Na Drenagem

No caminho para o aeroporto, na Drenagem, do banco de trás ela pergunta-me se quero algo dos Estados Unidos. Blasé digo-lhe que nada, certo que poderia pedir uma garrafa de bourbon mas isso compra-se em qualquer sítio e em sendo assim “que posso eu querer da América!?”. Ela sorri e fulmina-me “um ipod!”, até vai trazer um para a amiga agora ao volante . Vacilo mas resisto, “um ipod? Eu nem nunca vi um, sei lá o que isso é…”. Lesta, chega-se à frente para o entre nós e puxa do seu, um cartãozinho roxo, aparente minudência, e como estamos parados na (longa) fila do semáforo começa a mostrar-nos os tais 8 giga, o dedo a girar as 6 mil músicas ["Ben Harper, nem nunca ouvi", insisto-me, "já ouviste, já!", não quer ela crer"], não sei quantas fotos e filmes, uma vida no bolso.

Estamos nisso, até embevecidos, e de súbito um braço cruza-me, vindo pela janela para lhe arrancar o brinquedo-alma. Vacilo, incompreendendo, olho com vagares vendo o ladrão escapar-se por uma estreitíssima ruela. Depois, muito tempo depois, expludo e saio a correr atrás dele, para um sprint sinuoso num espaço em que julgo não caber, o homem, t-shirt vermelha berrante, afinal lento, parece-me. Na concentração da corrida exclamo apenas dois ou três “ladrão, filho da puta!!” que farão algumas crianças e mulheres olharem-nos dos seus pequenos pátios, as suas surpresas em breve notarei . De súbito, e estou a falar de uns labirínticos cem metros, uma bifurcação, ensaio uma ensaio outra, e nada se vê, tal o emaranhado das vielas. Estanco, resmungo mais uns palavrões. E, cruzando os espantos ali vizinhos, regresso ao carro.

Nele, a mais velha ao volante tem no olhar a censura à minha inconsciência de por ali ter entrado – que faria eu se o tivesse apanhado?, penso ao vê-la – e desculpo-me, qual menino, “o gajo é que se arrisca ao pneu“. A mais nova, sorridente, resume: “Bem, afinal tenho que trazer dois ipods! Ou três?”, provoca ainda. Desisto, “traz-me lá essa merda …”.

Avançamos. Elas falando, talvez esconjurando. Eu, calado, ensimesmado, sei que é estúpido, mas vou esmagado com a minha impotência, o meu falhanço. Uma hora depois, talvez um pouco mais, hei-de sorrir. Ao meu ridículo.

2 comments ↓

#1 catarina campos on 09.27.08 at 1:30


Há uns dez ou mais anos, no Rio de Janeiro, já era arriscado e eu andava com “o dinheiro para o ladrão no saco. Um dia, sentada na areia, alguém me pergunta as horas e vejo pelo canto do olho, desaparecer o saco (com as chaves das cinquenta portas e portões da casa emprestada para aquelas férias, dono ausente em Portugal). Nem vi mais nada. Taco de pia branquela a correr pela praia, numa gritaria parecida com a tua mas em versão mais colorida e vernacular ainda, três tipos enormes lá à frente em passo apressado com o saco na mão. Param, eu ainda esbaforida aos gritos, DÁ-ME A MERDA DO SACO, GANDA CABRÃO! estendem-me o saco que “a dona deixou aqui perdido”. Agradeço e volto para trás a pensar, sou doida sou doida sou doida.
Um gajo nessas alturas nem pensa, explode e depois é o que acontecer.

#2 catarina campos on 09.27.08 at 1:31


[depois mete lá um post sobre o ipod, a ver se vale a pena...]

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