Abre hoje, 3.3., no Instituto Camões uma exposição do fotógrafo português – oriundo de Moçambique – António Leitão Marques, intitulada “Moçambique, Labirinto da Saudade“. Nada mais sei sobre o que integra (nem quanto tempo estará disponível). Mas posso presumir que valerá visitá-la. Aqui deixo duas belissimas e já antigas fotografias suas (empobrecidas nas reproduções) que possuo em livro publicado em 1997.
["Cantina no Chiúre"]
["O Padrão e o Fortim da Ilha de Moçambique"]
As fotografias foram retiradas deste livro, que contém trabalhos de vários autores entre os quais, dedicados a Moçambique, os de António Leitão Marques, Sérgio Santimano e Faizal Sheikh.
O escultor e pintor Malenga avisa que expõe em Lisboa. De 2 (hoje) a 30 de Março terá apresentará as suas pinturas no “Pois Café” [na rua S. João da Praça, nº 93-95], num conjunto que intitula “Auge Latente“. Quem tiver disponibilidade poderá ir lá hoje, às 18 h., para a inauguração.
O contacto do artista é: [e-mail:artemakonde@yahoo.com.br]
Na varanda da residência do Comissário Régio. Sentados da esq p/dir: Vieira da Rocha, Baltazar Cabral; Luiz Gaivão; Maria José Mouzinho de Albuquerque e Joaquim Mouzinho de Albuquerque. De pé: Conde da Fonte; Aires de Ornelas; ordenanças e criados
Gungunhana e sete mulheres, após detenção
Mousinho de Albiquerque posa com um civil
por ABM (1 de Março de 2010)
Pensei que os exmos leitores haveriam de gostar de ver a cara dos respectivos e das respectivas.
É já noite, e 2 de Março, que descubro via MVF (que está no facebook e ainda no 1 de Março a comemorar a efeméride) que Chopin terá nascido a 1 de Março de 1810. 200 anos de Chopin então. Do festival que o MVF nos está a oferecer deixo este episódio.
O sítio PNetMoçambique agrega actualizações de imprensa moçambicana e ligações a mais de 200 blogs sobre Moçambique. Foi hoje enriquecido com mais 35 blogs. Alguns deles estão descontinuados. Ainda assim são integrados - não só porque há sempre o risco de um blog renascer do silêncio como também porque o PNetMoçambique procura ir sendo um arquivo disto do bloguismo sobre Moçambique. Amanhã a secção central (“Destaque” de blogs) será algo alterada, no sentido de dar maior visibilidade a blogs mais activos.
Entretanto continuo a solicitar a quem conheça blogs relacionados com Moçambique que o informe para que o elenco seja o mais completo possível. Como digo, seja para ecoar o que vai sendo escrito seja para enriquecer o arquivo do bloguismo moçambicano e sobre Moçambique.
Na sequência da entrada “A propósito da Madeira“, relativa às enxurradas que vitimazaram a população da ilha, um amigo enviou-me este artigo do “Diário de Notícias“ do Funchal, publicado a 13 de Janeiro de 1985, da autoria do engenheiro silvicultor Cecílio Gomes da Silva. Não é engano, o texto tem 25 anos! O autor é, obviamente, um exemplo daquilo a que os carreiristas chamam “apóstolos da desgraça” – expressão que serviu para o Nelson Saúte titular um dos seus livros. Mas, como abaixo diz (disse) Cecílio Gomes da Silva “Oxalá que nunca se diga que sou profeta.” … “Dei o alarme – pensem nele.”. Não pensaram. Nada. E preparam-se agora para, como se nada fosse com eles, gerirem a “reconstrução”. É o meu país. Continente e Ilhas.
Eu tive um sonho
Traumatizado pelo estado de desertificação das serras do interior da Ilha da Madeira, muito especialmente da região a Norte do Funchal e que constitui as bacias hidrográficas das três ribeiras que confluem para o Funchal, dando-lhe aquela fisiografia de perfeito anfiteatro, aliado a recordações da infância passada junto à margem de uma das mais torrenciais dessas ribeiras – a de Santa Luzia – o mundo dos meus sonhos é frequentemente tomado por pesadelos sempre ligados às enxurradas invernais e infernais dessa ribeira. Tive um sonho.
Adormecendo ao som do vento e da chuva fustigando o arvoredo do exemplar Bairro dos Olivais Sul onde resido, subia a escadaria do Pico das Pedras, sobranceiro ao Funchal. Nuvens negras apareceram a Sudoeste da cidade, fazendo desaparecer o largo e profundo horizonte, ligando o mar ao céu. Acompanhavam-me dois dos meus irmãos – memórias do tempo da Juventude – em que nós, depois do almoço, íamos a pé, subindo a Ribeira de Santa Luzia e trepando até à Alegria por alturas da Fundoa, até ao Pico das Pedras, Esteias e Pico Escalvado. Mas no sonho, a meio da escadaria de lascas de pedra, o vento fez-nos parar, obrigando-nos a agarrarmo-nos a uns pinheiros que ladeavam a pequena levada que corria ao lado da escadaria. Lembro-me que corria água em supetões, devido ao grande declive, como nesses velhos tempos. De repente, tudo escureceu. Cordas de água desabaram sobre toda a paisagem que desaparecia rapidamente à nossa volta. O tempo passava e um ruído ensurdecedor, semelhante a uma trovoada, enchia todo o espaço. Quanto durou, é difícil calcular em sonhos. Repentinamente, como começou, tudo parou; as nuvens dissiparam-se, o vento amainou e a luz voltou. Só o ruído continuava cada vez mais cavo e assustador. Olhei para o Sul e qualquer coisa de terrível, dantesco e caótico se me deparou. A Ribeira de Santa Luzia, a Ribeira de S. João e a Ribeira de João Gomes eram três grandes rios, monstruosamente caudalosos e arrasadores. De onde me encontrava via-os transformarem-se numa só torrente de lama, pedras e detritos de toda a ordem. A Ribeira de Santa Luzia, bloqueada por alturas da Ponte Nova – um elevado monturo de pedras, plantas, arames e toda a ordem de entulho fez de tampão ao reduzido canal formado pelas muralhas da Rua 31 de Janeiro e da Rua 5 de Outubro – galgou para um e outro lado em ondas alterosas vermelho acastanhadas, arrasando todos os quarteirões entre a Rua dos Ferreiros na margem direita e a Rua das Hortas na margem esquerda. As águas efervescentes, engrossando cada vez mais em montanhas de vagas espessas, tudo cobriram até à Sé – único edifício de pé. Toda a velha baixa tinha desaparecido debaixo de um fervedouro de água e lama. A Ribeira de João Gomes quase não saiu do seu leito até alturas do Campo da Barca; aí, porém, chocando com as águas vindas da Ribeira de Santa Luzia, soltou pela margem esquerda formando um vasto leito que ia desaguar no Campo Almirante Reis junto ao Forte de S. Tiago. A Ribeira de S. João, interrompida por alturas da Cabouqueira fez da Rua da Carreira o seu novo leito que, transbordando, tudo arrasou até à Avenida Arriaga. Um tumultuoso lençol espumante de lama ia dos pés do Infante D. Henrique à muralha do Forte de S. Tiago. O mar em fúria disputava a terra com as ribeiras. Recordo-me de ver três ilhas no meio daquele turbilhão imenso: o Palácio de S. Lourenço, A torre da Sé e a fortaleza de S. Tiago. Tudo o mais tinha desaparecido – só água lamacenta em turbilhões devastadores.
Acordei encharcado. Não era água, mas suor. Não consegui voltar a adormecer. Acordado o resto da noite por tremenda insónia, resolvi arborizar toda a serra que forma as bacias dessas ribeiras. Continuei a sonhar, desta vez acordado. Quase materializei a imaginação; via-me por aquelas chapas nuas e erosionadas, com batalhões de homens, mulheres e máquinas, semeando urze e louro, plantando castanheiros, nogueiras, pau-branco e vinháticos; corrigindo as barrocas com pequenas barragens de correcção torrencial, canalizando talvegues, desobstruindo canais. E vi a serra verdejante; a água cristalina deslizar lentamente pelos relvados, saltitando pelos córregos enchendo levadas. Voltei a ouvir os cantares dolentes dos regantes pelos socalcos ubérrimos das vertentes. Foram dois sonhos. Nenhum deles era real; felizmente para o primeiro; infelizmente para o segundo.
Oxalá que nunca se diga que sou profeta. Mas as condições para a concretização do pesadelo existem em grau mais do que suficiente.
Os grandes aluviões são cíclicos na Madeira. Basta lembrar o da Ribeira da Madalena e mais recentemente o da Ribeira de Machico. Aqui, porém, já não é uma ribeira, mas três, qualquer delas com bacias hidrográficas mais amplas e totalmente desarborizadas. Os canais de dejecção praticamente não existem nestas ribeiras e os cones de dejecção etão a níveis mais elevados do que a baixa da cidade. As margens estão obstruídas por vegetação e nalguns troços estão cobertas por arames e trepadeiras. Agradável à vista mas preocupante se as águas as atingirem. Estão criadas todas as condições, a montante e a jusante para uma tragédia de dimensões imprevisíveis (só em sonhos).
Não sei como me classificaria Freud se ouvisse este sonho. Apenas posso afirmar sem necessidade de demonstrações matemáticas que 1 mais 1 são 2, com ou sem computador. O que me deprime, porém, é pensar que o segundo sonho é menos provável de acontecer do que o primeiro. Dei o alarme – pensem nele.
Quando em 1990 vim viver temporariamente para Portugal (mais uma vez), mas desta vez dos Estados Unidos, em termos comunicacionais Portugal ainda estava, comparativamente falando, na idade média.
Já nessa altura, em Cambridge, uma cidadezinha vizinha de Boston, eu tinha em casa televisão por cabo com acesso a uns cem canais, incluindo a CNN. A internet ainda era ficção científica para a quase totalidade da humanidade e o melhor que havia para enviar informações era um aparelho de fax, que eu de facto tinha em casa desde 1988 (pago a peso de ouro) para enviar semanalmente as crónicas que eu escrevia para um pequeno jornal local, que preparava num computador Apple e imprimia numa impressora laser (dantes, escrevia numa máquina de dactilografar e mandava os textos pelos correios).
Em Portugal nessa altura quase ninguém tinha aparelhos de fax em casa, quando muito surripiavam uns aos amigos às escondidas, no emprego. Quase ninguém tinha um computador em casa e mesmo no emprego ainda era uma coisa muito rara. Impressoras laser, nem pensar. Não havia televisão por cabo e as notícias eram aquilo que a RTP decidia que eram notícias e o que os jornais publicavam, com imagens a preto e branco, consoante o partido ou a tendência ideológica dos seus patocinadores.
Meia dúzia de privilegiados (eu incluído, num decrépito apartamento na baixa de Lisboa) possuiam um gigantesco prato no telhado, de onde, com considerável dificuldade técnica, sintonizavam meia dúzia de canais por satélite, entre as quais a CNN. Apesar das minhas explicações, as minhas vizinhas octagenárias com bigode receavam ser afectadas pelos raios de micro-ondas emitidos pela antena e discutiam se eu obtivera uma autorização do governo para meter aquilo ali.
Na televisão portuguesa, o José Rodrigues dos Santos iniciava com alguma dificuldade a sua carreira como jornalista televisivo, depois de uns tempos como correspondente da BBC e fazendo uns biscates para a RTP e a CNN.
Na altura, em média, a população portuguesa via a RTP, ouvia a Rádio Renascença e lia o Diário de Notícias. Tudo num vago manto de cinzentismo em que se destacavam a erudição arrogante do Expresso e o espalhafato gozão do Independente. Aníbal Cavaco Silva há poucos anos surgira do nada e em breve terminava o seu segundo mandato como primeiro ministro e com uma maioria absoluta.
Em Portugal nessa altura choviam diariamente milhões de contos (na altura eram contos) da CEE e uns dias antes da segunda eleição parlamentar no fim de 1991, Portugal inaugurava aquilo que eu chamaria – citando a legendária frase de Alan Greenspan, então chairman do Federal Reserve Board norte-americano – a sua fase inenarrável de irrational exuberance – preparando a fase seguinte do desastre socialista e da longa estagnação da economia portuguesa. Pouco depois houve o orgasmo celebratório nacional prematuro chamado Expo 98, em que os portugueses decidiram que finalmente valia a pena mesmo ser-se português.
As ratazanas do regime refastelavam-se e enchiam as barrigas e as contas offshore.
E logo a seguir começou a lenta, penosa, dolorosa travessia do deserto moral, social, fiscal e económico. Na verdade, na altura ninguém deu por nada, pois estava-se a entrar na Era dourada do Euro, das taxas baixas, das casas compradas com um telefonema ao amigo no banco, dos carros bons ao preço da uva mijona, da gasolina a metade do preço da Coca-Cola . Inflamado com o sucesso da nova auto-estrada A1 (wow, Lisboa ao Porto em duas horas em vez de seis horas num caminho de cabras) e com a novidade do acesso aos mercados de capitais estrangeiros, o governo decidira que a coisa decente a fazer a seguir era construir mais auto-estradas para tudo quanto é de sítio, de Bragança para Beja, de Viseu para Aveiro. E mais um aeroporto. E mais pontes, e mais, e mais.
Tudo concessionado, tudo em parcerias público-privadas, tudo em regime de gasta-agora-paga-depois.
Tudo e todos, governos, pessoas, empresas, recorrendo alegremente ao crédito, desta vez o estrangeiro. Foi o novo Brasil, a nova África. Passou a ser normal o até o braquicéfalo do vizinho atrasado mental brogesso que não pagava o condomínio ir fazer férias na neve em Março e apanhar banhos em Cuba em Maio. Passou a ser normal falar-se em projectos de milhões como se fosse a coisa mais natural do mundo. A propaganda socialista, alternada com a complacência da oposição, declamava a chegada da nova era de prosperidade e justiça social. Bairros da lata inteiros eram demolidos e nas televisões via-se a senhora cigana ressabiada a receber as chaves para o seu apartamento novinho em folha, pago pela generosa partilha da prosperidade apercebida dos contribuintes. Sócrates até inventou mais tarde regras para dar aos pobres dinheiro dos nossos impostos só por o serem.
Pois afinal nós éramos ricos. Não?
Foi uma festa.
Só que ninguém estava a pagar a conta.
Em Moçambique, a Renamo e o que restava da Frelimo ainda se tentavam decapitar, apesar dos ventos de 1989 soprarem fortemente. Num subúrbio de Roma, em breve, sem ninguém reparar, a liderança da Frelimo, muito mais bem preparada e conectada, negociaria a sua vitória.
A modernidade comunicacional portuguesa começou na madrugada de 16 de Janeiro de 1991, quando, a propósito da decisão do ditador iraquiano Saddam Hussein de invadir a obscura e medieval ex-colónia do Kuwait uns meses antes, os Estados Unidos decidem ripostar com uma formidável “Coligação dos Justos” e um ataque directo ao Iraque, antes que este invadisse a Arábia Saudita e nos tivesse a todos bem agarrados pelos petrolíferos tomates.
Os locais comentaristas da treta, futuros quadros dos blocos da esquerda, acusavam isto de ser uma nova manifestação do neo-imperialismo americano. Estúpidos, declamavam sem saber: “nós portugueses não precisamos do petróleo para ter democracia e prosperidade”. Nessa noite a RTP interrompe a sua emissão regular e começa a passar dez horas seguidas de imagens do bombardeamento aéreo dos Estados Unidos a Bagdad feita pela CNN.
Para a CNN, do meu colega de faculdade Ted Turner, a cobertura da guerra do Iraque foi a coroação da sua estratégia de globalização. Fundada em meados de 1980 a partir de uma obscura e medíocre “super-estação” meio pirosa do estado norte-americano da Geórgia, a WTBS, que era do pai e que fora a primeira estação a emitir por satélite para todos os Estados Unidos, através das crescentes redes de satélites e de cabo que proliferavam pelos EUA, a CNN inaugurava a era das notícias internacionais por televisão, 24 horas por dia.
Em Portugal, cujos hábitos noticiosos televisivos eram mais do que questionáveis, duma formalidade doentia e de conteúdos quase estritamente governamentalizados, geridos por profissionais feitos a pulso (ainda não ocorrera a explosão de cursos de “comunicação social”) o súbito surgimento do novo formato foi um choque.
Claramente, as pessoas reagiram ao imediatismo fulgurante das bombas a caírem no terreno do Senhor Saddam ao vivo nas suas salas de visita e colavam-se horas a fio a tentar perceber o que é que o senhor da CNN dizia, no que o jovem jornalista José Rodrigues dos Santos assistia, traduzindo isto e aquilo.
Mas rapidamente, e face ao feed constante das imagens e das informações vindas de todas as capitais relevantes do mundo, tornou-se necessário haver algum debate e contextualização feitos em casa e em língua portuguesa. E é aí que surge do nada um novo herói da televisão portuguesa: Nuno Rogeiro.
Em 1991, Nuno Rogeiro era, por falta de melhor definição, uma espécie de equivalente televisivo da máquina de pesquisa Google. De fato e gravata e com uma trunfa característica, o então professor, cronista e comentador (não haviam então sites, nem blogues nem redes sociais nem jornais online) surgia sempre oportunamente nas câmaras da RTP (a SIC e a TVI ainda estavam na fase de planeamento e não havia Zon TV Cabo nem telemóveis populares nem nada disso) e cobria a ignorância mentacapta de quase todos os jornalistas a soldo da estação, discorrendo longa e livremente sobre tudo: onde ficava o Iraque, quem era Saddam, o que dizia Bush pai, porque é que os americanos atacavam pelo Sul e não pelo Norte, quantos aviões estavam envolvidos nos raids aéreos, o que é que a Turquia iria fazer. Tornou-se inesquecível nessa altura quando, a propósito de ter dado a Saddam para atirar uns mísseis de médio alcance chamados Scud para dentro do território de Israel, faz na televisão descrições detalhadas do que eram os Scud, para que serviam os Scud, quais eram as suas atribuições técnicas e alcance, que tipo de carga podiam levar.
Isto hoje é tudo pré-história. Rogeiro evoluiu, cortou o cabelo e tem um programa de entrevistas muito interessante na SIC e escreve umas coisas na Sábado. Toda gente em Portugal hoje tem telefones móveis, televisão por cabo em casa, computadores, internet e canais de notícias nacionais e estrangeiros à distância de um toque no aparelhinho de controlo remoto. José Rodrigues dos Santos consagrou-se e continua a ler as notícias enquanto vende livros sobre mega-conspirações. Como Santana Lopes, a CNN ainda anda por aí.
Nós temos o Maschamba.
Desses tempos, só fica a asfixia da vasta dívida acumulada, da quase falência do governo, das decisões que vão ter que ser tomadas e agora o poder executivo nas mãos periclitantes do governante mais mediático-dependente de toda a história de Portugal.
Para acompanhar os próximos episódios e o desfecho desta saga, agora podemos, a partir do sofá em casa e no computador, ver tudo a cores e ao vivo, e ler as opiniões e aferir os factos.
Só nos falta fazer isso com uma boa dose de desassombro, e de bom senso. Para o futuro que se avizinha, estes serão atributos para os quais não há tecnologias e nem riqueza que valham.
Chega-nos no Natal, oferta de como se compadres assim a fazerem-nos família. E os livros também são a sua origem. A Inês (que está farta de não ser explicitada no blog) logo o lê e ordena-me que avance, “gostei muito” algo que eu já percebera, que por ele fora trocado durante dois dias em Inhambane. E isto não sendo ela muito dada a enredos policiais - certo que o livro disso não é exemplo, deixando até dois assassinatos por desvendar, virei a descobrir. Enfim, tamanhas as recomendações que interrompo a pilha ali ao lado e avanço, afã também reforçado por leituras anteriores, livros e blogs do autor.
Para logo ser surpreendido com a insídia, tanta e tão infundamentada, até disfarçada, que me interroga sobre os limites que devemos colocar às liberdades literárias: “A que horas saiu da sala de jantar?” “Eu?” “Não. O administrador.” “Por volta das três, um pouco antes. Um jogo de futebol, havia um jogo de futebol ontem à noite, e ele queria saber o resultado. Por princípio perguntaria a um empregado, a alguém que andasse ali, mas ele é muito cioso quando se trata de futebol. É sportinguista”, explicou, pedindo: “Compreenda”. (31). Hesito, resmungo a estes implícitos, mas continuo: agora num “é preciso conhecer o inimigo”. Para depois, e logo, me deixar conquistar por completo. Sei que o autor é premiado e elogiado, daí que (já) lhe serão menos simpáticas comparações elogiosas mas mesmo assim não deixo de confessar: dei comigo a sentir-me como nos grandes Le Carré – ok, para meu gosto o “O Espião Perfeito” é uma obra-prima -, imersão minha até ao final. A seguir o protagonista, tão denso que até arrisca a ser dessas personagens-eucalipto, que tudo esbatem em volta. Mas não aqui, sorte dele pois narrado por alguém que se engana quando quer confessar “Sou um biógrafo sem sorte” (87), pois não o seria se o fosse. Sigo-o talvez por identificação, por bem saber (e querer) que “Um homem a caminho de velho tem de ter vida, mesmo se não é uma vida heróica, cheia de glórias e de benefícios para a carreira.” (55), assim dele companheiro.
Sigo este nosso polícia guardião que sempre nos é desagradável pois ”A burguesia gosta de segurança, da tranquilidade dos seus bairros – mas detesta falar do assunto …” (88), sigo-o no seu método absolutamente científico, um Holmes das ciências de hoje, “… não escrevia ou raramente escrevia as suas notas. No seu gabinete, limitava-se a encostar-se na cadeira … e a semicerrar os olhos na direcção da janela, como se olhasse realmente o fio de telhados desalinhados. O resto era imaginação, uma espécie de exercício a que se entregava para não ter de preencher impressos ou elaborar relatórios ...” (88). Sigo-o a desembrulhar tramas vindas do passado que é presente, mesmo que o queiramos esquecer, negar, um homem como tantos outros pois de um “Pobre país que se interessa pelo seu passado, e vive pendurado numa parede como um quadro velho e impopular que as visitas têm de ver. Angola, Moçambique, Guiné, Cabo Verde, São Tomé e Príncipe, Timor, Macau, pobre memória, pobre país que vive suspenso da aprovação dos outros, com medo de ter falhado onde falhou. O império, o coração do império. ( … ) tu próprio queres regressar à Guiné, onde a morte esteve próxima de ti, adormecendo no teu ombro, muito amiguinha, onde a vida estava suspensa de um fio, onde havia o cheiro que não esqueces. Fugiste da Guiné e olha o que te acontece: (…) cada inquérito persegue-te com o cheiro de África e os que dizem “ah, o cheiro de África”, mas nunca estiveram diante dos teus cheiros de África – o da merda, o da pobreza, o do lixo, o das coisas apodrecendo ao ar livre nos subúrbios, o dos mortos acumulados no mato, esquecidos, rendidos. Merda para África ...” (119-120).
Deixa-nos uma história africana que portuguesa é. Uma dessas que “a burguesia [que] gosta de segurança (…) detesta falar do assunto”. Deixa-nos o “homem a caminho de velho” assim foco (grão-exemplo?): “Em certas alturas só podemos imaginar, é o que nos resta. Esta é uma história de portugueses que nunca completaram a sua vida, que deixaram episódios por contar e que são portugueses de um império desaparecido. Nós somos os que vêm a seguir, para contar a história completa, mesmo que não seja a verdadeira.” (228).
Não há livros obrigatórios, nem imperdíveis. Isso são hipérboles mentirosas. Mas há livros bons. E este é um livro muito bom. Mais do que o recomendo.
[Francisco José Viegas, O Mar em Casablanca, Porto Editora, 2009]
jpt [que em nome da família agradece ao PSB e à CA a oferta do livro]
Na próxima semana Manuel Alegre estará em Maputo em actividade literária. Ao que me dizem de Lisboa aqui vem hifenizar* a literatura – pois assim pensa. A tresleitura que Manuel Alegre assim fará da realidade literária e histórica não será muito importante, não é isso que conta quando lemos os livros. Mas é interessante, e sonoro, sob outro ponto de vista. O hifenismo denotará o pensamento político, sob retórica cultural, do poeta e ficcionista. A incompreensão da multiplicidade dos processos históricos, da acção individual e colectiva. O hifenismo transpirará uma velha ideia de comunhão identitária trans-individual e trans-social, autónoma dos indivíduos, “naturalizadora” pelo que obrigatória, mas também moralizadora, porque assente na “tradição”, na “descendência” consideradas indiscutíveis. Este hífen, que Alegre trará na comitiva, é um “dado”, não literário mas ideológico.
Mas o hífen de Alegre não se esgota nisso. Tem subjacente, mas muito muito à flor da pele, um notório racismo.
E tudo isto é típico da vulgata para literatos a que chamam “lusofonia”. Manuel Alegre, e os que como ele pensam, nunca compreenderá isso. Porque são temáticas que lhes ultrapassam o património intelectual. E porque são questionamentos que lhes põem em causa o património político.
Como ele diz “a mim ninguém me cala” resta esperar que a segurança do aeroporto da Portela lhe apreenda o hífen.
*Se o hifenismo se soltar eu trarei aqui transcrição. Se se perder no caminho assim ficará
Um resumo de cinco minutos de uma reportagem (repórter Sílvia Camarinha; coordenação Arminda Deusdado) apresentada em 2008 na RTP-2 (programa Biosfera). Quem quiser ver a totalidade do programa ele está disponível no youtube. Está lá tudo anunciado – genial (e assim rara) perspicácia de repórter e dos entrevistados? desleixo dos responsáveis urbanos? Agora dezenas de mortos. Prejuízos materiais enormes – leio algures que serão necessários mil milhões de euros para a reconstrução.
Passados estes dias, cumprido algum nojo, é tempo de questionar. Há alguns anos caíu a ponte de Entre-os-Rios. De imediato o então ministro Jorge Coelho invocou a sua responsabilidade política e demitiu-se. Lembro bem do efeito que isso teve – alguns anos depois estourou o paiol de Maputo e jornais e vozes populares aqui se encheram com referências a essa atitude de Jorge Coelho, louvando-a. Quantas vezes pessoas se me dirigiriam num “Ao menos lá em Portugal os vossos políticos assumem as responsabilidades”.
Podem agora esses meus tantos interlocutores desiludir-se. Porque a anunciada catástrofe da Madeira é vista como uma “calamidade natural”, assim uma irresponsabilidade causal. Ninguém tem nada para assumir. Nem no continente (a Madeira é uma república, tem uma capital e uma sede de governo: Portugal, Lisboa, São Bento) nem na ilha (região com governo regional). É inacreditável.
25 Fevereiro 2010 12:29 — por ma-schamba em Che Guevara, jpt
Morreu o cidadão cubano Orlando Zapata Tamayo, preso político. V. dirá que não o conhecia, que nunca dele tinha ouvido ou lido. E eu acredito. V. dirá que não é nisto em que acredita, nem isso que sonha. E eu acredito. Mas quando V. me entra sala de aula dentro, carregando a efígie de Ernesto Guevara, na t-shirt, no emblema, na boina, até – por raras vezes - tatuada, eu encho-me de repugnância. Perceba V., talvez agora, quando lhe peço para ir ler sobre Guevara, sobre os guevaristas, sobre o que logo fizeram, sobre o que continuam a fazer. Perceba V. que essa t-shirt, esse emblema, essa tatuagem, querem dizer e disseram exactamente o contrário do que V. pensa. Perceba V. que esses guevaristas que V. ouve, que V. respeita, o tratarão, se V. continuar a ser o que parece ser, como trataram todos os que antecederam este Orlando Zapata Tamayo e todos os que lhe sucederão. Perceba V., e isso perceba bem, que também tem um guevara dentro de si. Pois todos temos a besta dentro de nós. Só precisamos de com ela ter cuidado, controlá-la. Assassiná-la.
Por falar nisso, caro aluno, rasgue essa merda de t-shirt. Não vá algum pobre miserável recuperá-la do lixo quando dela V. se libertar. Quando V. crescer. Livre. E rasgue, de vez, o respeito que possa ter por quem lhe canta guevarismos.
Para quem não teve oportunidade de ver aqui fica a sinopse (dita “trailer”) do belíssimo documentário produzido pelo canal National Geographic, para que atente em futuras reposições – enquanto não perco a esperança de aqui ter mais entradas dedicadas ao Parque.
Aqui está o “O Olho de Hertzog“, o último livro de João Paulo Borges Coelho, obra pela qual lhe foi atribuído o Prémio Leya. A entrega do prémio e o lançamento do livro decorrerão na próxima semana em Maputo, onde será apresentado por Gilberto Matusse. Presumo que nessa mesma altura será colocado à venda em Portugal. Dentro de alguns meses serão lançadas as edições angolana e brasileira. O livro – sobre o qual deixei aqui um breve parágrafo – é apaixonante. Para os habituais leitores de jpbc será obrigatório. E espero que venha a criar mais habituados.
Velho como o bloguismo em Portugal (actividade que ali explodiu em 2003) é o tema do anonimato opinativo. Há quem ache óptimo, absolutamente justificado, que por ali andem embuçados a distribuirem caneladas a torto e a direito. Há até quem lhe chame, em delírio de patusquice (e com o beneplácito dos “experts” da matéria), de “heteronímia” – ou seja é gente em quem habita um outro “eu”, ou até vários, muito dados a defenderem o partido “A” vituperando aqueles menos adeptos desse mesmo partido. Depois, burilados os geniais posts, os ditos blogo-Pessoas ou blogo-Quadros re-engolem o tal heterónimo e deixam regressar o aprazível ortónimo (sim, há bloguistas com uma grande lata).
Fica aí o fado, para os adeptos dos embuçados. Para essa gente menor.
Jorge Vara exibe o seu primeiro carro em Lourenço Marques, 1 de Setembro de 1938
por ABM (23 de Fevereiro de 2010)
Tendo crescido em Moçambique, como toda a gente ali, habituei-me a viajar em automóveis com volante à direita e com o trânsito pela esquerda.
Uns anos mais tarde, descobri que a maior parte do resto do mundo, incluindo na “metrópole” (Portugal) se conduzia pelo lado direito da estrada. O que era curioso mas nada de especial.
Em 1978, por dez dólares e com a ajuda do pai BM, que me deu umas lições básicas, tirei a minha carta de condução nos Estados Unidos da América, onde vivia, e onde se conduzia pela direita, as ruas eram largas e bem sinalizadas e as regras muito simples.
Nunca tive problemas nenhuns até voltar a Moçambique na segunda metade dos anos 90 e me sentei pela primeira vez a conduzir pela esquerda. O problema era com os meus reflexos: quando vinha de férias ou de serviço a Portugal, por mais que uma vez, sem pensar duas vezes, quando dava por mim estava a conduzir no lado esquerdo da estrada, para desespero dos sempre tão corteses motoristas portugueses, que aproveitavam logo para fazer comentários à minha ascendência feminina em termos pouco laudatórios.
Como passageiro, ainda hoje quando estou mais distraído, é comum, querendo eu entrar num carro quando estou fora de Moçambique, dirigir-me para o lado…do condutor.
Porque é que se conduz em Moçambique pelo lado esquerdo? a resposta é fácil: porque se conduzia à esquerda em todos os países com que faz fronteira, cujas regras de condução derivam dos padrões estabelecidos pela Grã-Bretanha.
Em Portugal europeu conduzia-se pelo lado esquerdo da estrada. Segundo um interessantíssimo historial deste tema num blogue brasileiro, foram os franceses no tempo da sua revolução que inventaram o padrão da condução pelo lado direito, cerca de 1794.Como a seguir invadiram quase tudo à sua volta, levaram essa regra com eles. Depois das guerras napoleónicas, a regra da condução pela esquerda na Europa permaneceu nos países que mais resistiram a tirania francesa; o Reino Unido, o império austro-húngaro e … Portugal. Claro que ajudou que na realidade, para ajudar os portugueses a organizarem-se contra os franceses, a Inglaterra naquela altura praticamente ocupou Portugal, o que durou uns anos. E o costume ficou.
Foi só após a primeira república ter caído de podre e ter sido instaurada a Ditadura (na altura só, e com “D” maiúsculo, Salazar sendo ainda uma incógnita), é que, de uma assentada, tudo mudou. Em meados de 1928, um ano após criada a Junta Autónoma de Estradas, foi legislado o primeiro código da estrada português e, pelo decreto n.º 18.406, de 31 de Maio de 1928, estabalecida a circulação pela direita nas estradas. Até então, a circulação automóvel em Portugal e nas suas colónias era feita pela esquerda, copiando a prática britânica.
Assim, a partir das 5 horas da manhã de 1 de Junho de 1928 em Lisboa, e à meia noite no resto de Portugal continental, para os cerca de 31 mil condutores com carta de condução e cerca de 28.000 automóveis então existentes, passou a ser obrigatória a circulação rodoviária pelo lado direito das estradas. O mesmo aconteceu na Guiné, em Angola e Timor e, presume-se, na Fortaleza de São João Baptista de Ajudá.
Mas em Macau, Goa e Moçambique, tendo em atenção as suas situações específicas, manteve-se a condução pelo lado esquerdo das estradas.
Em 1975, na sequência da anexação de Timor pela Indonésia – onde se conduz pela esquerda, o sentido da condução foi alterado. Não sei como ficaram as coisas em Dili e arredores depois da independência.
A ministra Esperança Bias fez notícia este fim de semana ao expressar a sua preocupação com a forma desregrada como se estão a extrair ouro e pedras preciosas do território moçambicano, sem rei nem roque.
Isto depois de uma reunião do sector em Nampula, em que a tónica foi que eram os “estrangeiros”, com conivências internas, que estavam a fazer o servicinho.
No entretanto, aparentemente, o espólio da mineração das preciosidades moçambicanas, esfuma-se.
De facto, como originário de Moçambique, sempre tive a vaga vontade – chamem-lhe curiosidade – de um dia poder comprar uma moeda moçambicana, feita com ouro moçambicano, feita em Moçambique ou pelo menos na África do Sul mas com um tema moçambicano (a cara de Mondlane, o nome do país, a certificação de que foi de ouro extaído em Moçambique).
Mas não há. A contrastar com as recorrentes notícias de que andam milhares de garimperios a trabalhar pelo país fora, o produto não se encontra.
Evapora-se.
E é uma pena. Pois para além de um produto de prestígio e muito bem vindo na área do coleccionismo, e ainda algo de valor acrescentado, se calhar seria um passo interessante no caminho da organização deste sector.
E há uma certa tradição neste país. A moeda actual de Moçambique – o Metical – tem uma denominação que vem de um meio de troca centenário que era feito de ouro.
Existe outra situação semelhante à do ouro.
Há poucos anos atrás, se um consumidor digitasse o nome “Mozambique” no sítio da Ebay, na internet, apareceriam centenas de turmalinas, de todas a cores, formas e feitios, a preços de saldo, para quem quisesse comprar. Paga-se com um cartão de crédito e uma semana depois as pedras chegam pelo correio a minha casa em Portugal.
As turmalinas, uma pedra semi-preciosa, vinham quase todas de Moçambique.
Mas se eu quisesse comprar uma turmalina em Maputo, era quase como procurar uma agulha no palheiro. Simplesmente, não havia.
Esta situação não é única ao caso de Moçambique. Angola é dos maiores produtores do mundo em diamantes, mas quando eu (que vivi lá dois anos) uma vez perguntei onde é que se podia comprar (legalmente) um diamante angolano, basicamente não havia a não ser meia dúzia de obras no duty free do aeroporto de Luanda, a preços mais caros que em Nova Iorque.
Talvez comece a fazer sentido de facto impor alguma ordem neste sector e fazer com que ele traga divisas e algum prestígio ao país.
Fernando Nobre, presidente da AMI, anunciou a sua candidatura a Presidente da República. Será relativamente desconhecido em Portugal, excepto para o meio mais ligado à “cooperação” (Ajuda Pública ao Desenvolvimento, Ajuda Humanitária) no qual é personagem conhecida. A sua candidatura provoca-me duas considerações simpáticas, ambas no registo do “wishful thinking”, independentes da pessoa em causa, e que procuram abstrair-se dos cenários “conspirativos” que a imprensa logo teceu em volta da anunciada candidatura (“soaristas” vs “alegristas”, “PS vs BE”, etc. e tal):
a) Uma candidatura oriunda deste meio profissional/intelectual, extrovertido por essência, talvez influencie alguma mutação no discurso político num país onde este está pobremente auto-centrado, ao invés das formas de integração internacional radical que a sociedade tem (económicas, educacionais, culturais, institucionais). O que não será totalmente estranho ao crescente apartar entre sociedade e política institucional, à ineficiência desta. E, secundariamente, talvez impulsione uma maior atenção social (mediática também, mas fundamentalmente dos cidadãos) às relações internacionais e no modo como o país nelas evolui.
b) Como adepto da democracia multipartidária e cansado do óbvio esgotamento do quadro actual (o corporativismo cleptocrático do ps, o longo estertor do psd – que lhe sucede ao corporativismo cleptocrático -, a pérfida ascensão do neo-comunismo) é-me simpática a entrada em acção de novos protagonistas democráticos, e a hipótese destes transportarem algumas novas ideias, novas entoações e – e isso seria o fundamental – trazendo novas práticas políticas. Foi um pouco o que esperei aquando do surgimento do MEP. Não significa isto apoio (ou voto) mas pelo menos simpatia, um “vamos a ver”.
Neste quadro dificilmente me poderia ter desiludido mais (ainda que a ilusão não fosse grande) com a entrevista de Fernando Nobre ao Expresso. É o próprio jornal que sublinha algumas das suas considerações nas quais o agora candidato procura traçar a sua especificidade (intelectual, política, pessoal): “”Vontade, todos os candidatos poderão ter. Mas nenhum terá a minha multiculturalidade, a minha lusofonia e mundividência” e em remate quase-final “Eu sou, talvez, o português – porque para mim o português é isso: o mundo, a miscigenação, a interculturalidade“.
Deixemo-nos de rodeios. Isto é o grau zero. A sua geneologia é conhecida, a estufa (a intelectualidade socialista portuguesa finissecular) também. Com estas características Fernando Nobre será – seja como muito improvável presidente, seja como provável candidato – um retrocesso em termos sociais e em termos culturais. Entenda-se, é deste discurso, desta auto-incompreensão, deste “português”, desta poluição que a sociedade portuguesa tem, e definitivamente, que se libertar. Ou seja, é outra a mundividência que urge nos nossos políticos.
[Maria Fernanda Sampaio, Sabores do Índico. Receitas da Cozinha Moçambicana, Assírio & Alvim, 2007]
Um belo e competente livro de culinária moçambicana, receitas recolhidas por Maria Fernanda Sampaio, praticadas por sua mãe, e nesta obra seleccionadas e apresentadas por seu filho Fernando Luís Sampaio. E alindado por fotografias, alusivas e/ou descritivas de Tiago Cunha Ferreira. O organizador avisa na “introdução”: “…estas receitas não representam um levantamento exaustivo dos modos e variações que algumas delas terão no território de Moçambique. Nem, se calhar, cobrem toda a realidade culinária do território.” (20). Claro que não, mas isso não impede que seja um livro de fazer crescer àgua-na-boca a qualquer simples amador, com esta oferenda de receitas de 5 sopas, 18 de peixes e crustáceos, 13 de carnes, 11 de legumes e 18 de doces.
É, como F.L. Sampaio bem refere, uma recolha da culinária miscigenada. Nota-se tal de imediato no capítulo dos doces (abaixo deixo nota sobre um, especialmente escolhido porque sem ovos), mas qualquer utilizador da cozinha urbana moçambicana reconhece a culinária moçambicana, com as influências portuguesas, indiana e africana (neste caso particularmente a entrada dos preparados de legumes). E nota de imediato o traço do etnocentrismo do palato, a ausência do que mais recusado foi na alimentação burguesa (em particular de origem europeia): a carne rural que não está representada, o peixe-seco, já para não falar de outras tantas espécies animais, “comida do povo”. Mas disso particularmente significativo são as ausências de pratos confeccionados com cabrito e a da fabulosa, emblemática e super-agressiva cacana.
Estou a criticar? A desvalorizar? Nada! O livro é mais do que recomendável. Abaixo deixo uma proposta de almoço de domingo.
[Tocossado]
[acompanhado de Mucuane - não é o acompanhamento típico mas porque não?]
[Pudim de abóbora com coco]
Gosta das imagens? Quer que eu transcreva as receitas? Hum … vá comprar o livro. Ou este, que também não irá nada mal servido.
O “Prémio Maschamba 2010″ para os melhores excertos de discursos feitos por grandes líderes mundiais nos últimos 50 anos vai para o último discurso.
JOHN FITZGERALD KENNEDY, 27 de Janeiro de 1961
(dirigido aos jornalistas e à imprensa em Washington. Kennedy foi assassinado em 22 de Novembro de 1963)
RICHARD MILHOUSE NIXON, 17 de Novembro de 1973
(defendendo-se em relação ao escândalo de Watergate. Nixon demitiu-se da presidência dos EUA em 9 de Agosto de 1974)
BILL CLINTON, 26 de Janeiro de 1998
(defendendo-se de acusações de que teria tido relações sexuais na Casa Branca com uma jovem de 25 anos, Monica Lewinski. Apesar do desgaste, concluiu o segundo mandato)
JOSÉ SÓCRATES, 18 de Fevereiro de 2010
(defendendo-se de persistentes indícios, baseados em gravações captadas pela polícia, de que engendrou uma conspiração contra meios de comunicação social portugueses para eliminar opiniões contrárias às suas)
19 Fevereiro 2010 5:17 — por ma-schamba em Emigração
CONSULADO GERAL DE PORTUGAL
MAPUTO
Envio as minhas saudações à comunidade portuguesa na área de jurisdição deste Consulado Geral e gostaria de informar que S.Exa o Primeiro Ministro de Portugal, Eng. José Sócrates, visitará oficialmente Moçambique, nos próximos dias 3, 4 e 5 de Março, acompanhado de vários outros membros do Governo e de uma delegação de empresários.
Sem prejuízo de informações adicionais que entretanto serão enviadas, gostaria desde já de salientar a intenção de o Primeiro- Ministro se encontrar na ocasião com a Comunidade Portuguesa, no dia 3 de Março, primeiro dia da visita.
Toda a comunidade portuguesa está convidada para este encontro. Porém, por motivos de segurança, as pessoas que nele tencionarem participar deverão estar munidas do respectivo convite, para exibir à entrada, facilitando a entrada no recinto. Os convites deverão ser levantados neste Consulado-Geral, a partir da próxima quinta-feira, dia 25 de Fevereiro, dentro do horário de abertura ao público, ou seja, das 8,30 às 14 horas.
[Comunicação divulgada pela Cônsul-Geral de Portugal em Maputo, a excelente Graça Gonçalves Pereira. E aqui transcrita por jpt]
Um excelente texto da historiadora Ana Cristina Nogueira da Silva (ACNS), Fotografando o Mundo Colonial Africano. É um texto académico (no jargão “paper”) que pode afastar alguns leitores mais atreitos ao registo blog, mas mais do que justifica a sua leitura. Trata-se de uma bela análise dos processos intelectuais presentes na iconografia produzida no tempo colonial sobre as colónias africanas, tomando como exemplo os álbuns produzidos por Santos Rufino na década de 1920 sobre Moçambique. ACNS aborda, com clareza, os estereótipos sobre a natureza e sobre as populações que estão presentes / e são produzidos no acto de fotografar, bem como os propósitos (conscientes ou inconscientes) de índole política que estavam presentes no formato descritivo de então. Se interessante para quem tem apreço pela historiografia é um texto também fundamental para quem aprecia (e reproduz) as galerias de “postais” e “fotografias” de um tempo particular. Para pensar como se pensava, para ver como se via. E como se pensa e vê, em tantos casos.
E o recente livro “Fábulas de Cabo Delgado” com imagens de Matias Ntundu, o célebre xilogravador de Cabo Delgado, acordou na estante este pequeno opúsculo que acompanhou uma exposição em Maputo, no longínquo 1982, do trabalho de Maya Zucher (a capa reproduz a sua xilogravura “Luz e Força”). Esta foi uma artista suíça que trabalhou em Moçambique sob os auspícios da Associação de Amizade Franco-Moçambicana desde 1979, tendo desenvolvido trabalhos de activismo cultural ( introdução e desenvolvimento de tapeçaria e xilogravura) em Cabo Delgado, Zambézia e Nampula. E foi nesse âmbito que se registou a iniciação da técnica da xilogravura nas cooperativas artísticas do Cabo Delgado – e é desse processo, bem como da sua articulação com a arte (então militante) da artista que o opúsculo trata. Conta com um texto introdutório de Eugénio de Lemos e Malangatana (muito provavelmente um dos iniciais textos comuns que viriam a tornar-se conhecidos sob o pseudónimo Rhandzarte) e com uma explanação da própria sobre o processo de ensino artístico, ligado à produção do “Homem Novo” – também por esse testemunho o texto surge hoje, na sua candura, como um documento interessantíssimo ainda que breve.
Mas para além disso traz-nos esta memória sobre o começo de uma prática artística que veio a tornar-se algo conhecida no país, em particular através da obra de Matias Ntundu e seus vizinhos artistas da aldeia de Nanbimba. Aqui deixo duas imagens particularmente significativas desse processo de transferência tecnológica, memória dos participantes e uma das primeiras xilogravuras moçambicanas.
“Os cooperativistas Leonardo Mário e José Tangawizi da Aldeia Comunal Nandimba, imprimindo as suas primeiras xilogravuras em Janeiro de 1982“
“A Terceira Xilogravura feita por Matias Ntundu Mzaanhoka – 1982″
A recente edição de Fábulas de Cabo Delgado leva-me de volta a este livro de Manuel Viegas Guerreiro, Rudimentos de Língua Maconde (Lourenço Marques, Instituto de Investigação Científica de Moçambique, 1963), um trabalho produzido no âmbito da célebre pesquisa coordenada por Jorge Dias e que culminou na vasta obra “Os Macondes de Moçambique”, algo inserido na Missão das Minorias Étnicas do Ultramar.
Filólogo e etnógrafo Viegas Guerreiro deixa neste livro uma secção de “Notas Gramaticais” (reconhecidamente devedora do trabalho nesse âmbito dos missionários católicos holandeses e do reverendo Lyndon Harries), uma outra de “Fraseologia“, uma secção de “Vocabulário Maconde-Português” e outra de “Vocabulário Português-Maconde“. Instrumentos úteis, considera na introdução (1963) pois “…os Macondes …Constituem uma população de 100 000 almas … Com ela tem estado em contacto, através do tempo, a gente de língua portuguesa, agora notàvelmente numerosa. Há muito se reclamava a elaboração de um instrumento linguístico que facilitasse o convívio das duas etnias: …” (introdução). Uma refinadíssima delícia intelectual, se enquadrada no tempo e contexto.
Mas o que me fez regressar ao livro foi uma outra secção, a de “Contos e Adivinhas“: 15 contos e 56 adivinhas, em apresentação bilingue, recolhidas em missões ou aldeias, sem notórios arranjos literários – que normalmente padronizam os discursos e, quantas vezes, os levam a terem corolários moralistas. Um precioso documento cosmológico, as adivinhas a deixarem entrever as hierarquias causais e os aparentes paradoxos disponíveis no real. Os contos tendo várias narrativas cosmogónicas, quase-sempre em registo “fábula”, ou seja assentes na interacção de animais. De notar o esclarecimento da recolha, ao não se fixar na tão comum demanda de um fundo mitológico “intocado”, primordial. Disso transcrevo um iluminado exemplo (pp. 68-69), uma “fábula” cosmológica (ordenadora do social) que trabalha com o material (relações sociais) contemporâneas [deixo em itálico expressões centrais expressas em língua maconde, comprovativos que nem sequer um "purismo" linguístico poluía o olhar de Viegas Guerreiro]:
O Lagarto e a Perdiz
Um grande lagarto estava sentado como um senhor, na sua varanda. Passou uma perdiz e saudou-o:
- Bom-dia, tio [Njomba, bondia].
O lagarto não correspondeu. Continuando calado foi queixar-se à Administração. Sairam soldados a amarrar a perdiz, e logo que a apanharam trouxeram-na à Administração. Quando chegaram, disseram assim:
-Levanta-te, lagarto, e fala.
O lagarto levantou-se e disse assim:
- Eu estava sentado na varanda e chegando a perdiz falou-me desta maneira: “Bom-dia”. E é por isso que me vim queixar aqui.
A perdiz replicou:
- Eu dei-te os bons-dias porque a minha mãe me falou assim: “Quando encontrares quem tenha saído de um ovo, estarás na presença de um teu tio”. Tu, lagarto, não saíste de um ovo? A minha mãe não saiu de um ovo? Eu não saí de um ovo? Eu não sou teu sobrinho? A minha mãe não saiu de um ovo?
O lagarto percebeu: “Este que maltratei é meu sobrinho”. Envergonhou-se e tirou muito dinheiro para dar à perdiz. Mas basta, o milando (milando) deles acabou.”
Para o exmo. leitor que quer ver em que é que os portugueses são mesmo mesmo (mesmo mesmo) muito bons, o semanário Economist de ontem tem um rebuçado para si.
Olhe para o quadro em cima, preparado a partir de dados compilados e trabalhados pela OCDE, com base em dados para 2005, e preste atenção.
A barra azul mostra a (maior probabilidade) que o filho de um pai com uma educação superior tem de, ele também, obter uma educação superior, comparado com as mesmas probabilidades do filho de um pai que não tenha uma educação superior.
A barra amarela mostra a probabilidade (independentemente da educação) que o filho de um pai com educação superior tem de assegurar um emprego com um salário mais elevado, comparado com as mesmas probabilidades no caso do filho de um pai que não tenha uma educação superior.
Conclusão? cito um leitor da revista que viu o mesmo quadro: “o Reino Unido e Portugal são nepotismos oligárquicos onde uma pessoa nem sequer precisa da fachada de um grau académico [...] para arranjar um emprego confortável e bem pago”.
E o meu remate: “porque tem um papázinho muito bem educado e muito bem conectado que ajuda a arranjar um empregozinho bom para o filho, independentemente de o filho ser ter uma educação universitária ou não”.
Regra geral isso chamamos em Portugal uma “cunha”, neste caso intergerações.
No que os portugueses são os campeões nesta lista de países.
A genial Audrey Hepburn enganou-se ao cantar que the rain in Spain stays mainly in the plain. A canção é engraçada e na (maior parte da) verdade. Mas a chuva em Espanha também escorre quase sempre para Portugal.
E política e economicamente, sempre foi e cada vez mais é assim. Foi por isso que, por curiosidade, para tentar estabelecer um contraste com o que se passa em Portugal e também para entender a dinâmica da interdependência entre as economias espanhola e portuguesa, fui ler um pouco sobre o que lá se passa.
Os paralelos são evidentes. Mercê de um lastimável atentado terrorista por uns talibãs marroquinos em 2003 (os exmos leitores devem-se recordar disso), ocorrido escassos dias antes duma eleição parlamentar, os eleitores espanhóis votaram para o poder o actual primeiro ministro, o alto e pouco sorridente José Luiz Zapatero. Que é socialista e em vários aspectos uma espécie de versão local de José Sócrates, menos umas minudências como esta entre Sócrates e a imprensa.
Em 2003, recorde-se, Sócrates era pouco mais que ninguém fora do PS. Mas uma série de trambolhões imprevisíveis na política portuguesa criaram-lhe a oportunidade de ser primeiro-ministro. Ferro Rodrigues, o então secretário Geral do PS, deu-lhe uma dor de cabeça por causa da história da Casa Pia e saiu; Durão Barroso recebeu um convite para ser presidente da Comissão Europeia e saíu; Santana Lopes levou com a “bomba atómica” de José Sampaio e eis que, após uma eleição, surgiu a Era do Socialismo Socratiano.
A memória é curta. Pouca gente hoje se recorda que os primeiros anos de Sócrates foram dedicados a – supostamente – controlar o “monstro” que erra o défice público. Desde que Cavaco Silva tinha saído do poder em 1995, as finanças públicas portuguesas estavam a degradar-se à medida que as transferências da União Europeia secavam mas ermaneciam todos os vícios inerentes.
Estrutralmente, quase nada mudou na economia excepto uma maior eficiência na colecta dos impostos pela mão de Paulo Macedo, um quadro do BCP pago a peso de ouro. Para contrariar os índices, não se cortou nas despesas: aumentaram-se as despesas e aumentaram-se muito mais os impostos em quase todas as áreas. Sócrates tentou, em nome de uma série de profssões de fé socialistas, fazer tudo: reformas contra os lobbies da praxe, obras públicas à fartazana, ajuda aos pobres, manutenção do “estado social”, e os programas com nomes sonantes que eram a marca desta era, desde o Magalhães até ao Rendimento Mínimo Garantido. A economia portuguesa continuou estagnada.
Em Espanha a história era algo diferente. Nos anos 90, Aznar, que era um bocadinho mais de direita, criou um gigantesco boom económico que assentou na especulação imobiliária, apoiado pela enorme baixa nas taxas de juro resultantes da adesão daquele país ao euro. Quando eleito em 2003, Zapatero fez um pouco como Sócrates: deixou tudo mais ou menos na mesma, aumentou os impostos, aumentou as despesas sociais e proclamou que o Socialismo era mais justo e mais Humano. A economia espanhola crescia mais robustamente, mas já se viam as rachas no verniz.
Ambos países sofrem de males crónicos e dramáticos: têm excessiva rigidez nas leis laborais e empresariais, têm populações excessivamente envelhecidas, têm aquele pequeno problema de importarem sempre muito mais do que exportam. Têm burocracias irredutíveis.
A Espanha é importante para Portugal pois é o principal exportador de bens e serviços para Portugal, é o principal importador de bens e serviços portugueses e é dos principais investidores em Portugal. Não foi surpresa quando, logo após eleito, e meteram um microfone à frente de Sócrates, ele só soube dizer “Espanha, Espanha, Espanha”.
E ficou por ali, ficou por ali, ficou por ali.
Em fins de Setembro de 2008, na sequência de uma preocupante subida no preço dos combustíveis, seguida pela falência do Lehman Brothers e o quase colapso dos mercados financeiros internacionais, quase todos os países se ressentiram. O pânico fazia-se sentir nas ruas, nas empresas e em casa das pessoas.
Em ambos os países, liderados por forças socialistas, a reacção foi de suster o pânico nos mercados financeiros locais inundando o sistema com milhares de milhões de euros em liquidez e manter e expandir o nível de apoios sociais, na face de um brusco declínio na actividade macroeconómica. Nisso copiaram os ingleses e os americanos, que mostraram o caminho.
Mesmo assim, o embate foi terrível. Rapidamente, a taxa de desemprego subiu para 10% em Portugal e 19% em Espanha. A actividade económica caiu bruscamente bem como as exportações. Em Portugal, o BPP e o BPN basicamente faliram, custando milhares de milhões de euros aos contribuintes (a contabilidade ainda não está feita). O défice do orçamento em 2009 em Portugal é estimado em 9.5% e em Espanha 11.4% do PIB, sem fim à vista. No caso espanhol, a “bolha” de especulação imobiliária (iniciada por Aznar em 1998) estoirou estrondosamente e os seus efeitos ainda não se fizeram sentir em toda a economia, se bem que o que já se sentiu já teve um efeito arrasador.
Numa Europa enfastiada, surgiu o espectro dos PIGS (abreviatura para Portugal, Italy, Spain and Greece) a afundarem-se e a ameaçarem afundar o experimento europeu com eles. A Grécia, com o problema fiscal mais grave, já está a braços com a necessidade imediata de fazer alguma coisa para equilibrar as suas contas. A Irlanda, igualmente afectada, tomou medidas radicais: cortes imediatos em todos os sectores, começando pelos gastos públicos, o que incluiu os sálários dos funcionários governamentais até ai mais alto nível. A pequena Islândia faliu.
Em Portugal, as informações já publicadas em termos do orçamento aprovado este ano indicam que nada se vai fazer de especial. Prevê-se aumentos significativos nos impostos nos próximos 18 meses e um aumento na tensão social, pois todos vão querer comer e não há pão para todos.
No contexto de nada se fazer de significativo na frente doméstica, e aparte da resolução do enorme buraco fiscal, obviamente, a recuperação da economia portuguesa só poderá assentar em mais exportações, em menos importações, em mais investimento estrangeiro em Portugal e, domesticamente, no corte das despesas públicas.
Só que o principal parceiro para que tal supostamente suceda, continua a ser a Espanha, que tem quase exactamente os mesmos problemas que Portugal.
Portanto, por força das circunstâncias, nos próximos um a dois anos iremos ter a oportunidade de aferir os verdadeiros limites dos paradigmas “socialista” ou “capitalista” dos ibéricos: mais governo e mais impostos, ou mais mercado e mais desregulamentação?