Ciática. Primeira noite de insónia. De nem dormir nem ler. A desoras na RTP-Internacional assisto ao diferido do Prós e Contras sobre o Acordo Ortográfico. O assunto pouco me diz pois por demais técnico para não repetir eu, total leigo, meros lugares comuns assentes em preconceitos. Só me parece que o estafado argumento dos seus defensores, o do dinamismo plural da língua, esconde a vontade normativa: a de que o novo acordo a venha a fixar, sossegar. Desconfiança minha … E, já agora, também me parece que se tal é a dinâmica um acordo velho de vinte anos, do tempo do Toninho Cerezzo, talvez já tenha passado de prazo.
Sobre o programa algumas coisas, para mim denotativas do conteúdo destas discussões:
1. Uma obsessiva e esparvoada tendência para discutir exemplos de como se dirão as palavras após a amputação de letras (eu acho óptimo, e digo-o, que se diga óPtimo com P maíusculo, mas se era para ficar a noite toda a discutir isso então não era precisa a reunião de ilustres intelectuais, a rapaziada no café entre a imperial e os tremoços resolvemos a questão).
2. Um exemplo máximo de arrogância mal-criada: Carlos Reis – que por vezes vem a Moçambique – virando-se para um outro professor universitário, que lhe explicava algo de linguística tão simples que até antropólogo percebe (em palavras simples, que não é inata a superior facilidade da aprendizagem de um “f” sobre um “ph”), e como tal não lhe cabe no argumento disparando-lhe que não lhe reconhece capacidades pedagógicas dado que não o convencera. Eu, logo ali, fico adversário dos argumentos do distinto “Professor” (como gosta de ser tratado ainda que entre pares) Carlos Reis e da Dama que defende. Uma ordinarice que me resolveu a dificuldade da opção: logo passo ao “Delenda Acordo Ortográfico est“, baseando-me nesta profunda reflexão teórica. Apenas lamento que o outro (falta-me o nome) não tenha tido o discernimento de o mandar a alguma parte. Arrogante de merda …
3. O trá-lá-lá entusiasta dos “representantes” da “África de expressão portuguesa”, Inocência Mata e João Melo. Foi preciso que Vasco Graça Moura (que não será exactamente um “africanista” ou um “africanófilo”) lhes lembrasse a inexistência de uma reflexão normativa sobre a interacção entre línguas africanas e o português, coisa que nem lembravam nas suas excitadas intervenções em prol de um qualquer pluralismo. João Melo diz (e sorridente!!!) “nós ainda não as decidimos“:
a. Então está à espera de quê?;
b. Alto lá, mas são eles (esse “nós” de João Melo) os donos da língua? São eles que vão nesses casos impor as regras à língua comum? Aqui o argumento da comum propriedade (e, portanto, da partilha normativa) não se coloca? Afinal não são só os malandros dos portugueses (os colonos) que querem mandar na língua?
Indigência total.
4. A grandiloquência de Vasco Graça Moura (“maior atentado à cultura e história portuguesa” tirar umas consoantes avulsas? até da minha ciática duvidei …) e o flanar entre-poetisas de Maria Alzira Seixo, assim completamente incapazes de culminar um raciocínio. Lá o termino eu, em linguagem de café: tirar consoantes “mudas” emudece as vogais antecedentes. Num sotaque urbano português (pois se emudece é na fala e não na leitura, algo que até parece estranho entre tanto perito em literatura escrita a falar do assunto) que tende para o emudecimento omnívoro das vogais e para a amputação das extremidades das palavras isso tenderá, possivelmente, para a incompreensão auditiva entre os falantes de diferentes sotaques e, fundamentalmente, para a crescente incompreensão outra diante dos portugueses.
Aqui puxo dos meus [pequenos] galões (ainda que não induza ninguém a chamar-me “professor” ou “doutor” nem costume achincalhar colegas em público): sendo um tipo burguês, ainda por cima lisboeta, que lecciona em Moçambique sei bem das dificuldades com que me entendem o cântico (e não é por causa dos duplos “cc” que vou escrevendo). E após uma década já vou com isto do sotaque um bocado mudado, mais aberto, é ver os colegas que chegam de Portugal e o desespero auditivo (donde intelectual) dos alunos para os compreender.
5. Diverti-me imenso com a ideia de que se deve escrever como se fala (e mais os exemplos dos doutos ou laureados intervenientes). Lembrei-me do meu pai António, portuense (acontece nas melhores famílias) ao longo da vida a resmungar com o meu sotaque. Confesso que, para vergonha dele e até minha, digo “Coâlho” e escrevo “Coelho” e tantas outras. Fico livre?! Nunca mais o meu pai me chateará, legitimamente, sobre os meus “dezóitos” e afins. A rapaziada nem sabe o que a espera …
6. Um ilustríssimo amigo telefou-me, perdão, tefonou-me hoje a rir-se das preocupações ortográficas lá na minha terra. Mas acima de tudo a lamentar o ter-lhe sido impossível assistir ontem ao lançamento do “Caetano e o Ocaso do “Império”. Administração e Guerra Colonial em Moçambique Durante o Marcelismo (1968-1974) da nossa amiga comum Amélia Souto. Perguntando ainda se eu atentara no modo como a imprensa escrita e televisiva se tinha referido ao livro. Como? “Caetano e o caso do “Império“, claro. Deu para uma boa gargalhada, ainda que em ciática. Mas não ríamos dos jornalistas. Era mesmo dos “Professores”.
7. Finalmente, é engraçado ver como tantos costumeiros adversários da globalização (a pobre esquerda a-crítica, aqui “luso-tropical”) surgem agora seus defensores. Paladinos, até.
Depois da arenga vou-me dedicar ao estudo: sintaxe. A ver se ainda vou a algum programa de televisão. Sobre normas e línguas …
Adenda: sobre esta matéria excelente artigo de Rui Ramos: “O nosso império é a língua portuguesa”, demonstrando como as aparências (pluralizadoras) tanto enganam, e o não menos esclarecido texto de Nuno Pacheco: “A língua, o acordo e uma falsa unidade ditada pela política”. Ambos transcritos no De Rerum Natura.
Outra Adenda: No mesmo blog dois textos que vêm as coisas de modo diferente – adversários do Acordo Ortográfico consideram que a escrita não deve ser regrada (chamam-lhe “legislada”): este e este. Para além de não compreender, meu defeito decerto (lá perguntei mas não me responderam, infelizmente), qual a especificidade deste fenómeno social institucional, especificidade que o exima à regulação que todos os outros similares apresentam, o simples facto de estar aqui a escrever e alguém me ler permite entender o vácuo da argumentação – mas as comemorações de Maio de 68 vêm aí, e entende-se o “espírito de geração”.

13 comments ↓
Gostei da tua insónia … ( mas isto arrelia mesmo! …)
Se a questão é política para quê falar do “c” e “p” e etc??
Não percebo!
A questão é mesmo o que ganha PORTUGAL em CEDER ao Brasil que, por sua vez, IMPÔS estas mudanças? Qual a LEGITIMIDADE POLÍTICA do Brasil (em termos da sua HEGEMONIA Internacional) para Exigir ACATO de PORTUGAL ao que lhe parece conveniente convencionar? Pelo representante do SIM ao Acordo ( Carlos Reis) verificamos que não existia SERIEDADE Linguística ( exemplificado em directo na RTP! P.Ex.: Como é que um Açoriano tem a desfaçatez de dizer que é para aproximar a grafia da fala! Para nos facilitar a vida!! Ele está redondamente a brincar. Porque como Açoriano sabe perfeitamente que isso é uma Bizarria!!). Nós estamos somente e repito somente a aproximar a grafia PORTUGUESA da do Brasil! É só isso! Os “c” e “p” é mesmo só para nos distrair, fazer de conta que o assunto é sério! Foi Seriamente tratado! Quando pelo que assistimos na praça pública(!) país que se preze fá-lo (!) Não consultamos NENHUM FILÓSOFO! … Pois! É uma comunidade Invisível! mas não perguntem ao Barata Moura ( P.F.V). O que esta questão nos demonstrou também é que temos mais uma série de medíocres que se fazem passar por escritores e poetas … e n escrevo mais … vale
Obrigado pelo comentário. Algumas partes não percebo bem (a importância de ser açoriano; isso de chamar ou não um filósofo) onde quer chegar. Outras não concordo: o lamento pela imposição brasileira, o ai-ai da nossa soberania). Outras não me interessam: o propalar da mediocridade de grupos de actividade. Sabe?, está tudo bem para além disso
Um Açoriano sabe bem ( dia-a-dia) que o modo como fala esta um bocadinho distante do modo com escreve!
Os Filósofos pensam ( supostamente …) coisa que o Carlos Reis não sabe o que é e muita gente por aí tb. É um clássico, em Portugal, a ausência dos Filósofos, em Espanha seria diferente ( só pra se ver a diferença … leia p. ex. a Vitoria Camps) … O VGMoura já está a fazer esse papel … mas até o mais inteligente abisma-se entre o pensar e o burrificar-se e opta – como ninguém vai preso – por este último e atiranos a palermice da soberania, do complexo da soberania e pior: a delirante hegemonia numérica dos brasileiros …
TEM MAIS INSÓNIAS e que melhorem as ciáticas vale!
Olá, Flávio
Hoje caiu aqui uma chuvada digna de qualquer trópico, nada semelhante ao tempo costumeiro desta costa atlântica. A dizer-nos que, em tudo, encontramos diversidades, complementaridades…e ouvem-se os “sábios” (porque andam cá há muito tempo) dizerem, que está tudo a mudar. Ora parece que escrever também vai ser diferente.
…E tão interessante que é a diversidade oral de uma mesma língua. Porque não fazer disso o nosso principal traço? Nosso e de todos os outros, entenda-se. Tanto desejo de uniformizar o que não é uniformizável: modos de estar e ser que transparecem nos modos de falar e escrever.
Curiosamente passam a estar de parabéns aqueles que ainda não perceberam que a língua (também) é um processo de construção… Enfim, nós, e os nossos filhos, deixaremos de cometer tantos erros de ortografia, passaremos a infligir outros: Tudo em nome de uma uniformidade dos modos de escrever português. Os nossos ilustres representantes assim o desejam. Em nome de quê? Ainda não me convenceram.
Bjs
gostei da parte entre imperiais e tremoços.
certamenter chegaríamos a um acordo melhor.
abçs
D PT MDR – já percebido, obrigado. Concordo no que refere dos exageros de VGM mas não o reduzo dessa forma, é pessoa de muitos méritos. Como os outros participantes no programa – ainda que ali muito fraquinho.
Quanto à discussão do Acordo – estou longe e fui surpreendido por este ressuscitar da questão: mais exactamente aquando da visita de CAvaco Silva a Moçambique. Alguns dos acompanhantes traziam essa preocupação (C. Reis aflorou-a numa conferência que deu, outros conversaram sobre ela). Agora não sei, mas lembro-me que na altura do seu desenhar (como digo, no tempo de Falção, Zico, Cerezzo e Socrates) bastante se discutiu. Mas não posso ser juiz da qualidade da discussão – foi há tanto tempo, andava eu a pensar em bem mais importantes coisas.
E obrigado pelos desejos de melhoras da maldita ciática. Partilho-os
Filho, temos aqui uma questaõ: será chopo, choupo ou imperial?
Antonina, é muito bom encontrar-te aqui (o Acordo é do tempo em que estudávamos juntos – ontem, não é assim?). Eu não sou contra um Acordo Ortográfico nacinoal ou internacional – mas parece-me que este não é mais do que um desejo de alavanca de outra coisa qualquer. Tonto desejo, diga-se. Espero que andes por aqui mais vezes, vai dizendo. Beijos
[...] Coloquei mais uma adenda ao Leigas Considerações sobre o Acordo Ortográfico. [...]
[...] é convenção que em nada interfere com o uso da língua“. Assim sendo mata as minhas leigas considerações aqui deixadas. Sou leigo, repito. A formulação do Professor Fernando Cristovão surpreende-me e [...]
[...] Vasco Graça Moura: “Babel e Outras Confusões” explicita o que toscamente tentei argumentar no Leigas Considerações Sobre o Acordo Ortográfico. [...]
[...] Cristovão. Honestamente, como contestar quem tão mais competência tem na matéria? Algumas dúvidas de leigo, em princípio. Que até regressam ao ler-lhe que “a maior desgraça da língua [...]
[...] se trata de ser fundamentalista. É apenas dizer que estão a mexer na fala, que “tirar consoantes “mudas” emudece as vogais antecedentes. Num sotaque urbano português qu… E, claro, de todos esses que afirmam a independência radical entre a grafia e a fala, que [...]
eu sou contra. pork não faz sentido. e mai nada.
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