
“Sailor e Lula estavam sentados a uma mesa do canto à janela do Café Forget-Me-Not, saboreando umas bebidas. Lula bebia um chá gelado com três cubos de açúcar e Sailor tinha um High Life, que bebia directamente da garrafa. Ambos encomendaram ostras fritas com salada de repolho e estavam a apreciar a paisagem. Havia uma lasca de lua e um céu cinzento escuro com pinceladas vermelhas e amarelas por sobre a escuridão do oceano que se espraiava como se estivesse de costas.
- Esta água faz-me lembrar a banheira do Buddy Favre - disse Sailor.
- O qu’é que estás a dizer? - perguntou Lula.
- O parceiro do meu pai na caça aos patos, Buddy Favre, costumava tomar banho todas as noites. O Buddy era um gajo atarracado com bigode e pera e uns olhos em bico que o faziam parecer o diabo, mas era um gajo porreiro. Era mecânico de camiões, trabalhava com maquinaria pesada, com camiões de dezoito rodas, e depois do trabalho ficava um nojo. Por isso, à noite, quando vinha p’ra casa, metia-se numa banheira cheia de “Twenty Mule Team Borax” e a água ficava um caldo cinzento e preto, tal como o oceano tá esta noite. O meu pai ia p’rá casa dele, sentava-se numa cadeira na casa de banho e beberricava I.W. Harper enquanto o Buddy tomava banho e às vezes levava-me com ele. O Buddy fumava erva todas as noites, enquanto tomava banho. Oferecia ao meu pai, mas ele amarrava-se no whisky.”
[Barry Gifford, Coração Selvagem, Quetzal, pp. 38-39 (tradução de Isabel Motta)]

0 comments ↓
There are no comments yet...Kick things off by filling out the form below.
Leave a Comment