O Acordo Ortográfico e o V Império

1. Nada mais a dizer, ratificado o Acordo Ortográfico. Não vem mal nenhum ao mundo. Será que nos lembraremos daqui a 7 anos (por hipótese) de perguntar se as empresas livreiras portuguesas ganharam substancialmente com isso? Se a expansão do português nos organismos multilaterais se notou, também substancialmente? Se as articulações entre PA/ELOP* se potenciaram? Ninguém o perguntará – mas mesmo que tal aconteça nunca haverá critérios para aferir da influência do Acordo. Pois as potencialidades deste Acordo são uma formulação infalsificável.

2. Entre os defensores do Acordo já aqui referi, respeitosamente, Fernando Cristovão. Honestamente, como contestar quem tão mais competência tem na matéria? Algumas dúvidas de leigo, em princípio. Que até regressam ao ler-lhe que “a maior desgraça da língua portuguesa é ter mais do que uma ortografia…”.

Pior ainda quando dele leio “Fazemos parte de uma comunidade em que tudo deve ser comum”. Porquê? Qual o estatuto da língua para afirmar a obrigatoriedade (natural? ontológica? filosófica? política?) de uma total comunidade entre os seus falantes? Sejam eles falantes exclusivos de português ou manipulando-a como segunda ou língua oficial, a questão coloca-se na mesma, mas sublinha-se na dimensão político-estatal da partilha linguística. Que sacralização, não-científica, da partilha da língua (oficial) é esta? Como a ouvimos? Como a respeitamos? Como esquecer a ausência de leitura e de reflexão que tal formulação denota?

Ainda que desentendendo os fundamentos deste naturalização (ética?) da comunidade linguística, pergunto-me: deve esta comunidade total de língua oficial suplantar outras comunidades que os países (dos falantes) partilhem? Nos quais há várias línguas internacionalizadas (comuns) e várias pertenças a comunidades políticas de Estados-nação.

Entenda-se, esta comunidade total que Fernando Cristovão exige deve assentar na partilha “lusófona”, ser assim exclusiva? Ou articular-se-á com outras comunidades linguísticas existentes (o tal primado da língua) e/ou com outras comunidades político-linguísticas (idem).

Parece óbvio que neste último caso, inclusivo, a tal obrigatoriedade de partilha total entre os falantes de português alastra-se às outras comunidades político-linguísticas existentes, no fundo um belo mundo de partilha radical, uma bela mas não original utopia. Na prática uma formulação vácua. E que estou certo de que não correspondente ao pensamento do ilustre pensador.

Pois estou absolutamente certo de que “Fazemos parte de uma comunidade em que tudo deve ser comum” surge no registo exclusivo, da afirmação de um dever ser comunal entre os países falantes de português. Sem ousar nem usar explicar onde radica a supremacia dessa partilha de uma língua oficial sobre outras comunhões linguísticas para afirmar uma comunidade total exclusiva. Muito mais sem referir os critérios que afirmem a supremacia (natural? filosófica?) da língua cimento da tal comunidade.

Pois o cimento de tal comunidade assenta apenas na recuperação lusófona de uma comunidade constituída historicamente, efeito e projecto de uma continuidade imperial. Formulação aparentemente no reduto da linguística mas apenas radicada numa leitura política da história, de um seu alisamento para utilização actual e futura. Uma indigência intelectual? Sim. Denunciável? Apenas porque inibidora de uma verdadeira potenciação (há quem lhe chame empoderamento) da utilização futura do português e do reforço de interacções entre os seus falantes (individuais e institucionais).

Ou será apenas radical incompreensão, uma incapacidade de entender os alçapões do próprio discurso? Vergonhosa quando passa a discurso público de alguém tão graduado? Não quero acreditar. Prefiro não acreditar. Prefiro, por mero respeito intelectual, crer no exercício da função de intelectual orgânico. Lamentando, é certo, o ridículo de um aparelhismo serôdio. Porque anacrónico. E de o ver tão espalhado no meu país.

No fundo leio Fernando Cristovão e fico a “lamentar muito a ignorância, e às vezes um bocadinho de má-fé que andou por aí a confundir” política com ciência.

*Desde a brincadeira “multicultural” do mirandês que Portugal passou a ser um país europeu de língua oficial portuguesa.

3 comments ↓

#1 peciscas on 07.24.08 at 19:40


Embora, de facto, não venha nenhum mal ao mundo, duvido da eficácia e oportunidade deste ( e sublinho deste) Acordo.
Uma outra forma, porvrntura menos radical e mais consensual, teria cumprido melhor os propósitos de acompanhar a natural evolução que uma língua deve ter.
Mas, concordo, que, no fundo, em toda esta polémica, se confundiu quase sempre política com ciência.

#2 Hermenauta on 07.25.08 at 16:56


Talvez a verdadeira questão não seja política vs ciência, mas qual ciência se quer usar.

Tratados e tratados de gramática ou mesmo linguística não darão conta do fato de que o mais importante aí é a questão econômica. Línguas funcionam em regime de externalidade positiva _ quanto mais falantes se entendem através de uma língua, maior o valor da língua para cada falante (acho que isso resolve, JPT, a questão da “obrigatoriedade de uma total comunidade entre os falantes”). Pensemos no inglês, por exemplo, onde existe um “Formal written English” que unifica a expressão escrita da alta cultura daquela língua (e surpreendentemente sem um “governing body”, embora eu tenha a impressão de que os dicionários e o magistério cumpram essa função, e tenha ouvido falar que na comunidade científica o controle é muito mais centralizado).

De resto, se você tem dúvidas sobre uma “identidade” lusófona, mais curiosa ainda é a “identidade” européia a que você se apega no último parágrafo. Há certamente muitas explicações para a existência da União Européia, mas eu realmente acredito que a “identidade cultural” seja a menor delas.

Bom conhecer seu blog, infelizmente não costumo frequentar tantos blogs lusófonos não-brasileiros quanto gostaria. Abçs.

#3 jpt on 07.25.08 at 17:40


Claro que a questão crucial é a económica. Mas em Portugal também formas “modernas” de ressuscitar um lusocentrismo (fintando, claro) através de um remodelação bilateral da língua. Nada me move contra uma reforma da língua (sorrio ao silêncio face às dinâmicas do português nos países africanos – silêncio que decalca uma velha relação), mas move-me muito contra o bilateralismo da questão (o que nada se liga a algo contra o Brasil, como me parece óbvio). E ainda mais me move contra o capeamento dessa dimensão económica (e política) com um discurso “moral” que nada mais é do que o luso-tropicalismo ressuscitado

Não entendo quando me refere a cristalização da “identidade europeia” construção simpática, que um dia talvez venha a ser feita. o último parágrafo apenas explicita a sigla utilizada PA/ELOP (onde antes se dizia países africanos de lingua oficial portuguesa, porque naõ passá-la para países africanos/asiáticos/americanos e europeu de língua oficial portuguesa? – pois portugal passou a ser um país de língua oficial portuguesa quando uns divertidos decidiram atribuir estatuto à lingua mirandesa – aliás os cerca de 10 000 falantes lá da fronteira até já têm a tradução do “Asterix o Gaulês” mas não sei se continuaram a colecção. Como vê a questão é um bocado diferente.

cumprimentos, volte sempre

Leave a Comment