixas, essas, eram sempre as mesmas: os cabelos dela na almofada, o corpo enrolado no lençol e outros romantismos serôdios. Adoçava a conversa com citações de filmes ou livros, inseria referências a locais e gentes interessantes com quem se tinha cruzado; contava-lhes maus comportamentos passados. Deixava-as de manhã com bilhetes de amor e o pequeno almoço preparado. Ocupava-lhes o dia com SMS delicodoces e metafóricos. Gastava os tostões cravados em jantares e vinhos gourmet, num esbanjamento de indiferença pelos bens materiais. Assim as prendia e assim lhes vampirava os corações.

Depois, tal como nos filmes que acabam com o beijo, também a ele se lhe esgotava o script, falhava-lhe a continuidade. Consumidas as deixas não se conseguia reinventar. Chegara a hora de procurar outra protagonista para as mesmas linhas cansadas. Descartava-se então da mulher conquistada, agora desorientada com o Mr Hyde que de repente se lhe revelava. Empatava uns dias. Para dar tempo a que o amo-te passasse a amei-te e que o hei-de amar-te se convertesse em amo-te. O guião, esse, continuava a ser o mesmo: os cabelos na almofada, o corpo enrolado no lençol…

Era completamente bi-dimensional, com um trompe l’oeil de profundidade. Enfim, não passava de um palhaço! Um cromo!


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Um exemplo de democracia?

Agosto 23rd, 2010

O ministro da defesa português, Augusto Santos Silva, em declarações ao jornal “i” invoca Péricles, o grego, como supremo mane do seu pensamento estratégico. E fiel a esse antepassado de democracia, e como tal à transparência das instituições estatais face aos cidadãos a que servem, informa via jornal que Portugal passará a ter espiões militares no Líbano. Saúdo este exemplo cristalino de democracia do governante.

Ou será (apenas) um cúmulo de estupidez, de “olhem para mim aqui ministro” a tanto pensar e fazer?

Aproveito para recordar uma velha entrada do ma-schamba, onde lembrei quando o jornal “Independente” publicou a lista dos espiões portugueses, era Veiga Simão ministro da defesa de António Guterres (finais do século passado). Nunca então se investigou verdadeiramente quem tinha passado isto para o jornal, quase obrigatoriamente um parlamentar não-socialista da Comissão de Defesa. Ou seja, nunca ninguém se interessou por inquirir (e prender) o traidor que era deputado. Nem cuspir na cara dos filhos-da-puta do “independente” (director, accionistas e os seus trabalhadores que não se demitiram no momento imediato – presumo que todos) que a troco de uma “caixa” varreram os interesses do país (se bons, se maus, é outra coisa, mas discutível de outro modo). Ou seja, traíram – como antes se dizia. Como hoje se deve dizer.

Seria interessante que os blogs portugueses – cheios de jornalistas, tantos deles -, e em particular os de “direita” (tradicionalmente mais sensíveis a estas questões e a estes valores) que com toda a certeza hoje se vão rir e pontapear o supra-pontapeável Santos Silva (paz à alma do sociólogo, precocemente falecido) tivessem um bocado de memória. Porque “honra” (antiga concepção hierárquica) ou “dignidade” (actual concepção equitativa) é coisa que, vê-se por este exemplo, não abunda. Um mundo de santos silvas, é o que é.

Adenda: em comentários e textos alheios referindo este texto surge o nome de Paulo Portas como envolvido neste caso, na sua condição de director do Independente. Ao escrever o texto pensei que o referido chegaria para o situar temporalmente [Veiga Simão ministro de Guterres, finais do século] mas pelos vistos isso não chegou, dado o peso da memória que há de Portas nessa condição. Então aqui fica a adenda, Portas há muito que não era o director do jornal nessa altura.

Abaixo, nos comentários, o comentador P.R. diz que isto é uma “desculpabilização” do presente. Não me parece, ou pelo menos não o entendo. Associei, de imediato, os episódios (que são muito distintos em termos de mau-funcionamento, este apenas um exagero comunicacional do ministro) no sentido de frisar uma “leveza”, um “descuido”, do Estado no tratamento que dá aos seus serviços de informação (os secretos e os militares). Se calhar, e pensando melhor, ainda bem que assim é.

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A ENTREVISTA

Agosto 22nd, 2010

por ABM (21 de Agosto de 2010)

Confirmada a segunda derrota consecutiva do Sport Lisboa & Benfica no campeonato nacional de futebol português, e na face do cada vez mais complexo xadrez político nacional, o Maschamba captou mais uma gravação ilegal, esta em vídeo, de um encontro secreto de José Sócrates.

Contactado telefonicamente, o nosso comentador futebolístico, George Ribéro, na sua residência de férias em Pénis (ao pé de Óbides), ele sugeriu que o problema das águias encarnadas poderá estar localizado na baliza e sugere que, como complemento àquele senhor hespanhol que supostamente a defende, que o Benfica deveria talvez pedir à Federação Portuguesa de Futebol, autorização para, em vez de colocar a rede da baliza atrás, que lhes seja permitido colocar a rede à frente. E concluiu a sua breve análise com um comentário mistificante. Disse: “volta Quim, estás perdoado”.

Bom fim de semana.


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O Universo e o Hubble

Agosto 21st, 2010

“No blog desnudas a alma” exagerou, criticamente, um amigo meu no jantar de ontem:

Como sabem os leitores aqui nunca falo de trabalho, mas segue-se excepção. E como sabem os meus amigos mais próximos, meus colegas e alunos, atravessei (?) um profundo mau-momento nos últimos meses. Não terá sido provocado por isso mas despoletou-se quando percebi que a esmagadora maioria dos alunos universitários com os quais trabalho não têm quaisquer ideias actualizadas sobre as características do universo. Tudo isto brotou numa aula (e nas imediatamente subsequentes) aquando de um impreparado exemplo sobre a “revolução coperniciana” – falava-se de Kuhn numa para mim nova disciplina introdutória de ciências sociais. Ali me deparei, em total espanto, com o facto de que os futuros colegas têm uma concepção geocêntrica do universo ou, em alguns casos, heliocêntrica.

Na altura esta apreensão causou-me uma dolorosa e perplexa consciência do hiato (abismo) ali existente entre nós. E da necessidade de reflectir sobre os conteúdos e formas da comunicação. Como ser docente quando o(s) discente(s) te(ê)m uma tão diversa apreensão do mundo? Para além dos problemas imediatos isto levanta também um doloroso questionar sobre a estrutura curricular do ensino secundário em Moçambique (o que se ensina e quando. E, porventura, também o como). Mas também da divulgação científica nos meios de comunicação. Não se exagerem as dificuldades, quem chega à Universidade tem acesso a televisão, ao omnipresente rádio e, também, a jornais. Lembro de imediato a televisão, pública e privada. Que estação tem divulgado programas sobre o universo?, dedicados a qualquer divulgação científica – certo é que terão que ser atractivos e divulgados, popularizados. E certo é que a estação mais vista pelo povo será a Miramar, cuja filiação evangelista não me parece compatível com versões não criacionistas deste nosso “vale de lágrimas”.

Mas não é o meu papel discorrer sobre conteúdos programáticos do ensino de “ciências naturais” (como antes se dizia) no ensino secundário moçambicano nem tampouco sobre o painel de programas da TVM ou concorrentes privadas. Fico-me, angustiado, diante dos meus alunos. Sou um modesto antropólogo, entregue a alguns programas temáticos. E o “mundo” não faz parte deles. Mas sem esse “mundo” que entenderão sobre o mundo, como entenderão o mundo? E como apresentar(-lhes) este vasto “mundo”? Em rombas palavras de nada especialista do assunto? Em pobres fotocópias roubadas a velhos exemplares da editora “Gradiva”? Uma radical impotência.

Recebo agora (via fb) esta ligação ao Sítio do Telescópio Hubble (em inglês). É para os alguns alunos que aqui passam de quando em vez. Pode ser que desperte alguma inquietação sobre o que é “isto”. O como é “isto”. E dê para perceber que a gente não está no seu “centro”. Com tudo o que daí vem. Ou (espera-se) poderá vir.

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O Presente da Internet (e do bloguismo)

Agosto 21st, 2010

Para leitores de blogs (e não só) e não só para esses será interessante esta Dissertação sobre a Internet … de Paulo Querido, habitualmente neste “Certamente”. Um primeiro texto (promete sequelas) sobre tendências de escrita e leitura na internet, sobre tendências de propriedade e apropriação na internet. E claro sobre o “destino” da produção in-blog. Chamo em particular a atenção dos visitantes em Moçambique, quase de certeza menos habituais leitores do Paulo Querido e dado que “entre nós”* há muito pouca reflexão sobre as tendências actuais deste mundo comunicacional. [E nesse sentido, ainda que sendo já antigo, será interessante visitarem o seu texto o fim da blogosfera (2008), que não fala apenas de blogs mas sim das práticas de produção e consumo na internet]

*evito relativizar o significado de “entre nós” aplicado exactamente a este local transfronteiriço internético. Um “entre nós” onde há correntes e pólos de leitura, fica assim suavemente delineado.

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Post dedicado aos nossos fotógrafos residentes

Agosto 20th, 2010

(por AL em reacção retardada)

Celebrou-se ontem o Dia Mundial da Fotografia. Tendo nós dois fotógrafos residentes – o PSB e o MVF – aqui fica a nossa modesta homenagem: a re-reprodução de uma foto de cada um deles, ja publicadas aqui noutros posts. A selecção das fotos foi minha.

Do PSB escolhi esta:

Do MVF escolhi a da sua estreia:

Apreciem!


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