36 livros em Moçambique nos 36 anos de Moçambique, a propósito do questionário livresco que por aí anda
Anda por blogo-aí um inquérito sobre leituras, daquelas correntes convivenciais tipo “passa ao outro e não ao mesmo“. Como a mim ninguém me liga, calimerizo, respondo por iniciativa própria. Moçambique faz 36 anos esta semana e por isso ficam (também) os meus (36) livros preferidos sobre Moçambique, (d)aqueles com os quais fiz o meu Moçambique.
1 – Existe um livro que leste e releste várias vezes?
“As Duas Sombras do Rio”, de João Paulo Borges Coelho.
2 – Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
Só cá em casa tenho estantes desses. Um? “Moçambique“, de António Enes.
3 – Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Nunca faria tal coisa. Se estivesse moribundo ia morrer.
4 – Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
“A Sociedade Chope“, de David Webster (ainda).
5- Que livro leste cuja ‘cena final’ jamais conseguiste esquecer?
De sempre? “O Jogador“, de Dostoievski. Aqui?
“Nada nos é belo se for demasiadamente claro. Nada interessará.
Portanto, arrumo, aqui, as ferramentas deste trabalho, desta paixão que tenho pelas visões que encerro, pelo motor que as leva à minuciosa observação dos espaços. E ainda assim sinto que me pesa tanto inconhecimento, tanta denotada fragilidade. Eu nada sabia desta remota possibilidade, deste lírico fervor que guardo pela imaginação. Gostaria imenso de falar-me disto, destas alegrias pacientes de que sou um exímio fazedor. Como sucedo que olho para o que a pensar direi melhor.
Vou fechar a janela amarela que tenho virada para Oriente. Vou restabelecer outro milagre de sonhar.“
(Eduardo White, Janela Para Oriente)
6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Sim. Aventuras. [A pergunta está mal escrita ... o que lia? então segue-se:].
Questão: o que é ser criança? Emílio Salgari (preferia o “Corsário Negro”), Edgar Pierre Jacobs (Blake & Mortimore), Karl May, Condessa de Ségur, Julio Verne, Enid Blyton (mais “As Aventuras dos Cinco”), Uderzo e Goscinny (Asterix), Herge (Tintin), Jacques Martin (Alix), Jean Graton (Michel Vaillant), Major Alvega, revistas Tintin semanal, Colecção Apache, Colecção Combate, colecção Condor, Morris (Lucky Luke), Henrique Galvão, Paul Féval, colecção Fauna (Verbo Editora).
Resposta: é ler até chegar a Thor Heyerdhal (“A Expedição Rá“).
7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
Já li muitos assim mas ponho o “O Advogado de Inhassunge“, de Luís Loforte. Pois não só o li como ainda tive que ouvir o sarcasmo do autor, invectivando a minha falta de interesse na sua obra.
8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Por razões da efeméride desta semana ficam 36 livros, os livros que fizeram o meu Moçambique:
- Anónimo, A Guerra dos Reis Vátuas …
- João Paulo Borges Coelho,As Duas Sombras do Rio
- João Paulo Borges Coelho, As Visitas do Dr. Valdez
- João Paulo Borges Coelho, Índicos Indícios I. Setentrião / Índicos Indícios II. Meridião (dois livros que são um, dividido por razões editoriais)
- Bernardo G. de Brito, O Naufrágio de Sepúlveda
- José Capela, Donas, Senhores e Escravos
- Júlio Carrilho, Luís Lage et al, Traditional Informal Settlements in Mozambique: from Lichinga to Maputo
- Rafael da Conceição, Entre o Mar e a Terra. Situações Identitárias no Norte de Moçambique
- José Craveirinha, Xigubo
- Teresa Cruz e Silva, Igrejas Protestantes e Consciência Política no Sul de Moçambique: o caso da Missão Suíça (1930-1974)
- Jorge Dias, Os Macondes de Moçambique (em particular a reedição do primeiro volume, 1999, com prefácio de Rui M. Pereira)
- Fernando Florêncio, Ao Encontro dos Mambos. Autoridades Tradicionais vaNdau e Estado em Moçambique
- Carlos Fortuna, O Fio da Meada : o algodão de Moçambique, Portugal e a economia-mundo, 1860-1960
- Christian Geffray, Nem Pai Nem Mãe. Crítica do Parentesco: o caso Macua
- Christian Geffray, A Causa das Armas. Antropologia da Guerra Contemporânea em Moçambique
- Patrick Harries, Work, Culture and Identity. Migrant Laborers in Mozambique and South Africa, c. 1860-1910
- Alcinda Honwana, Espíritos Vivos, Tradições Modernas. Possessão de Espíritos e Reintegração Social Pós-Guerra no Sul de Moçambique
- Luís Bernardo Honwana, Nós Matámos o Cão Tinhoso
- Allen Isaacman, Cotton is the Mother of Poverty. Peasants, Work, and Rural Struggle in Colonial Mozambique, 1938-1961
- Henri Junod, Usos e Costumes dos Bantu
- Ungulani Ba Ka Khossa, A Orgia dos Loucos
- Rui Knopfli, Mangas Verdes Com Sal
- Ana Loforte, Género e Poder Entre os Tsonga de Moçambique
- Eduardo Medeiros, História do Cabo Delgado e do Niassa (c. 1836-1929)
- A. J. Mello Machado, Entre os Macuas de Angoche
- José Negrão, Cem Anos de Economia da Família Rural Africana
- Diocleciano Fernandes das Neves, Das Terras do Império Vátua às Praças da República Boer
- Francisco Noa, Império, Mito e Miopia
- Eduardo Pitta, Persona
- Ricardo Rangel, Pão Nosso de Cada Noite
- Frei João dos Santos, Etiópia Oriental
- Nelson Saúte e António Sopa (orgs.), Ilha de Moçambique Pela Voz dos Poetas
- Nelson Saúte (org.), As Mãos dos Pretos. Antologia do Conto Moçambicano
- Nelson Saúte (org.), Nunca Mais é Sábado. Antologia de Poesia Moçambicana
- Nelson Saúte, Os Narradores da Sobrevivência
- Karl Weule, Resultados Científicos da Minha Viagem de Pesquisas Etnográficas no Sudeste da África Oriental
9. Que livro estás a ler neste momento?
Pouco daqui. Mas alguns a propósito daqui. “Mulheres de Atenas” de Ana Lúcia Curado, “A Fruição da Arte, Hoje” de Idalina Sardinha, “Judas, o Obscuro” de Thomas Hardy, “Sonetos” de Bocage, “Natural Symbols” de Mary Douglas, ” Camões e a Identidade Nacional” (colectânea de discursos de 10 de Junho de Vergílio Ferreira, Jorge de Sena, Fernando Namora, Vitorino Magalhães Godinho, David Mourão Ferreira, Eduardo Lourenço, Agustina Bessa-Luís, José Azeredo Perdigão), “Obras Completas II 1952-1974” de Jorge Luís Borges, “O Meu Cinzeiro Azul” de Henrique Fialho, “A Invenção das Ilhas” de Virgílio de Lemos.
10. Indica dez amigos para o Meme Literário:
Ana Leão, Fernando Florêncio, Miguel Vale de Figueiredo, Pedro Sá da Bandeira, Um Voo Cego a Nada, PembaAtoll, Mãos de Moçambique, On The Road Again, Chuinga, Raposas a Sul.
[ok, já posso ir acabar de arrumar as estantes]
Adenda: meter-me numa brincadeira destas de fazer uma lista dos livros que fizeram o meu Moçambique e não a encabeçar com o “Antropologia e Desenvolvimento. As Aldeias Comunais de Moçambique” de Adolfo Yañez Casal diz mais da minha desarrumação do que outra coisa qualquer. Fica então para a próxima lista, tipo “os 37 livros nos 73 anos” …
jpt





hummm….
dá-me uns dias… ando ‘esquerdo’ com o blogue…
não seja por isso … responde “à direita”
Eheh… Isto é para responder in-blog? Muito Índico, muito ocidental, o que será o mesmo que dizer muita África o mais oriental possível… isso inclui metade de Moçambique, só, acreditando que o resto é austral, astral de baixo, ou de cima do mundo de pernas pro ar. Responderei.
sim, in-blog. mas cada um mete o que quer …
Uff, é o que se chama de liberdade de expressão. Gramei
Com o devido agradecimento, já está,
Abraço,
IO
Obrigado IO [blogo-veterana em deriva facebookesca] E que me lembrou ter eu aqui, vergonhosamente, esquecido a Mafalda (a do Quino)
já tá. alarguei-me…
thanks
ok, agradeço, e desculpa qualquer coisinha … (tão out-blog que já nem deixas a ligação para lá?)
Estou a ler a Sociedade Chope e a gostar muito! Tenho no computador, se quiser passo-lhe
Obrigado, eu tenho o livro. Mas ainda não o lera quando respondi ao questionário.