"O que é que eu vou dizer a estes tipos"?

O Site Meter, instalado há três meses e pico, e o qual dizem algo falho, marcou hoje 10 000 visitas. O contador interno Webalizer que é mais gentil (e certeiro nas palavras do patrão) dá para o mesmo período 36 000. Ontem anunciou o maior número de entradas diárias que tenha eu reparado, 730, e a maior média diária mensal, 500.

Quando em Março o Ma-schamba desmatou no weblog julgo que tinha cerca de 60 visitas diárias. A dimensão de uma aula, achava eu. Agora tende para a multidão, ainda que multidãozita comparada com os super-blogs.

É agradável, claro. Mas também quebra-cabeças. Tanta gente a chegar que eu me dou, até angustiado, a pensar “que raio vou hoje dizer a estes tipos?”.

Assim a esquecer-me que isto é apenas um diário. Narcísico, claro, como qualquer blog. Mesmo os de agenda. Mesmo os anónimos.

É que hoje não tenho nada a dizer. Nada sobre Moçambique, nenhuma crónica. Nada sobre a exploração de África, nenhuma crítica ideológica. Nada sobre o meu país, nenhuma ideia sobre santana, lisboa, a alma penada e ameaçadora de guterres.

É um diário. Ontem não vi nada, não li nada, fui beber um café com amigos, comprei uns livritos porque o Horácio me arrastou até lá. A miúda está com prisão de ventre - e isso é o mais importante. Na escola a educadora dela mudou. Há-de habituar-se à nova, mas é uma pena, adorava a Margaret.

Faço 40 anos na sexta. Devo estar em crise, senão sou insensível. A Inês diz que sim, estou insuportável. Eu não me acho pior do que o habitual, o que não a contradiz. A mulher do Mário diz que aquando dele andou impossível, “sem paciência para ele próprio”. Reconheço-me, mas não só agora.

Se faço 40 devia fazer um rescaldo. Mas não me apetece, não tenho de quê. De manhã fui levar a miúda à escola, agora fui buscá-la. Daqui a bocado mecânico, mudar amortecedores no carro da Inês. Tenho que ir à Matola.

Se faço 40 devia reflectir. Sobre a sua importância. Ou não. Uma abordagem à abstracção do calendário. [ainda ontem, e por causa de uns problemas alheios, “Moraes, que idade tem o seu filho? Hum…18, 19, mais ou menos” para logo depois “Luísa, que idade tem o seu irmão? 32, parece”]. Devia abordar esta mania, dita matriz, que nos faz pensar a vida como um caminho, balizado por números (a pedirem rescaldos, ou melhor balancetes). Um caminho que é um projecto. Como se fosse isso natural. Mas não é, nem natural, nem projecto, nem caminho. Temos que comprar roupa para a Carolina, cresce rápido, as meias estão esgaçadas (é assim que se diz?). O Tomané vai-se (outra vez) embora de vez, quem é que convidamos para jantar junto? Onde se compram ameixas secas para a miúda, dizem que são boas para a prisão de ventre?

Se faço 40 devo perguntar ou afirmar “se tem valido a pena”. Rijo, “só lamento o que não fiz, etc”. Mas tenho que arranjar uma casa em Inhambane, uns diazitos na próxima semana, a ver se sim. E ir a Neilspruit buscar umas mobílias encomendadas, quem é que vai emprestar um camião? E falta tempo para tudo isso, uma chatice.

“O que é que eu vou dizer a estes tipos?”.

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