O visitante António Jacinto Pascoal enviou esta contribuição, respeitante a um livro por ele publicado na editora Ela Por Ela dedicado a Violeta Parra. Ei-la, incluindo capa de livro, nota de apresentação e texto crítico.
NOTA DE APRESENTAÇÃO
Violeta Parra, a célebre intérprete da canção Gracias a la vida, é o nome mais alto do cancioneiro popular do Chile. Entre espectáculos, digressões, prémios, casou várias vezes, teve quatro filhos e destacou-se pela qualidade e conteúdo social do seu trabalho artístico, que nos legou uma lírica politicamente comprometida, criativa e singular, misto de alegria e infelicidade, combatividade e desespero.
Alguém lhe chamou a abelha-mestra da Nova Canção Chilena. Mas foi também intérprete de outras artes: pintura, escultura e tecelagem.
Mais tarde, sucumbiu à melancolia, à solidão e à depressão, suicidando-se em 1967, pouco depois de compor Gracias a la vida, em cujos versos diz: “Assim eu distingo a alegria do desalento, / as duas matérias que formam o meu canto/ e o vosso canto, que é o mesmo canto, / e o canto de todos, que é o meu próprio canto”.
Com este livro, o público passa a dispor, pela primeira vez, do essencial da obra poética de Violeta Parra, praticamente desconhecida entre nós, e fundamental para a compreensão do nosso próprio cancioneiro popular.
TEXTO.
De António Jacinto Pascoal a tradução de Violeta Parra em “O Canto de Todos”, antologia poética, prefaciada, anotada e acrescida de duas missivas epistolográficas da chilena para o seu amado Chinito, aliás, o músico suíço Gilbert Favre.
Lembra-nos, ou anuncia-nos o tradutor, que para Violeta Parra, irmã do também poeta Nicanor Parra, “La muerte no es tan importante como la vida. La gente solo se assusta se no ha sembrado nada.”, possível explicação para o seu tão entusiasmado envolvimento na vida, no amor, na luta, nas observações, nas vitórias e nas derrotas, que, como qualquer entusiasmo, requeria esfriamentos, pedaços de morte para contrabalançar o corpo e, provavelmente, destruir e imbuir a mente de derradeiros impulsos para uma luta fatalmente maior que o homem. Poderemos encontrar, nos meandros desse espaço, a marca de muitos heróis e anti-heróis, misto em que, possivelmente, mitigou Violeta os seus anos de vida. Tal torna-se igualmente visível na tradução directa dos poemas que existe neste livro, e directa, não por ter sido efectuada directamente do castelhano, mas porque tenta evitar os espaços do poeta tradutor ao mínimo, e evita.
Ficam-nos depois, os poemas musicados, e para música escritos, de Violeta, que com toda a rapidez se voltam a transformar, buscando a fonia original, que muito lamentavelmente não é incluída.
Talvez toda a poesia seja simultaneamente música, ainda que no seu estado mais ancestral, cru, mais visceralmente emitido que falado; mas esta foi impulsivamente música, onde ganhará outra dimensão, que não perde, todavia, em força e luta, quando apenas tomada na aspereza e beatitude das palavras: lágrimas, gemidos, verbos de força, força dos braços, força dos Homens, força intra-uterina acrescida, facto que possivelmente fez acrescer o interesse da editora Ela por Ela neste livro.
As forças que desconstruímos destes versos avisam-nos um Chile com a datação de uma determinada mulher e da sua vida, mas vivem encharcados de uma mesma carne arrepiante que pode ser descoberta no blues do Mississipi, na soul de Filadélfia; sempre uma apropriação humana do vento que varre as casas – agora os prédios – obrigatoriamente abandonadas para vislumbrar a vida.
No caso de Violeta e dos seus trabalhadores, cavou uma terra humedecida com sangue e inflamou-se de amor e morte; lenga-lengas iniciadas À uma, muitas vezes cantadas, mas desde o inicio comprometidas.
Artur Aleixo
Arronches

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