Amália Rodrigues na Beira

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(fotografia tirada em Outubro de 2007; pressione-a para a engrandecer]

Como abaixo o ABM homenageou Amália Rodrigues, no décimo aniversário da sua morte, para isso recordando a passagem da cantora por Moçambique, cumpre-me associar-me a essa invocação aqui deixando memória da passagem de grande cantora pela cidade da Beira, onde inaugurou o Miramar em 29 de Junho de 1951.

jpt


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11 Responses to “Amália Rodrigues na Beira”

  1. A B de Melo diz:

    No respeitante à Amália e a Moçambique, este blogue anda melhor que os serviços secretos… espectacular foto. Impressionou-me hoje saber que uma canção marcante como “Uma Casa Portuguesa” foi mais ou menos “made in Mozambique”. Quiçá uma herança curiosa e ilustrativa de uma forma muito curiosa e atípica de se viver a portugalidade, uma cidade a crescer num mar africano prestes a acordar para a maturidade política. Muito há a entender sobre esse passado, tão perto mas tão distante.

  2. Fernanda Angius diz:

    Antes de mais parabéns ao jpt e ao seu blog que pode considerar-se como um verdadeiro espaço intercultural. Não o fizera melhor enquanto Adido Cultural do meu país em Moçambique.
    Depois, encontro-me perfeitamente de acordo quanto à ignorância que ainda existe entre as ligações que verdadeiramente existiram e existem entre a cultura portuguesa e os «colonialistas» e «colonizados» das antigas colónias que o famoso Mapa cor-de-rosa nos atribuiu…
    Reinaldo dos Santos, se tivesse vivido o suficiente, teria sido um dos mais brilhantes poetas da nossa cultura, embora não fosse de origem moçambicana como Virgílio de Lemos, Eugénio Lisboa e Helder Macedo. Dentre estes só Rui Knopfli mereceu o reconhecimento da «Inteligência» moçambicana. Contemporâneos de Craveirinha e mesmo anteriores, muitos poetas esperam ainda que Moçambique e Portugal lhes faça a justiça que a Literatura lhes deve. A Literatura, com maiúscula, e não apenas a de uma nação ou património nacional. A Literatura é uma Arte e, como tal, deve ser respeitada nos seus criadores. Poetas maiores ou poetas menores, devem ser aquilatados pela obra produzida e pelo testemunho cultural de que são expressão. Virgílio de Lemos, criador da folha de poesia «Msaho», inovadora e revolucionária e por isso mesmo imediatamente apreendida pela PIDE, já escrevia poesia de denúncia do sistema fascista em 1946. Com o heterónimo Duarte Galvão, publicou «Poemas do Tempo Presente» que, igualmente apreendido, se encontra esgotado. Com o heterónimo feminino Lee-Lee-Yang (na realidade uma macaísta que teve uma relação amorosa com Virgílio)tem no prelo um livro de poemas além de um outro do ortónimo Virgílio de Lemos. Moçambicano de 4 gerações antes da sua, grande poeta, sofreu ano e meio de prisão em finais de 50, com Craveirinha Malangatana e outros, acusados de atentarem contra a segurança do Estado. E quem fala dele em Moçambique? Por ser branco e ter pertencido à Mocidade Portuguesa? Por acaso os antifascistas que fizeram o 35 de Abril, não pertenceram? Mais, todos eles assinaram como eu assinei que «não pertenciam ao Partido Comunista nem a nenhumas ideias subversivas, etc. etc….»! E VIRGÍLIO É VOTADO AO ESQUECIMENTO PORQUE A hISTÓRIA ANDA AINDA POR SER HONESTAMENTE ESCRITA ATRAVÉS DE TESTEMUNHOS FIÁVEIS QUE SÓ A INVESTIGAÇÃO GARANTE E FICA LONGE DA OPINIÃO OU DA CUMPLICIDADE IDEOLÓGICA.
    Deixo aqui um apelo a quem se disponha a estudar a História da Literatura em Moçambique para que comece a ler os periódicos e jornais regionais. Neles encontrará o que não espera mas a colheita terá valido a pena. Obrigada. Fernanda Angius

  3. umBhalane diz:

    Pois é!

    Mas a Fernanda Angius esqueceu-se dos Colonizadores, isto é, dos Colonos.

    É que entre os «colonialistas» e os »colonizados» ficavam os Colonos ou Colonizadores, que por sua vez também eram colonizados pelos colonialistas.

    Parece complicado, mas não é de todo.

    Por se ter falado em História, e no seu estudo.

    Já agora…

    Obrigado.
    Cumprimentos,

    umBhalane

  4. jpt diz:

    ABM sobre isso da “A Casa Portuguesa” como ícone de um determinado tempo nunca mais me esqueço de ver o João Gilberto no velho Coliseu dos Desportos de Lisboa, para aí em 1984. O homem arranca com a canção, que havia gravado há alguns anos, e até gaguejou espantado com o imbecil coro de assobios e mal-estar que provocou. Isto no meio de um fabuloso concerto que estava a dar.

    FA obrigado pelas suas exageradas palavras. Quanto âs questões da pertença literária são superiores ao meu saber. Mas parece-me que as diferentes concepções sobre o que “é” ou “não é” literatura moçambicana (ou também literatura moçambicana) ultrapassam um pouco as formulações político-ideológicas dos autores em causa.

    1B – concordando com a complexidade sociológica dos processos colonizadores, e com a necessidade de os analisar, não deixo de me arrepiar um pouco com a sua formulação de “colonos colonizados”. Parece-me obscurecedora quando o objectivo será o de esclarecer

  5. A B de Melo diz:

    JPT – eu percebi perfeitamente aquilo a que o 1B se estava a referir acima: “entre os «colonialistas» e os »colonizados» ficavam os Colonos ou Colonizadores, que por sua vez também eram colonizados pelos colonialistas.”

    São as mesmíssimas pessoas a que, num memorável jantar em Manhattan na noite de 9 de Novembro de 1989 ( noite em que caiu o Muro de Berlim) um mais juvenil José Freire Antunes, então bolsista duma fundaçãozinha ligada à Universidade de Columbia, displicentemente desdenhou serem oportunistas desfocados da História.

    Ou seja, duplamente portugueses de segunda: antes e pós-1974.

    Felizmente, Freitas do Amaral, Loureiro dos Santos e António Barreto, que estavam na mesma mesa (Otelo Saraiva de Carvalho, que estava lá, deslumbrado com Nova Iorque, e pelos vistos prestes a ser preso pelo seu envolvimento nas FP 25 de Abril, não se pronunciava) refastelavam-se com a magia do momento. Sobre a queda do Muro nessa noite e o fim do comunismo soviético, um super- bem disposto Freitas disse qualquer coisa como “isto é o mesmo que o Papa ir à televisão e dizer que afinal o catolicismo era tudo mentira e que na verdade Deus não existia.

    Ri-me. Mas retive o comentário de Freire Antunes.

  6. jpt diz:

    Acho que o Otelo esteve preso antes dessa altura – mas isso é secundário.

    O comentário, se bem o percebi, de Freire Antunes é perfeitamente lamentável, ainda para mais em historiador. Ainda que, às vezes, o registo de conversa permite umas boutades …

    Náo me vou repetir, mas acho que sim, muito interessante estudar sociologicamente os contextos de colonização, e nao resumir tudo a pólos. Mas daí á homologia, mesmo que metafórica fosse, de colonizados colonos e colonizados colonizados, vai um canyon, acho

    - no fundo acabamos com a conversa do Brasil, onde os colonos continuam a chatear-nos (e a obscurecerem-se) com a história dos portugueses colonialistas. E se há colono colonialista é mesmo o brasileiro, entenda-se (esta é a Freire Antunes, em jantar festivo)

  7. ABM diz:

    Absolutamente correcto JPT e corrijo-me e penitencio-me: uma inserção do Wikipédia indica que Otelo Saraiva de Carvalho foi preso em 1985 e libertado cinco anos mais tarde. Bem, na noite de 9 de Novembro de 1989 estava em Nova Iorque. A mesma inserção indica que ele nessa altura havia sido condenado pelas actividades no FP 25 de Abril mas havia recorrido da sentença e estava à espera alegremente em liberdade provisória (adoro esta justiça portuguesa). Em 1996 o parlamento português votou um indulto e, caso houvesse dúvidas, em cima disso uma amnistia para os senhores todos do FP 25 de Abril (adoro o nacional-porreirismo do sistema político português).

    Não sei o que pensaram as pessoas cujos familiares foram mortos ou assaltados por estes senhores. Aliás, pouco sei sobre o assunto pois felizmente nesses anos eu estava bem longe, de corpo e mente.

  8. jpt diz:

    Foi promovido há pouco tempo, está para aí no ma-schamba. Uma coisa inenarrável. Mas já viste o que é que um post sobre a Amália na Beira provocou de converseta …

  9. umBhalane diz:

    JPT

    “Parece-me obscurecedora quando o objectivo será o de esclarecer”
    “Mas daí á homologia, mesmo que metafórica fosse, de colonizados colonos e colonizados colonizados, vai um canyon, acho”

    O objectivo foi especializar o esclarecimento, ir até à minúcia máxima possível da questão.
    Vejamos.
    Os brancos de 2ª classe não eram incorporados no serviço militar, antes das guerras (1960/61) – portanto a carreira militar estava-lhes vedada.
    Também, e por isso, não podiam exercer quaisquer cargos administrativos, mesmo os de base – chefe de posto administrativo, aspirante…
    E, creio, não tendo a certeza, não podiam também fazer parte do aparelho judicial – juízes,…

    O Sr. meu Pai, branco de 1ª classe, tentou montar uma oficina de reparação de bicicletas, “gingas”, e motorizadas, com venda das mesmas e acessórios, cerca do ano da graça de 1957 – INDEFERIDA pelo Ministério das Obras Publicas da “Metrópole”.

    NUNCA mais me esquecerei, o que o Sr. meu Pai disse à mesa das refeições, a toda a família presente, 4 brancos de 1ª + 2 brancos de 2ª – “Moçambique só vai para a frente, quando for INDEPENDENTE.”

    E nada mais disse, não teceu mais quaisquer considerações.

    A minha Família morava no Luabo, onde o Sr. Meu Pai era trabalhador por conta de outrem – a Sena Sugar Estates, Lda.

    3 Irmãos meus também lá trabalharam.

    Emigraram todos – 1965 para a Rodésia do Sul, 1969 para Portugal, e o mais novo em 1974 para a RSA.

    E porquê?

    Não se ganhava grande coisa, não compensava – e diziam e comprovavam os “patrões” que não podiam pagar muito mais – na cidade da Beira já se ganhava bastante mais que no “mato” – Luabo.

    Pois, e pode-se repercutir o exemplo, o açúcar era exportado em bruto para as refinarias da Metrópole – Lisboa, a 2,50 escudos, e reimportado a 6,50 esc ou mais.

    Está a ver JPT, porque é que eu escrevo/digo que no meio havia colonizadores que também eram colonizados.

    Isto não é auto vitimização/comiseração – é realidade.

    E, acresce, que os Srs. Meus Pais, brancos de 1ª, redimiram todo o resto, e tudo.

    E é, tudo também, numa boa.

    Mesmo.

  10. jpt diz:

    1B, o que refere integro-o no âmbito do que referi acima, da necessidade de analisar sociologicamente o processo colonizador, não nos restringindo aos pólos português-africano. Insisto que entender os processos de subalternização popular, de centralismo metropolitano, de exploração regional, de fidelização a interesses de grandes grupos económicos coloniais, tudo isso e mais alguma coisa, sendo fundamental para entender o regime colonial e o seu sistema económico-político, náo me parece ser mais entendível através de – superficial que seja – homologia entre a condição de colono subalterno e a de colonizado.
    Penso que ambos nos fizemos entender, explicitando o nosso desacordo na substância e concordância na essência (vs leituras superficiais)

  11. A B de Melo diz:

    1B e JPT,

    Acho que entendo bem ambos.

    Por um lado, a dicotomia colono de 2ª e 3ª não é exactamente afim à de colonizado como definido em muita literatura e análise académica de Moçambique pós independência – onde ainda imperam imensos dogmas e wishful thinkings sob um verniz de “ciência social” – e que se pode referir como a pessoa de raça negra com antepassados em África (foi esta a definição, na altura da independência, para separar os nascentes “moçambicanos” dos outros, está na actual constituição, basta ir ver).

    Por outro – como 1B referiu – rotular indiferenciadamente o “colono” é quase caricato. Pois não foi nada assim, especialmente até aos anos 60. Antes dessa altura havia enormes diferenças no tratamento e oportunidades com base em origem geográfica, a côr da pele, nível cultural, experiência etc.

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