A Bailarina

E então tu entras no poema
com as tuas mãos alongando
a ausência do teu corpo
esgueirado na margem
do meu espanto
e bato palmas.
Deixas-me entrar no teu palco
com o fito de te admirar apenas.
Aqui estou minha bailarina
nesta Andaluzia improvisada
sapateando uma noite de guitarras
e estas vozes entre palmas
que esvoaçam a minha solidão.
Vejo-te assim nos meus versos
tuas mãos africanas indianas árabes
tua comovente beleza
na cadência deste flamenco
nestas vozes ciganas tangendo-me
com as ocres cores de Sevilha
nos pátios da Ilha de Moçambique
onde tu bailas e voltas a bailar
e eu bato palmas de júbilo
no êxtase dos gestos
que acordam os sinais
que me lembram
a tua ausência.

(Nelson Saúte, inédito; a ser integrado no mui próximo livro “Maputo Blues” - obrigado Nelson, pela permissão.)

3 comments ↓

#1 RAA on 10.14.06 at 22:20

Gosto imenso de ler a prosa do Nelson Saúte. Desconheço a sua poesia, infelizmente. Espero que o livro seja acessível aqui no rectângulo.

#2 JPT on 10.15.06 at 8:58

“A Pátria Dividida”, um já antigo livro de poesia de Nelson Saúte, foi publicado em Portugal pela Vega. A D. Quixote publicou uma colectânea de poesia moçambicana, por ele organizada, “Nunca Mais é Sábado”, que julgo (estou a escrever de memória) integrar alguns poemas dele. Quanto a este livro será publicado na Ndjira (que é uma participada da Caminho em Moçambique), não sei se aí também.

#3 A on 10.19.06 at 17:02

Que beleza essa miscegenagem afro-latino-indiana. Parece uma dança. Da bailarina! Aguardo a sessao de jazz do “Maputo Blues”…

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