
Morreu o João Paulo. Foi-se o showman, o rasta bluesman, foi-se toda aquela atitude, suave como se imperscrutável, o rouco lento titubeando até ao palco e depois, quem diria? se não o conhecendo, a enchê-lo na voz cava, ela em tamborilar frenético. Foi-se o detachment aparente e o sor(riso) fundo no lá em cima.
Nós a deixarmos as noites correrem, num só mais um pouco, exagerando os copos, esperando-lhe as meias horas cantadas, vibrantes, também como se cínicas apesar de apaixonadas. Na paixão daquela fotogenia, na raiva do ritmo, a descortinar o que ali resistia, o tanto que se desmascarava. “Espessa é a noite”, espessa como a voz do homem, contorcida como a face do homem, sofrida como a angústia do homem. Espessa é a vida, assim mesmo. A pedir o lembrar disso, as luzes nessas noites assim alvoradas, os tons desse molde. A pedir mais um copo com o homem do voz cava e do sorriso selvagem…
João Paulo (jornal Notícias); João Paulo, no Mãos de Moçambique, João Paulo (fotos no Mãos de Moçambique). Fotografia retirada do Gil Vicente Café Bar
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pois, o João Paulo.
ia sempre ao Gil Vicente, mesmo para o ver a actuar e não só, sempre que podia, trocava umas palavras com ele. e claro, mandava-lhe sempre o ingénuo duplo que se manda ao bons amigos…não quero acreditar, que o meu duplo, somado aos outros, é que precipitou a ida do joão.
meu copo, foi um acto de veneração a um “monstro” que depois de percorrer o roteiro dos blues, voltava a casa cantando: “mina awuni?” eu, extasiado pelo wiskie de Tenesse respondia, awuni tendere, awuni tenderi…e voltava pra casa feliz da vida, mesmo sentimento que guardo hoje, no palco recóndito da minha memória.