Revisão da Matéria Dada

“… essa mitologia cultural europeia, com a sublimação da Grécia e a subalternização de Roma, resultando da complexa relação de nossos sucessivos presentes - o nosso também -, com um passado sempre outro na luz desses presentes, tem a sua lógica. Acrescente-se que essa sublimação do helénico em detrimento do latino - já presente na própria cultura romana - faz parte de um combate de outra ordem que a meramente cultural, que tem como objecto, explícito ou implícito, a imagem e o papel do cristianismo na história da civilização europeia. À latinidade ficará associada a catolicidade, na sua versão historicamente justa de romana. (…)

Quando, no século XIX, o germanismo se começa a impor, como discurso filosófico, filológico e cultural, surge então, como reflexo de área cultural em perigo - como hoje com a América - a ideia de defesa de latinidade e mesmo de uma romântica União Latina, sonho de poetas (Mistral) mais do que de historiadores e políticos. Essa ideia nebulosa não vai além da sua expressão folclórica, exalta a latinidade dos povos latinos, na Europa ou fora dela, como herdeiros e exemplo de um modo de ser, de certo modo de uma visão do mundo, de um gai savoir que, embora sem relação profunda com a visão de Nietzsche, reenvia para um certo paganismo provençal um culto das realidades solares e naturais que vale bem e mais do que o culto nórdico do progresso científico, em sua, do que se chamava então e ainda hoje “o materialismo” ou, na sua forma soft, o pragmatismo.”

(Eduardo Lourenço, “Digressão Sobre a Latinidade“, A Morte de Colombo. Metamorfose e Fim do Ocidente Como Mito, Lisboa, Gradiva, 2005, pp. 138-140)

2 comments ↓

#1 Vítor Sousa on 11.28.06 at 12:07

Caro JPT, enquanto esquadrinhava a sua ma-schamba - e, se me permitir, também nossa -, cruzei-me com estas citaçãoes de Lourenço. Não resisti, por isso, à sedução do comentário, sugerindo-lhe a leitura de “A Queda de Roma e o fim da civilização”. O prisma escudado pelo autor constitui uma dissidência com a polida tese - quiçá solidificada desde os primórdios da actual UE -, segundo a qual as invasões bárbaras não acarretaram um retrocesso civilizacional, antes uma “transformação”. Com acutilância, e munindo-se de amparos abundantes, o autor demonstra que a civilização “refinada” tributária dos romanos se “barbarizou”. O contrário terá ocorrido, como defendia Lucien Febvre, em “O Mito de Europa”. Com a barbarização dos romanos, os bárbaros romanizaram-se?
Um abraço.

#2 jpt on 11.30.06 at 9:54

Pois folgo em sabê-lo ainda por cá. E agradeço o desafio, hei-de procurar e ver. Quanto ao assunto eu, leigo, sou muito pela mescla.

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