Há pouco mais de um ano, quando se preparava a invasão do Iraque, o ministro dos negócios estrangeiros (?) francês, Villepin (?), apelou a um cuidado extremo com o destino dos fabulosos sítios arqueológicos e bens museológicos desse país.
Correu então as caixas de email um delicioso texto de Vasco Graça Moura, dedicado ao citado ministro. Entre outras coisas pedia-lhe a devolução dos bens pilhados em Portugal pelas tropas napoleónicas. O argumento não podia ser mais explícito, as preocupações do governo francês eram meramente políticas, o argumento cultural era instrumental (hipócrita).
Muito me ri com o texto, bilioso o q.b. diante da administração chiraquiana, absurdamente imperialista, absolutamente fora de prazo. Ri e divulguei.
Sabe-se o que aconteceu. Bárbaro, o comando militar americano não garantiu a segurança do Museu de Bagdad, assim criando objectivas condições para a sua pilhagem. Bárbaros pilharam o Museu. Bárbaros, alguns escribas portugueses afirmaram que tendo sido a pilhagem realizada por iraquianos isso significava não respeitarem eles a sua história. Porque haveriam outros de o fazer (confesso que li este argumento algumas vezes mas não me lembro de quem e onde)? Civilizado, o secretário da cultura (?, não estou certo do nome do cargo) da administração Bush, demitiu-se. Talvez ele próprio feroz “anti-americano” à luz desses escribas.
Depois o silêncio. Confesso que algumas vezes pensei o quão elevado teria sido se Vasco Graça Moura escrevesse de novo sobre o assunto. Ímpar homem de cultura, excelente poeta, apreciável prosador, grande divulgador de cultura, excelente administrador cultural, quem mais habilitado do que ele para “nuancear” argumentos (será que escreveu e tal se me escapou?)?
Depois do silêncio a negação. Lembro que há algum tempo li no Abrupto que a pilhagem do Museu tinha sido “contra-informação”. Espantei-me, mais do que duvidei, mas muito quis acreditar. Se encenação então o fundo museológico estaria a salvo.
Vã esperança que A Natureza do Mal se encarrega agora de matar, ao ecoar artigo do Público [elo temporário, daí que artigo copiado e posto em baixo].
Para além do lamento pelos prejuízos arqueológicos (quantos bens se terão danificado) fica ainda, e mais uma vez, a conclusão: o fundamentalismo é imbecil. O do outro lado. O do nosso lado. E o do meio. O de todos os lados.
Mas diante das memórias da história tal conclusão política é poeira. Daqui a cem anos, estupefactos diante das sobrevivências sumérias e de tudo o que se lhe seguiu, alguém se lembrará de nós?
Publico, 2.6.06
Irão e a Turquia insistem em não cooperar
Quinze mil antiguidades do Museu de Bagdad continuam desaparecidas
Mais de um ano depois do saque, quase 15 mil peças da colecção do Museu de Bagdad, Iraque, continuam desaparecidas. Países como o Irão e a Turquia insistem em não cooperar nos esforços de recuperação das antiguidades roubadas, disse ontem à AFP o director do museu, Donny George, à margem de uma conferência de dois dias que levou a Amã, capital da Jordânia, responsáveis pelas fronteiras e segurança de diversos Estados.
No encontro, em que estão ainda presentes agentes da Interpol e representantes dos Estados Unidos e de países europeus, Donny George aproveitou para sublinhar o esforço da Síria, Jordânia, Arábia Saudita e Kuwait, cujas autoridades recuperaram já centenas de peças traficadas. “Sabemos com certeza que há antiguidades iraquianas a passar pela Turquia e pelo Irão, mas nunca recebemos notícias desses países”.
O director-geral do departamento de antiguidades da Jordânia, Fawwaz Khraysha, garantiu que 1046 peças roubadas no Iraque estão já nas suas mãos à espera que os responsáveis iraquianos as reclamem. Segundo o director do museu de Bagdad, a Síria recuperou 200 artefactos e o Kuwait 35. “A Arábia Saudita informou-nos que tinha alguns objectos mas não sabemos quantos”, disse. “Mas 15 mil peças do museu estão ainda desaparecidas”. Entre elas encontram-se a estátua de um rei sumério (cerca de 2400 a.C.) e uma peça em marfim e ouro com pedras preciosas que representa uma leoa a atacar um núbio (720 a.C.).
Muitos outros artefactos terão desaparecido dos milhares de sítios arqueológicos espalhados pelo país, onde os saques continuam “impunemente”.
No Iraque há “cerca de 100 mil sítios arqueológicos, dos quais apenas 10 mil estão registados, daí a impossibilidade de proteger todos”, explicou um alto responsável da Interpol, Karl Heinz Kind. “O maior problema actualmente são as pilhagens contínuas de sítios arqueológicos e a destruição da história de uma civilização inteira.”
O Museu de Bagdad, considerado o quinto mais importante do mundo, foi saqueado a 12 de Abril de 2003, quando a capital iraquiana estava já “controlada” pelos EUA. Algumas das suas peças mais divulgadas, como o Tesouro de Nimrud - um magnífico conjunto de jóias que data de 900 a.C., considerada uma das maiores descobertas arqueológicas do século passado -, a cabeça (na foto) e o vaso de Warka (3200-3000 a.C.) estão a salvo. O museu está neste momento em remodelação.

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