
Imagem recolhida em Som África.
Zico é um cantor ligeiro, por ora basto popular. Como não lhe entendo as letras recuso-me a categorizá-lo de modo absoluto. Mas do que sobre elas me dizem e do que lhe (por vezes) ouço parece-me que será possível intitular a sua corrente musical como afro-pimba – algo bem presente no mundo da videomúsica africana, sempre associável ao enfoque visual nos traseiros femininos, normalmente apresentados em redor de piscinas.
Zico lançou agora o “Nakudjula Hi Doggystyle” (um elogio da posição sexual “canzana”) que se segue ao sucesso tornado ícone “Maboazuda” (onde anunciava a sua disponibilidade para se relacionar sexualmente com todas as mulheres de aparência aprazível mesmo se fossem albinas – característica esta normalmente associada à exclusão por motivos impureza, fealdade ou monstruosidade, e que até recentes décadas podia induzir infanticídio). Decerto impregnado pelo sucesso que vem obtendo, porventura entusiasmando-se na campanha publicitária deste seu novo trabalho, e decerto ecoando a sua (algo ordinária) visão do mundo, colocou na internet um filme onde ele próprio surge em cópula – do que li parece que é trabalho pouco nítido, mas no qual ele e companhia são reconhecíveis.
Logo caiu o Pott e a Mesquita Velha. Jornais e blogs incendiados contra o homem, uma telefónica arrastada na onda e rompendo o contrato publicitário com o cantor. A polícia compelindo-o a prestar declarações na esquadra, nas quais – narram os jornais – o artista chorou, arrependido e assustado. A moral pública em risco reagiu e cumpriu-se a catarse, a humilhação pública. Faltará ainda, mas prevê-se, a penitência ao vivo – porventura em cima do palco com a TV presente.
Quando eu cheguei a Moçambique (1994) falava-se muito de corrupção – mas no sentido de corrupção sexual. O corrupto era quem se escapava aos ditâmes da monogamia conjugalizada. Contavam-se (e contam-se ainda) histórias de gente conhecida e próxima do poder, dele afastada ou por ele punida, devido a comportamentos sexuais “desviantes” (adultério, separação, reacasamentos, sexo pré-matrimonial) e mesmo afectivos não desejados (no quadro da militância as relações afectivas eram escrutinadas e decididas pelo poder – aqui este denotando a sua dimensão totalitária, presente nos diversos âmbitos do real). Um poder puritano – explicável nas suas origens sociológicas e ideológicas. Uma sociedade urbano-burguesa de discurso puritano – explicável nas suas origens religiosas e na sua constante plasticidade face ao poder político. Valores que se anunciavam presentes (mas, claro, não se cumpriam) no quotidiano dos estratos seguintes da sociedade urbana.
Hoje em dia é o mesmo espectro moralista que se levanta. A extensão semântica do termo “corrupção” arreiga-se de novo no discurso político de aparência analítica. A censura pública eleva-se a mecanismo de desenvolvimento, de pedagogia (optimista). O ovo da mamba estala com estes sons. Um dia Brecht ecoou Niemoller sobre algo que tem a ver com as redes de repressão e da sua aceitação. Eu não sou pornógrafo (nem o Zico, coitado, que será quanto muito um rapaz meio tonto) mas como posso aceitar que o queiram censurar? Vieram-no buscar porque se afixou na internet a copular (qual o problema? é um anúncio de prostituição, ilegal? não. Já alguém andou na internet a ver o que por lá se passa de business de sexo? e nas ruas?). Vieram-no buscar e não se diz nada, para não se ser poluído pelo tom ordinário do homem. Para não chocar a mui justa indignação da sociedade bem-pensante. Um dia vir-me-ão buscar, ou a outro qualquer, porque tenho uma qualquer fotografia de nu. Ou porque olho para o rabo da vizinha. E quem dirá algo? Onde está o limite à censura? À dominação da boa moral?
Há quanto tempo, quantas vezes, que à hora da família a televisão pública e as privadas concessionadas passam filmes onde se esquartejam, explodem, esfacelam (e outras criativas formas de descontrução) pessoas de diversas índoles (os maus, os bons, os civis, as vítimas, os polícias, os criminosos)? Há alguma semiologia política irada contra essa moral pública? Nada - na prática a questão da produção e da reprodução de valores surge quando se põe em causa o primado da “posição de missionário”, das “públicas virtudes”. É mais “natural”, donde mais “universal”, é menos “ofensor” donde menos “disruptor”, encenar e transmitir o rebentamento de cabeças com calibres elevados do que mostrar indivíduos a consumarem relações sexuais? (Ainda por cima consentidas?) E mais ainda, estes colocados em canais fechados – de acesso por decisão consciente - como o é a internet? O que é esta ira, esta semiologia, esta vertigem censória, senão o eco do mais reaccionário puritanismo sexual, impensando as práticas e os valores que criticam e defendem. Ou, ainda pior, pensando-os…
Já agora, as aldeias, vilas e cidades para lá do Alto Maé estão cheias de cinemas populares onde abundam o porno (e a guerra, já agora) cujo acesso é generalizado. Alguém semiologiza? Alguém vai para a esquadra com a imprensa abutresca atrás? Ou o “povo” está muito longe?
Francamente, só me resta, e sobre a minha já deprimida libido, cantar com o Zico: “”Nakudjula Hi Doggystyle“!! Os outros que o façam só “à missionário”.
Adenda: I Modi, consultável na internet – para que daqui saia algo elevado.

4 comments ↓
Convencionalmente quando alguém fala e agrada aos ouvintes, bate-se palmas, isso é muito notório nas banjas, lá nos meus régulos tendo continuidade na arena política, no meio urbano e mais. Falei muito.
Gostei do argumento, a final a rua do Araújo, 24 de Julho e Julius Nyerere, podem ser notificadas para julgamento. São por excelência espaços da prostituição. É risco afirmar para a tua namorada, que demorei de chegar aqui no Cinema, porque passei noutra rua aí no Araújo. A tua namorada vai conotar, HIV, prostituição e por consequência abandonar-te.
Embora eu, seja contra o Zicoismo ou atitude do Zico, question o ambiente social em que vivemos. O que Zico fez, é normal para a cidade de Maputo não só. Primeira minha vista de pronografia foi quando eu tinha 16 anos, nos cinemas populares lá nos bairros, onde exibiam ou exibem em as 23 horas com preço muito elevado, com excepção à crianças. Mas eu andava com pessoas grandes, a minha altura e vivacidade ameaçava ao cobrador de senhas da entrada, ele pensava que era adulto.
Aquele abraço
Obrigado pelo comentário. Um acrescento – o controle etário aos espectadores é coisa muito urbana … Nem em todo o lado é assim.
Abraço, até breve
[...] Música – “Posição de missionário” [...]
[...] a entrada “Posição de Missionário o André tem uma pergunta muito [...]
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