Caetano e o Ocaso do Império, de Amélia Souto

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4 comments ↓

#1 fc on 04.17.08 at 13:31


Infelizmente cheguei tarde. Arrastavam-se já as cadeiras, comentava-se cá fora. E ao chegar a casa apeteceu-me recuperar um texto do Jorge de Sena. (desculpa lá, ó jpt, a extensão do comentário).

“Os poetas publicam-se todavia.”

Os poetas se publicam todavia. Chegam-
-me os livros de alguns, doutros não. Mas nem tudo
o que recebo leio inteiramente. E às vezes
vou lendo com cuidado uns outros que não chegam.
Não posso humanamente, dia a dia, ler
a toda a gente em Portugal: não tenho
já quase sequer tempo para ir lendo o que
se lê para ensinar a gente distraída
o Portugal de outrora, o que houve ou vai havendo.
Sempre temi, de resto, o tão comum
português jeito de não ler senão
as obras dos amigos ou de quem nos busca
num gesto – que é tão grato – de respeito
pelo que o termos sido represente. Mas
– tão estranho que pareça – ainda os poetas
se escrevem, se publicam. E neste instante
é disso que medito me escrevendo.
Que somos todos? Que se pensam eles?
Como é possível continuar-se poeta
sem que por mais que um hábito perdido
daquele tempo em treva de que fomos luz
inerme e pobre, mas que iluminámos,
se bem que alguns da treva não soubessem,
ou outros se pensassem mais que luz faróis
daquela madrugada clara tão sonhada,
que o sonho se faz noite, ou faz hipocrisia,
ante um real clamor em que não sonhos restam,
mas um estrondear de luzes que se chocam
em gritos e pavores num espaço sem poesia?
Não é que o desabar de máscaras decrépitas
nos faça João-Sem-Terra: todos bem sabíamos
não ser a nossa terra em que vivíamos
(em corpo ou espírito, tanto faz, é o mesmo).
Mas é que alguns de nós – e os outros sem pensá-lo
já que poetas se enganam, a poesia não –
neste amor-ódio a um Portugal tão triste-
mente, amargamente, secular mentira
que era preciso desfazer inteira,
nunca pensámos (ou sequer deixámos
que tal suspeita em nós fosse visão)
que um povo quase inteiro se odiasse tanto
na frustação de não saber o que era,
e ao descobrir-se a sê-lo. Que esse povo
tamanhamente odiasse o ter antigos mortos
dispersos pelo mundo. Que esse povo odiasse
a própria terra e o pó dos seus maiores.
Ou que esse povo apenas desejasse
guardar o seu quintal, roubar o do vizinho,
ou menos refazer um Portugal de sempre
que dividi-lo em postas de pessoal vantagem,
com a mesma avidez sôfregacom que
tentou fortuna noutras terras ou
defendeu à sachola o seu caneiro de águas.
Nunca outra vida, outro país lhe deram.
Mas porque digo povo? O povo não tem culpa.
Quando estalou a liberdade um dia
que eu já pensava não viria nunca,
deram-lhe só paixões desencadeadas,
deram-lhe lutas de politicagem
deram-lhe só receitas de revolução
deram-lhe chefes e chefões tentando
(ah como sempre em moscambilhas surdas)
menos fzer a terra da justiça
do que jogar no povo o jogo dos seus jogos.
Honestamente muitos, há que crê-lo.
Mas como sempre sucedera antes
traíram todos de maneira ou de outra
a radiosa aurora que os lançara à frente
(e nas sombras da esquina uns outros se preparam
para trair bem mais). O que fizeram
de mais terrível foi ter dito ao povo
que eles eram o povo antes que do povo
(a não ser muito poucos) viesse quem
fosse em verdade o povo em toda a parte.
E mais: quem escrevia e quem falava não
soube ou não quis subir-se além do ódio
a quanto fosse o Portugal que somos,
como se houvesse de que ter vergonha
de havermos sido o que existiu por séculos.
Por muito tempo o clebrar das glórias
(que o povo nem sabia) nos encheu de náusea.
E de mais náusea ainda quando isso servia
não para defender restos do império
mas para proteger quem os comia.
Mas o que pensa e escreve deveria
saber ou ensinar que a falsidade estava
em isso ser usado mas não nisso.
E ao povo dizer quanto fora sua a História
que sempre só de heróis e aristocratas
imperialmente se cantou.Voltar
às antigas fronteiras, sim, mas tendo-as
não como os muros de um egoísmo sórdido,
e sim como uma casa aberta a todos
que se quisessem portugueses ou
forçados foram pelas forças que
regem o mundo a decidir que o eram
porque nem tempo ou escolha lhes foi dada
para ficarem brancos onde o negro morre
de nem saber que liberdade seja.
E os poetas publicam-se, e não choram,
como deviam, que em Portugal se faça
odiando-se e negando-se a si mesmo.
Ou nem saem gritando que nos cumpre
abraçar os novos povos libertados
(e já de abraços se gastou demais
num cómico ridículo de falar mais neles
do que no Portugal que é que nos resta),
mas sempre de cabeça levantada e pura,
sem um bater no peito em contrições
que muito são cheirosas de outros tempos beatos.
Se pelas Áficas se derrubam estátuas
dos Gamas e Albuquerques e outra tropa igual
(e um dia virá em que esses povos todos
voltarão a repô-las no saber que a História
de séculos antigos não foi só conquistas,
quando se ouvirem cantando noutras línguas
as canções populares do velho Portugal),
a nós cumpre silêncio, entendimento amargo:
jamais subscrever, o que no mundo inteiro
raivosa inveja em séculos existe
de Portugal ter sido quem, para bem ou mal
(César foi mau, ou Alexandre o foi?),
transformou de uma vez a face inteira
do globo em que vivemos. Isso nunca:
fazer de novo um Portugal inteiro,
mas tendo em nós, por nosso, o Portugal
que a heróis, trabalhadores, ou simples viajantes,
roubado sempre foi no Terreiro do Paço.
As pátrias velhas não se inventam: vivem-se
– e temos mais razões de respeitar Jerónimos,
Batalhas, e castelos pelo mundo adiante
em ruínas comoventes da Amazónia à China,
do que os soviéticos possuem quando
– e sabiamente – conservam por tesouros
palácios imperiais de czares bandidos
que nunca em povo russo se apoiaram.
A única vergonha é não amar a pátria,
e não dizer ao povo o quanto amá-la importa
para que um povo seja a pátria que se adora
no conhecer do mal e no saber que nunca
um rei construiu castelos cujas pedras não
fossem sagradas pelas mãos do povo
que as pôs de pé, defendendo a fronteira do país
ou marcando a presença portuguesa
pelos cantos do mundo, em toda a parte
onde gente da nossa cometia crimes
mas deixava também a marca dos seus passos
ou do seu sexo pronto a toda a raça.
Chatins, ladrões e miseráveis fomos
– mas fomos também grandes. Sê-lo-emos
ainda outra vez, na casa lusitana,
se orgulho de possuí-la não for mesquinhez
de tê-la como umbigo do universo
em piolhos concentrado entre Melgaço e Vila
Real de Santo António. E que ninguém
venha cuspir-nos, muito menos nós.
E que poetas escrevam disto tudo,
mergulhando no fundo de si mesmos
(lá onde encontrarão sombras de séculos
como as de um povo que resiste a tudo),
e erguendo a fonte altiva em frente ao mundo,
urgentemente, sem pensar em mais
que dizer que somos e queremos ser.

Jorge de Sena (1976)

#2 Leigas considerações sobre o Acordo Ortográfico | ma-schamba on 04.18.08 at 3:39


[...] terra. Mas acima de tudo a lamentar o ter-lhe sido impossível ter estado ontem no lançamento do “Caetano e o Ocaso do “Império”. Administração e Guerra Colonial em Moçambique… da nossa amiga comum Amélia Souto. Perguntando ainda se eu atentara no modo como a imprensa [...]

#3 jpt on 04.18.08 at 12:29


obrigado fc. Isto sobe a post, claro.

#4 Jorge de Sena, Os poetas publicam-se … | ma-schamba on 06.20.08 at 9:30


[...] para além do futebol, diz-me o tal leitor do ma-schamba “então o sena que eu te meti no blog? Está [...]

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