Há Mais Bicicletas

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Lançamento hoje no Centro de Estudos Brasileiros, às 17 horas, deste “Há Mais Bicicletas – mas há mais desenvolvimento?”, de Joseph Hanlon e Teresa Smart, editado pela Missanga.

Livro a exigir regresso quando concluir a sua leitura - após os três primeiros capítulos fica-me a ambivalência diante dele: por um lado a oportunidade do  seu questionamento, será que o crescimento macroeconómico do país se está a reflectir no efectivo desenvolvimento nacional (não, é a resposta)? Será justificado (produtivo) o actual ênfase da Ajuda Internacional no investimento na esfera social (saúde, educação) em detrimento da esfera económica, directamente produtiva (não, é a resposta)? É o Mercado suficiente para o desenvolvimento ou o Estado tem que intervir na Economia (tem, é a resposta anunciada)?

Mas por um outro lado fica o desconforto com a argumentação. Desde a eterna repetição da herança do colonialismo grosseiro português, tese do marxismo anglófono de 60s (teleologia, sublinhando a supremacia do colonialismo desenvolvimentista britânico por um lado, mera repetição do Marx sobre a colonização da Índia em XIX, por outro. E incapaz de suportar as comparações nos percursos nacionais subsequentes), à redução da guerra civil a causas externas, bem como menores exemplos panfletários - a explicação do êxodo português devido à propaganda colonial surge, como se ritualmente. Tudo isto podem ser detalhes na obra, longe do cerne do seu tema, mas desconfortam na leitura do argumento, fazem desconfiar dos alicerces. Será livro de jornalista, não se lhe exigem cuidados de rigor (ou seja, não se esperam), mas o jargão ideológico deslustra.

Finalmente – e, repito, vou na página 71 – a tese da Grande Dívida do ocidente ex-colono transpira uma profunda desvalorização do contexto em causa. É obviamente demagógico, confusionista em português moçambicano, afirmar:

Pode parecer  muito dinheiro [11 biliões (jpt: milhares de milhões, mais exactamente) de dólares, a Ajuda Internacional concedida a Moçambique desde 1992, nas contas dos autores], mas os países doadores dispendem por dia com um cão tanto como dispendem com um Moçambicano numa semana. Os gastos com animais de estimação em 2006 foi de 36,6 biliões de US$ nos Estados Unidos e 7,5 biliões de US$ no Reino Unido. Isto dá cerca de 350 US$ por animal e por ano, mais ou menos 7 vezes a ajuda utilizável por moçambicano por ano.” (p. 37) Não me parece necessário discutir o sinuoso do raciocínio económico (e político) aqui presente. Mas transparece as armadilhas do aparente progressismo, de raiz missionária. Não é uma formulação destas a radical “petização” (de “pet”, não de “petiz”, nem de “petiz”) dos moçambicanos?

Mas não só, tamanha confusão entre Estado (agente doador) e “sociedade”/”famílias”/”indivíduos” (alimentadores de cães) implica uma outra coisa, letal para a argumentação: a incapacidade de destrinçar entre sociedade e Estado. Não é mera demagocia, não é mero deslize, não é mero “coitadismo”. É o eco da crença da unipolaridade estatal, da Razão. E da redução do social a esse Centro. E aqui sim, questão maior, questionando o raciocínio sobre o desenvolvimento de uma sociedade, projecto do livro.

Enfim, a continuar até ao fim. Pois se a infraestrutura ideológica é muito complicada tal não obriga a que os resultados não sejam interessantes.

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