Caetano e o Ocaso do Império, de Amélia Souto

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4 Responses to “Caetano e o Ocaso do Império, de Amélia Souto”

  1. fc diz:

    Infelizmente cheguei tarde. Arrastavam-se já as cadeiras, comentava-se cá fora. E ao chegar a casa apeteceu-me recuperar um texto do Jorge de Sena. (desculpa lá, ó jpt, a extensão do comentário).

    “Os poetas publicam-se todavia.”

    Os poetas se publicam todavia. Chegam-
    -me os livros de alguns, doutros não. Mas nem tudo
    o que recebo leio inteiramente. E às vezes
    vou lendo com cuidado uns outros que não chegam.
    Não posso humanamente, dia a dia, ler
    a toda a gente em Portugal: não tenho
    já quase sequer tempo para ir lendo o que
    se lê para ensinar a gente distraída
    o Portugal de outrora, o que houve ou vai havendo.
    Sempre temi, de resto, o tão comum
    português jeito de não ler senão
    as obras dos amigos ou de quem nos busca
    num gesto – que é tão grato – de respeito
    pelo que o termos sido represente. Mas
    – tão estranho que pareça – ainda os poetas
    se escrevem, se publicam. E neste instante
    é disso que medito me escrevendo.
    Que somos todos? Que se pensam eles?
    Como é possível continuar-se poeta
    sem que por mais que um hábito perdido
    daquele tempo em treva de que fomos luz
    inerme e pobre, mas que iluminámos,
    se bem que alguns da treva não soubessem,
    ou outros se pensassem mais que luz faróis
    daquela madrugada clara tão sonhada,
    que o sonho se faz noite, ou faz hipocrisia,
    ante um real clamor em que não sonhos restam,
    mas um estrondear de luzes que se chocam
    em gritos e pavores num espaço sem poesia?
    Não é que o desabar de máscaras decrépitas
    nos faça João-Sem-Terra: todos bem sabíamos
    não ser a nossa terra em que vivíamos
    (em corpo ou espírito, tanto faz, é o mesmo).
    Mas é que alguns de nós – e os outros sem pensá-lo
    já que poetas se enganam, a poesia não –
    neste amor-ódio a um Portugal tão triste-
    mente, amargamente, secular mentira
    que era preciso desfazer inteira,
    nunca pensámos (ou sequer deixámos
    que tal suspeita em nós fosse visão)
    que um povo quase inteiro se odiasse tanto
    na frustação de não saber o que era,
    e ao descobrir-se a sê-lo. Que esse povo
    tamanhamente odiasse o ter antigos mortos
    dispersos pelo mundo. Que esse povo odiasse
    a própria terra e o pó dos seus maiores.
    Ou que esse povo apenas desejasse
    guardar o seu quintal, roubar o do vizinho,
    ou menos refazer um Portugal de sempre
    que dividi-lo em postas de pessoal vantagem,
    com a mesma avidez sôfregacom que
    tentou fortuna noutras terras ou
    defendeu à sachola o seu caneiro de águas.
    Nunca outra vida, outro país lhe deram.
    Mas porque digo povo? O povo não tem culpa.
    Quando estalou a liberdade um dia
    que eu já pensava não viria nunca,
    deram-lhe só paixões desencadeadas,
    deram-lhe lutas de politicagem
    deram-lhe só receitas de revolução
    deram-lhe chefes e chefões tentando
    (ah como sempre em moscambilhas surdas)
    menos fzer a terra da justiça
    do que jogar no povo o jogo dos seus jogos.
    Honestamente muitos, há que crê-lo.
    Mas como sempre sucedera antes
    traíram todos de maneira ou de outra
    a radiosa aurora que os lançara à frente
    (e nas sombras da esquina uns outros se preparam
    para trair bem mais). O que fizeram
    de mais terrível foi ter dito ao povo
    que eles eram o povo antes que do povo
    (a não ser muito poucos) viesse quem
    fosse em verdade o povo em toda a parte.
    E mais: quem escrevia e quem falava não
    soube ou não quis subir-se além do ódio
    a quanto fosse o Portugal que somos,
    como se houvesse de que ter vergonha
    de havermos sido o que existiu por séculos.
    Por muito tempo o clebrar das glórias
    (que o povo nem sabia) nos encheu de náusea.
    E de mais náusea ainda quando isso servia
    não para defender restos do império
    mas para proteger quem os comia.
    Mas o que pensa e escreve deveria
    saber ou ensinar que a falsidade estava
    em isso ser usado mas não nisso.
    E ao povo dizer quanto fora sua a História
    que sempre só de heróis e aristocratas
    imperialmente se cantou.Voltar
    às antigas fronteiras, sim, mas tendo-as
    não como os muros de um egoísmo sórdido,
    e sim como uma casa aberta a todos
    que se quisessem portugueses ou
    forçados foram pelas forças que
    regem o mundo a decidir que o eram
    porque nem tempo ou escolha lhes foi dada
    para ficarem brancos onde o negro morre
    de nem saber que liberdade seja.
    E os poetas publicam-se, e não choram,
    como deviam, que em Portugal se faça
    odiando-se e negando-se a si mesmo.
    Ou nem saem gritando que nos cumpre
    abraçar os novos povos libertados
    (e já de abraços se gastou demais
    num cómico ridículo de falar mais neles
    do que no Portugal que é que nos resta),
    mas sempre de cabeça levantada e pura,
    sem um bater no peito em contrições
    que muito são cheirosas de outros tempos beatos.
    Se pelas Áficas se derrubam estátuas
    dos Gamas e Albuquerques e outra tropa igual
    (e um dia virá em que esses povos todos
    voltarão a repô-las no saber que a História
    de séculos antigos não foi só conquistas,
    quando se ouvirem cantando noutras línguas
    as canções populares do velho Portugal),
    a nós cumpre silêncio, entendimento amargo:
    jamais subscrever, o que no mundo inteiro
    raivosa inveja em séculos existe
    de Portugal ter sido quem, para bem ou mal
    (César foi mau, ou Alexandre o foi?),
    transformou de uma vez a face inteira
    do globo em que vivemos. Isso nunca:
    fazer de novo um Portugal inteiro,
    mas tendo em nós, por nosso, o Portugal
    que a heróis, trabalhadores, ou simples viajantes,
    roubado sempre foi no Terreiro do Paço.
    As pátrias velhas não se inventam: vivem-se
    – e temos mais razões de respeitar Jerónimos,
    Batalhas, e castelos pelo mundo adiante
    em ruínas comoventes da Amazónia à China,
    do que os soviéticos possuem quando
    – e sabiamente – conservam por tesouros
    palácios imperiais de czares bandidos
    que nunca em povo russo se apoiaram.
    A única vergonha é não amar a pátria,
    e não dizer ao povo o quanto amá-la importa
    para que um povo seja a pátria que se adora
    no conhecer do mal e no saber que nunca
    um rei construiu castelos cujas pedras não
    fossem sagradas pelas mãos do povo
    que as pôs de pé, defendendo a fronteira do país
    ou marcando a presença portuguesa
    pelos cantos do mundo, em toda a parte
    onde gente da nossa cometia crimes
    mas deixava também a marca dos seus passos
    ou do seu sexo pronto a toda a raça.
    Chatins, ladrões e miseráveis fomos
    – mas fomos também grandes. Sê-lo-emos
    ainda outra vez, na casa lusitana,
    se orgulho de possuí-la não for mesquinhez
    de tê-la como umbigo do universo
    em piolhos concentrado entre Melgaço e Vila
    Real de Santo António. E que ninguém
    venha cuspir-nos, muito menos nós.
    E que poetas escrevam disto tudo,
    mergulhando no fundo de si mesmos
    (lá onde encontrarão sombras de séculos
    como as de um povo que resiste a tudo),
    e erguendo a fonte altiva em frente ao mundo,
    urgentemente, sem pensar em mais
    que dizer que somos e queremos ser.

    Jorge de Sena (1976)

  2. [...] terra. Mas acima de tudo a lamentar o ter-lhe sido impossível ter estado ontem no lançamento do “Caetano e o Ocaso do “Império”. Administração e Guerra Colonial em Moçambique… da nossa amiga comum Amélia Souto. Perguntando ainda se eu atentara no modo como a imprensa [...]

  3. jpt diz:

    obrigado fc. Isto sobe a post, claro.

  4. [...] para além do futebol, diz-me o tal leitor do ma-schamba “então o sena que eu te meti no blog? Está [...]

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