Miscelânea: o reino dos ensaios e o Portugal de direita

Encontro académico em Maputo sobre a língua portuguesa, em Moçambique e no mundo. Boas comunicações, participação elevada, alunos e conferencistas de várias universidades - um sucesso a creditar aos organizadores. Súbito um intelectual renomado levanta-se e diz algo como “isto é como o que aconteceu com os Lusitanos: foram colonizados pelos romanos e depois decidiram (sic) escolher o latim como sua língua porque esta era mais válida (ou capaz, não recordo). Hoje, aqui, o processo é o mesmo“. O público riu-se, apreciando esta analogia histórica. Que é, como se diz agora, uma inverdade. Uma total manipulação histórica com intuitos políticos (não apenas um piadismo fácil) - nem a analogia do Império Romano funciona, nem o conceito de “colonialismo” aproveitado aos diferentes fenómenos históricos se adequa, nem, fundamentalmente, há qualquer evidência histórica dos processos decisórios de uma qualquer entidade política lusitânica na apropriação de uma língua externa. Em suma, é um dito errado, conscientemente errado. As analogias históricas podem-se utilizar para ilustrar, para induzir conhecimento e/ou reflexão - ou então para, como é o caso, obscurecer. O que me surpreendeu no momento é que o regime oficial patrocine este tipo de registo intelectual.

Surpreendeu-me pois a II República portuguesa é contemporânea do desenvolvimento das suas ciências sociais - a historiografia, a sociologia, a antropologia, etc., tiveram um enorme desenvolvimento. E como tal que ela própria continue, por via oficial, a aceitar e a divulgar este tipo de discurso “ensaístico”, desprovido de fundamentação e investigação. As generalizações, em boa forma literária por vezes, do “eu acho que”. A opinão que dá jeito, quantas vezes. Mas que nem sequer tem, nos dias de hoje, os frutos ideológicos que em outros tempos adquiria - a concorrência na produção intelectual é maior e os produtos bem mais apurados.

Mas depois, em casa, dessurpreendo-me. Lembro o meu Portugal que torna uma conversa de café como “Portugal. O Medo de Existir” de José Gil como um must de análise profunda (filosófica, chamaram-lhe), que agita o apreço pelo ensaio desgarrado (e anacrónico - leia-se “Monstros” de José Gil, um comparativismo selvagem a la XIX, que faz corar de  vergonha um comprador minimamente informado). Lembro a direita portuguesa, tradicionalmente adversa às ditas ciências (vê-se no bloguismo, e de modo lamentável, até doloroso: o trauliteirismo ignaro de tantos grão-bloguistas seria absolutamente pavoroso se pior não fosse o facto de serem tão blogolidos) continua enlameada com o anti-intelectualismo (elitista, “os cultos somos nós, da classe certa”, ou seja um mero “nós” bempensante) ainda actual e com a ignorância salazarista (”socio” cheirava a “socialista” daí que houvesse que impedir o desenvolvimento de qualquer coisa que se lhe parecesse).

E deixo-me a concluir, é este ensaísmo militante, o conversar in-justificado, o livre-arbítrio da opinião (por vezes a soldo, outras não) que ainda satisfaz. Para alguns podendo parecer, como foi o caso, desvalorizado diante da “concorrência” presente. Mas nunca esquecendo que o recurso à retórica populista ganha visibilidade, apaga efeitos da reflexão alheia.

Deito-me a blogar, a ver como vai o país. E lá está - tantos falam (há um cinzentismo no bloguismo português, uma enorme franja a reboque dos jornais - tique que se estende ao moçambicano, diga-se, aqui a querer-se substituir aos jornais, mas por diversas razões) do caso da “aluna e da professora”. E tantos “ensaiam”, explicam “sociologicamente” o acontecido sem mais do que os impropérios das opiniões próprias. Concluo nisso de tanto do bloguismo opinativo português (tal como o ilustre intelectual aqui comitivo) ser fruto do mesmo Portugal. Da direita trauliteira, anti-científica. Mesmo que se pense dela tão longe.

5 comments ↓

#1 Lowlander on 03.28.08 at 16:10

Muito bem. Muito semelhante aquilo que eu penso sobre o debate publico portugues (nao so nos blogues, a discussao bloguistica e um reflexo da discussao publica portuguesa) ha uma gritante e desesperante ausencia de conheciemento cientifico sobre os temas em debate, uma aversao a ciencia. Para mim isto e gravissimo quando cada vez mais se observa que a ciencia rodeia e modela o nosso quotidiano.
Alias os blogues cientificos portugueses, assim que comecam a ter um pouco mais de notoriedade sao imediatamente infestados por trolls (naturalmente ja que tem audiencia) trolls com discurso claramente anti-cientifico (o que nada tem de natural) e mais grave ainda, sao atacados por outros blogues com discursos claramente anti-cientificos.

#2 Lowlander on 03.28.08 at 16:14

Ja agora caro JPT, e como sou parte deste mundo tambem tenho um “acho que” inadequadamente fundamentado.
“Eu acho que” esta aversao a ciencia resulta de um sistema de ensino universitario que produz demasiados formados em humanidades e “ciencias moles” e poucoa gente formada em ciencia exactas ou “duras”.
Qual e a sua analise critica?

#3 hmbf on 03.28.08 at 18:32

«Lembro o meu Portugal que torna uma conversa de café como “Portugal. O Medo de Existir” de José Gil como um must de análise profunda (filosófica, chamaram-lhe)…»

Excepções (quiçá para confirmar a regra):

http://antologiadoesquecimento.blogspot.com/2007/09/intervalo-n3.html

http://antologiadoesquecimento.blogspot.com/2005/05/o-gil-e-o-co.html

Quanto à ciência, também ela é execrável ao tornar-se presunçosa. O que para aí não falta é especialista disto e daquilo que só diz disparates, muitos deles fundamentados em estudos rigorosíssimos. Aliás, essa é já uma discussão da própria ciência.

#4 jpt on 03.30.08 at 6:32

hmbf, claro que não posso (nem quero) afirmar a universalidade do acolhimento aos textos de José Gil. Mas concordará comigo (e concordo, basta ver os textos) na generalidade pacóvia com que aquilo foi recebido.
A presunção asneirística da ciência existe com toda a certeza. Espero que não se depreenda do post um cientismo fundamentalista - apenas gostaria de realçar a possibilidade de algum compromisso com o “real” (construído) e de evasão de um sacrossanto ego intelectual/preconceituoso. É mais ou menos a tal honestidade de objectividade mais ou menos mitigada que um tipo pode perseguir (e não me vou por aqui a encher a caixa de comentários com um “ensaio” sobre acesso ao real)
[a questão também daria para discutir a malfadada expressão “excepção que confirma a regra” - pois na prática infirma-a, não é?]
ah, eu lembrava-me que V. tinha resmungado contra o Gil

#5 jpt on 03.30.08 at 6:39

Lowlander “eu acho que” não. Sem excessos pós-modernos posso-me interrogar sobre a distinção entre “mole” e “dura”. Mas acima de tudo não conheço os números dos formados nas últimas décadas - presumo que uma pesquisa no google me daria resultados, confesso - e, mais ainda, nunca li nada que interrogasse por esse prisma as causas da resmunguice contra as ciências sociais. Interessa-me mais, nesse âmbito, entender qual a razão pela qual esse tipo de plumitivos (teclativos, hoje) não se irritam contra ciências para eles “duras” como a geografia, o direito ou, ainda mais, a economia. “Eu acho que” acima de tudo se trata dos resquiícios anti-sociológicos do salazarismo (em alguns casos conscientes e militantes) e do obscurantismo que mistura o valor da liberdade humana (livre-arbítrio) com o dogma da incompreensão do social. Aliás, um passeio pelo bloguismo (por alguma intelectualidade portuguesa) já me deu para afirmar por aí: “a sociedade não existe”. Repito, são obscurantistas, um velho termo bem apropriado para quem crê na presença real do feitiço

Leave a Comment