Saramago

[Nota: Porfírio Silva, do Machina Speculatrix demonstrou nos comentários o seu desagrado pelo epíteto com que o descrevi. Tem toda a legitimidade para o fazer. Dou a mão à palmatória, ainda que insista que o meu propósito não era insultuoso do bloguista mas sim desqualificador do seu texto. Assim sendo alterei a entrada]

steiner-gramaticas

A mística judaica imagina que um segundo de distracção do escriba ao qual Deus ditou a Torah se traduziu pela omissão de um acento, de um signo diacrítico. Foi através desse erratum que o mal se infiltrou na criação. (…) Distraído por qualquer coisa de realmente importante, Deus “deixou cair do Seu bolso” um cosmos inacabado.” (49)

Job, o Edomita, não reclama justiça. Se tivesse sido judeu, tê-la-ia reclamado. Mas Job, o Edomita, reclama sentido. Exige de Deus que faça sentido (fazer sentido [make sense]): eis uma das fórmulas mais impensadamente problemáticas das gramáticas da criação). Exige que Deus Se torne compreensível. Recusando por completo a concepção agostiniana – “se o apreendes, não é Deus” – Job intima Deus a revelar-Se de outro modo que não o das aparências do absurdo e do insensato. Os horrores imerecidos que desabam sobre Job abrem uma dupla possibilidade: que o criador seja fraco – e o satânico poderá prevalecer – ou puerilmente volúvel e sádico. Como um homem que “matasse por prazer”. Que seja, como diz Karl Barth no seu comentário do Livro de Job, “um Deus sem Deus”. (…) Deus é então culpado de ter criado“. (55-56), etc., etc.

[George Steiner, Gramáticas da Criação, Relógio d'Água, 2001, tradução de Miguel Serras Pereira]

O mal-estar com deus não é novo, veja-se acima. O mal-estar com os homens de deus também não o é. José Saramago, num país onde os blogo-Blasfemos defendem o criacionismo diante do aplauso burguês, convém não o esquecer, e onde milhões continuam a acreditar na visão de Fátima, botou o seu mal-estar com os homens de deus. E, é esta apenas a minha opinião, o seu mal-estar com (o seu) deus, um deus crual e vingativo. Em termos felizes?

Talvez não muito, dando o flanco a imputações de leitura pouco profunda da Bíblia. Pois o velho escritor (talvez já na idade e na situação de olhar deus) arranca agora umas declarações “chocantes”: A Bíblia (e o Corão) não é [são] de inspiração divina, disse. Coisa com que qualquer letrado deveria poder concordar. Invectiva também contra o deus castigador – aí reduzindo mas não falsificando. E alude (corrosivo, irado?) aos “maus costumes” vertidos na Bíblia – a mim choca-me a imagem dos “maus costumes”, o que é o Mal?, mas acima de tudo o que são os males?

[Tenho com a obra de Saramago uma relação há muito estabelecida. Não é a minha prosa (nesse registo o A Saga/Fuga de JB de Ballester encheu-me) nem é o meu mundo. Aos vinte anos li - e muito gostei - o Levantado do Chão. Antes lera, e gostara, o Memorial do Convento. Logo, logo, li o Ano da Morte de Ricardo Reis - que me terá sido um dos mais importantes livros da vida, foi a última leitura não-profissional que me forcei a levar até ao fim. Tinha vinte e um anos e ainda me lembro de o terminar: "nunca mais faço isto", exclamei, e desde então se não estou a gostar largo o livro. E assim fui fazendo, e também com vários dos seus livros. Depois, em 1998, li-lhe o Todos os Nomes, recebera ele o Nobel e por razões profissionais achei que lhe devia ler a obra. Nada gostei, lembro a sensação de estar diante de uma amálgama dos mundos de Borges e Kafka em registo longo e cansativo. São as vantagens do leigo, lê e pensa consoante o que lhe vem à cabeça.

Tenho do homem Saramago um conhecimento diferente. Cruzei-o em Maputo duas vezes. Deparei-me com uma cultura atroz (rais parta o homem), uma sageza ágil traduzida numa perspicácia fantástica, daquelas do "chegar, ver e entender", uma capacidade de improviso oral espantosa. E curvei-me diante da gentileza que comigo teve - e bem precisado estava eu, no meio dos lusobárbaros à solta. Não é por isso que lhe vou ler os livros, ainda comprei (em sessão de lançamento aqui, com direito a autógrafo final) o A Caverna, mas não terminei, cansado. Separo, como sempre, o homem dos seus livros, das coisas que faz.]

Mas não posso deixar de me espantar com o efeito Saramago. Em Portugal é um chorrilho. Cai o carmo e a trindade. O deputado Mário David, eurodeputado do PSD, propõe que o homem deixe de ser português pois ofende o povo – o que é isto, o ostracismo porque o homem diz que o deus nosso-senhor ensinado às crianças é castigador, porque lhe nega a omnisciência e restante omnipotência? A que miséria intelectual está condenado um dos partidos básicos do regime português, a que baixeza está condenada Portugal? Por todo lado abundam as críticas ao perverso escritor, ao medíocre escritor – imerecido Nobel. Dá para tudo: invectivam a ignorância com que põe em causa a grandiosidade literária da Bíblia (lendo as notas noticiosas bem que procuro saber como o fez, mas não o encontro: e até o mais arguto dos bloguistas carrega contra o gigantesco moínho de vento) – já agora gostaria de saber quais dos utentes deste argumento arrumam a sua Bíblia nas estantes no seio da literatura (letra B; secção vários; autor Deus, etc) … Na área do bloguismo político socialista (um bocado a despropósito, acho eu) aproveita-se para lembrar que Durão Barroso foi do MRPP em 1975 (mas nunca se refere que Mário Lino foi um abjecto controleiro estalinista dos comunistas portugueses destacados para Moçambique, não sei porquê, ou talvez porque as histórias são vergonhosas e “jamais” convirá lembrá-las). Os mais exaltados camaradas truncam-lhe os argumentos, feitos meras bandeiras ao deus-dará.

Ninguém se lembra que dos escritores o que interessa são os livros? Olho para trás, Oscar Wilde devia ser uma bicha insuportável, Shakespeare um tiranete lá no teatro, Tolstoi um chato do caralho. Lowry um bêbedo de fugir, Céline um nazi filhodaputa. É disso que falamos ou lemos-lhes, deliciados, os livros?

Vã política, vã jornalice, vã bloguice. Vã-glória de opinar.

jpt


  • Share/Bookmark

No related posts.

20 Responses to “Saramago”

  1. Gostei muito deste texto e o que dizes faz todo o sentido. Partilho por inteiro: a liberdade de opinião acima de tudo e quem, na Assembleia, lança pedras a Saramago (cujos livros também me cansam, nunca tendo lido sequer um até ao fim), faz pura demagogia para apanhar a onda da indignação do momento, esquecendo o princípio básico da separação do Estado e da Igreja ou simplesmente que em democracia há liberdade religiosa e de opinião. Sou insuspeita, porque não sou nem ateia nem agnóstica, mas irrita-me sumamente a falta de respeito pela liberdade opinativa.

  2. ABM diz:

    Caros exmos

    Há aqui dois diálogos:

    1. O de o que o JS escreve nos seus livros e artigos
    2. Os sound bites do JS na televisão, daqueles de 30 segundos, como os do Alberto João Jardim.

    No episódio saramaguiano mais recente do “Deus não existe”, sabe-se o que ele disse no sound bite televisivo (eu vi e ouvi) mas não o que ele diz no livro pois acabou de ser lançado e logo ninguém o tinha lido.

    Que JS diga que a Bíblia foi escrita por homens e que diz muita coisa horrorosa e injusta etc (nem me lembro bem do que ele referiu mas era deste tipo) é para o lado que durmo melhor. Para um leigo médio e até para um crente fervoroso, o seu texto é praticamente ininteligível (hum, a palavra existe?), indescrutável, impossível de interpretar, ao contrário do Corão, que é muito mais pão, pão, queijo queijo (versão do pão e queijo de há 1200 anos, isto é). Pouca gente se recorda que durante quase 1500 anos a Bíblia só podia ser lida por membros do clero católico e no original em latim. Por azar da alfabetização, da democratização, dos liberalismos e do Sr. Guttenberg, que estava interessado em ganhar umas massas rapidinho, hoje qualquer gato assanhado pode ter uma, na sua língua e sabor preferido. Mas mesmo que não queira, vá ao motel mais próximo de si e abra a gaveta e -voilá – cortesia dos Gideões – está lá uma. Aprendi com a minha mãe – uma fervente católica até ter o azar de começar a prestar atenção ao que eu dizia – que uma Bíblia como a própria fé – é algo para se ter, não para se ler.

    Que o JS diga que a Igreja Católica Romana tem um longo, penoso e trágico registo, também não deixa de ser verdade. Basta olhar para a história de Portugal e há episódios que nem nos filmes de terror. Os intelectuais portugueses quando tiveram a chance trucidaram o catolicismo português, leia-se Antero e Queiroz. A I República foi uma selvajaria anti-clerical. À chapada, Salazar pôs todos na ordem.

    Sobre Saramago a minha opinião é tingida por dois testemunhos próximos e que pré-dataram o chiquerrismo associado ao seu Nobel: o do pai ABM, que o achava um mero, reles comunista mal humorado e embirrento que destilava a sua bílis mediante a sua profícua (e por vezes até boa, só pra chatear) prosa; e o de um conhecido jornalista amigo, que viu o que ele disse e fez quando foi, não se sabe por que carga de água, director do Diário de Notícias por volta dos tempos do PREC, até que é corrido de lá com o 25 de Novembro de 1975. “Foi um pulha e um ditador” foi a descrição que ouvi.

    Não sei o que dizer. Talvez JS fique irritado pelo relativo imobilismo, rigidez doutrinária e regimen hierárquico da Igreja Católica – o que acho estranho pois essa é precisamente a melhor descrição dos regimes comunistas.

    Mas a questão é mesmo homem no “pedestal” Nobel. É isso que amplia os papos saramaguianos e tão hipersensibiliza as massas culturais e politizadas do luso rectângulo e adjacências.

    Pois o homem tem estatuto – internacional, ainda por cima – e independência quase total. É por um lado considerado por exclusão de partes um símbolo português de excelência cultural, mas tem algumas ideias que no mínimo viram o estômago ao cidadão médio e obviamente ao Vaticano e os seus adeptos intra-fronteiras.

    E para azar dos poderes profundos constituídos, ao contrário da vidente Lúcia, que disse sete disparates seguidos e de Roma veio a ordem régia de se calar para sempre e ficar fechada num quarto em Coimbra durante 50 anos para não criar problemas (alguém se lembra do texto do”3º segredo”? alguém o percebeu?), este não perde a chance de mandar a pedrada em soundbites televisivos.

    JPT por acaso interesso-me quase tanto pelas obras como pelos autores. Wilde era muito, muito pior que uma “bicha insuportável”. Shakespeare foi dos maiores vultos de sempre da cultura inglesa e unfortunately pouco se sabe dele para além do que se inventa (a propósito, Wilde tem toda uma teoria de conspiração de que William Shakespeare era gay e tinha num miudo qualquer a sua musa inspiradora, até escreveu um livro sobre isso que foi uma escandaleira das antigas), Tolstoy teve uma vida interessante q.b. mas lá para o fim aquilo que ele fez à mulher foi uma autêntica vergonha e eu acho que ele às tantas já não batia bem da cabeça. Lowry e Céline não tive o prazer de conhecer.

  3. Amélia Russo diz:

    Eu que estou no estrangeiro e nem sequer sigo a Televisao porrtuguesa, estou perdida, nao sei o que se passou recentemente como Saramago …Mas pela internet li por todo o lado indignacoes contra ele…(de catolicos, de judeus, de ateus…..) (Se me puderem so dizer o que foi que ele disse agora, agradeço) . José, partilho o seu texto. De facto, devemos continuar a lutar por que a liberdade de opinião perdure! Também nao sou fa da escrita de Saramago (também me cansa; acho que nunca li um dele até ao fim). Acho importante também que se aprenda a separar o Homem do Artista…

  4. Pena que a categoria “socráticos” sirva para tudo, especialmente quando carreada a despropósito. Reduzir o outro a uma caricatura política descontextualizada é uma forma de desqualificação do outro. Uma forma de cuspir no outro.
    Quanto a referência ao MRPP: vejo certas práticas políticas ligadas ao gosto pela exclusão do outro; gosto de lembrar, por isso, raízes. Falo dos círculos de Durão Barroso por seguir Durão Barroso, como se pode perceber lendo o meu blogue. Não falo de Mário Lino neste caso pelas mesmas razões que nunca falei de Mário Lino no meu blogue. Por isso, a piadinha não é para o autor do blogue, o tal “socrático”, mas para aquela posta lida sem contexto. E, portanto, sem qualquer respeito por quem a escreveu.
    É pena. Por quem escreve aqui neste espaço me dever merecer mais consideração. Contudo, ninguém gosta de ser tratado com displicência como mais uma nota de rodapé numa revista de blogues a fazer de conta que se andou por todos os mundos e mais um.
    Cumprimentos.

  5. Lowlander diz:

    Caro JPT. Pois eu, tenho de ser do contra. Acho a forma de escrever de Saramago uma delicia, a ironia e constante tom de mofa com que narra a realidade sao absolutamente refrescantes. E a forma como denuncia as formas de controlo que os poder tem significativas. Enfim… A Caverna foi de facto o pior dos que ja li.
    Quanto ao resto, o seu e um excelente texto no sentido edo apelo a tolerancia que e. Muito bom ate onde vai. Desconfio no entanto que discordamos em absoluto no essencial, ou seja, eu penso que as declaracoes do Saramago, sao um grito de revolta lucida. Ate certo ponto a constatacao do obvio. Incendiarias e “ofensivas” (i.e. incomodas)? Sem duvida, de outra forma nao poderiam ser suspeito… E a amplitude do feedback que teve bem como a pobreza intelectual do mesmo e bem sintoma, penso, da precisao das declaracoes do escritor.

  6. Lowlander diz:

    Caro ABM, em tom provocatorio:

    Pelo que entendo entao do que diz, a tentativa de ler e entender a Biblia e um disparate… presumivelmente entao, por essa ordem de ideias, o que o Vaticano e editoras em geral deveriam pugnar era pela venda de um livro em branco so com o titulo talvez, ou melhor ainda, uma lombada para se ter em exposicao na biblioteca.
    Quanto ao pedestal, acho engracado dizer que puseram o velhote la, so porque ele disse umas coisas e escreveu um livro e que portanto, ha que o tirar de la (presumivelmente porque estraga a vista ou a paisagem, e talvez um ponto alto na paisagem la colocado sem licenciamento camarario adequado nao sei…).
    Ja as Igrejas com os multiplos franchises, especificamente o da nossa marca favorita, e claro, o amigo imaginario que todos eles no vendem, nao estao em pedestal algum… sao uns desgracados e vulneraveis coitados vejam la, nao os chateiem que eles, raramente, uma vez na Lua Cheia se fazem ouvir.

  7. jpt diz:

    LL: a) não está do contra. Apenas digo que não adiro à obra do homem, não afirmo nenhuma incapacidade do autor. E não é por respeito pela vaca sagrada – há vários autores que não leio (Garrett por exemplo) e não me ponho a blogar contra eles … b) eu nunca disse que o homem não estava lúcido, pelo contrário, o que tentei foi contextualizar o porquê das declarações (não tão desabridas como as criancinhas andam a gemer, diga-se). Daí que concordamos no essencial, ao contrário do que pensa [o que eu acho é que não vale a pena andar para aí aos gritos "Deus vai nu", mas isso é outra coisa].

  8. jpt diz:

    PS longe de mim a intenção de “cuspir no outro”. Compreendo que não goste de ser referido deste modo. Mas deixe-me frisar: a intenção do texto não é insultuosa mas é evidentemente desvalorativa. Um imbecil de um deputado do PSD diz uma atoarda daquelas (é, concordo, um típico comportamento proveniente dos tiques de exclusão do outro) e V. vem dizer que Durão Barroso era do MRPP em 1975-6? Convenhamos que não tem grande passada. Ou acha que a vertigem da exclusão na sociedade portuguesa tem como píncaro o MRPP, ou um facto de um puto de vinte anos ou menos a ele ter pertencido em plena revolução? É, insisto, um olhar paupérrimo, e serve(-me), lamento, como exemplo de uma reacção a propósito deste episódio.
    Quanto ao “socrático”, desculpe mas não é uma caricatura, náo pretende desqualificar mas descrever. Compreendo que ache redutor (e que não reveja, que não se esgote nisso): mas é mais do que comum afirmarmos os “barrosistas”, os “santanistas”, os “cavaquistas”, os “sampaístas”, etc. Desenhos que são às vezes totalmente certeiros (pois existem as “criaturas de …”) e outras meramente conjunturais, pois os indivíduos seguem, com toda a normalidade, os novos líderes. Náo me parece que possa retirar do termo nenhuma ofensa ou, mesmo, lhe deva provocar desprazer.

  9. jpt diz:

    ARS está aí a ligação ao texto noticioso que resume as declarações de Saramago. Em Portugal é assim, ou matam os frades (I República) ou passam o resto da história a atirarem-se para o confessionário

  10. Amélia Russo diz:

    obrigada, JPT. Nada de especial, hein? contestavel, certo, nada literario, mas da para discutir…

  11. Lowlander diz:

    Bom entao concordamos no essencial.
    Quanto a desnecessidade de gritar, atentemos a resposta a estas declaracoes.
    Gritos e mocas retoricas arrisco e a unica linguagem que entendem.

  12. Caro JPT: Insiste no tratamento que me deu, sem ligar nada ao conteúdo do que lhe respondi. Acrescentou algumas palavras de simpatia, coisa que não interessa nada por não andarmos aqui para sermos simpáticos, mas manteve a sua. Julgo que está no seu direito, que neste caso será o de distorcer(-me): tomar a parte pelo todo, sem critério, naquilo que dói mais a quem escreve (eu não escrevi sobre o assunto apenas essa frase que tão horrível lhe pareceu). Fazia-lhe jeito ter alguém a quem reduzir à figura apalhaçada de um “socrático” e o que apanhou a jeito fui eu? Se isso contribui para a sua felicidade, assim seja. Neste caso contribuiu para mudar um pouco a ideia que eu tinha do que se passa neste espaço. Talvez eu andasse distraído.
    Felicidades.

    (Desculpe voltar tão tardiamente, mas as “notificações” não funcionaram.)

  13. Já agora: há-de reconhecer que nem sequer é coerente chamar-me “socrático” quando eu estou a “picar” Durão Barroso. Se há coisa que um “socrático” não faria seria meter-se com a honorabilidade de Durão Barroso. “Porreiro, pá” e tudo o que se seguiu, até ao enorme contributo que os “socráticos” deram para Durão Barroso ter maioria no Parlamento Europeu a favor do novo mandato. Lembra-se? O facto é que, mesmo no plano da análise política, esse chavão foi-me mal aplicado. Mas compreendo que é mais fácil pensar que topamos os outros quando os pintamos como mentes simples.
    Desculpe a insistência.

  14. jpt diz:

    Porfírio Silva, “porreiro, pá”. Alterarei o post – retirarei o “socrático” e colocarei um termo que o possa descrever politicamente. Peço-lhe desculpa pois ofendi-o e não era a intenção. Repito o meu comentário anterior: “a intenção do texto não é insultuosa mas é evidentemente desvalorativa”.

    Diz V. que “Acrescentou algumas palavras de simpatia, coisa que não interessa nada por não andarmos aqui para sermos simpáticos, mas manteve a sua.” Mantenho-a, a propósito disto o seu texto é muito redutor e despropositado – se atentar o meu comentário mais do que simpático é inquiritivo (mas não inquisitivo): a tendência para a exclusão na sociedade portuguesa é particularmente representada por Durão Barroso? O actual ou o puto que foi do MRPP no pós-25 de Abril? Pelo próprio MRPP? (seria bom neste último caso, um partido que agora chegou aos meros 50 mil votantes ser significativo nessas tendências intolerantes em Portugal).

    Entenda, mesmo no seio dessa galáxia meio esquizofrénica que é o PSD, será que as tendências intolerantes (ideologica e politicamente) são particularmente representadas por uma longínqua pertença ao MRPP no contexto em que foi?

    Náo me vou repetir mais, V. a essas perguntas redu-las a simpatias. Diz que disse mais no seu post, mas atentar bem pouco mais terá dito. Deu-lhe para aí? Tudo bem. Mas se quer reduzir isto à minha vontade de caricaturizar entenda que o seu texto, o seu argumento, estava muito à mão para ser “caricaturizado” (ou seja, para exemplificar as várias tresleituras dos vários quadrantes político-ideológicos). E talvez por não ser seu costume o meia-bola-e-força serviu que nem ginjas (lá está, agora vai dizer que estou a ser simpático, mas não é o caso).

  15. jpt diz:

    desvalorativa? ou desvalorizadora? Agora estou na dúvida, mas deixo ficar – a gente agora pode escrever como quer …

  16. ABM diz:

    desvalorizante

  17. [...] Finalmente chegou-me às mãos um jornal Público da semana passada. Onde diz Vasco Pulido Valente: O problema com o furor que provocaram os comentários de Saramago sobre a Bíblia (mais precisamente sobre o Antigo Testamento) é que não devia ter existido furor algum. Como é óbvio, e não só porque velhas como a própria Bíblia são as invectivas a Deus. [...]

  18. Agradeço a sua atenção ao manter este diálogo. Reconheço que tratou com cuidado o meu protesto. Nem toda a gente é assim na blogosfera. Eu próprio não sou tão “simpático”, normalmente.
    Apenas por respeito a esse cuidado, e ao que escreve, e a este espaço, lhe lembro que que há uma “pequena” imprecisão quando escreve “Diz que disse mais no seu post, mas [se] atentar bem pouco mais terá dito.” É que eu não escrevi só esse post sobre essa questão. Escrevi esse, tinha escrito um antes desse, escrevi 3 depois desse. É frequente eu escrever posts curtos, sarcásticos, ou irónicos, ou cínicos, sobre certos assuntos. Em vez de posts sérios, ou a par de posts sérios, sobre os mesmos assuntos. É assim que blogo: fragmentos, por vezes mais organizados, por vezes mais caóticos. Que haja por aí muita gente que manifestamente não tem capacidade para compreender isso, é um facto da vida. Contra esses não protesto. Protestei, no seu caso, por ver o seu opinar de outra maneira. E por, assim, me parecer relevante sinalizar que a sua crítica “para as canelas” era excessiva.
    Como balanço, digo para mim: é o preço de não prescindir do direito de “mandar bocas”. E digo para si: gostaria de não lhe ter dado tanto trabalho por causa de um pequeno “incidente”. Mas,olhe, acontece.
    Cumprimentos.

  19. FM diz:

    JPT Apreciei muito o seu texto sobre Saramago. Tantas vezes temos discutido o par SaramagovsLobo Antunes com a diferença que eu aprecio ambos (os romances) e você detesta os do primeiro e gosta dos do segundo. Por isso gostei do seu comentário e a forma como separa o produto do produtor, neste caso os romances (que são ficção) do seu autor (realidade empirica). Gostei da forma como o descreveu a partir do contacto que com ele teve em Maputo, o último nas pontes lusófonas de triste memória. Como se deve recordar ele exigiu que o levassem à Associação dos Escritores Moçambicanos pois sentia que a organização o confinava ao Hotel Cardoso. E você teve ocasião de ver in loco a empatia que ele criou com o público, o que já havia acontecido da primeira vez que Saramago visitou Moçambique.
    Agora meu caro JPT acho que o último parágrafo era desnecessário, pois envereda por outras ruelas e contorna outras esquinas. A sua tendência para o adjectivo é excessiva e por vezes irritante. Por que razão Mário Lino é abjecto? Não percebo. Se o descrever de forma substantiva talvez venha a concordar consigo. Assim irrita-me. E já agora ele nunca foi controleiro dos comunistas que estavam em Moçambique. Na altura as comunidades de exilados políticos ligadas a partidos comunistas e outros (Partido Comunista Brasileiro, (as duas facçoes) Partido Comunista chileno, MIR (chileno) Fretilin etc tinham representantes oficiais em Moçambique. Foi também o momento em que afluiram a Moçambique os chamados cooperantes internacionais dos paises capitalistas (estou a usar as designações da época) (britânicos, holandeses, belgas, franceses etc) e socialistas (escuso de enumerar). É assim ( havia outros factores de ligações anteriores) que se explica a presença de muitos militantes do PCP em Moçambique, depois da independência. E na lógica seguida pelo governo moçambicano também tinha o seu representante oficial que não era o Mario Lino. Este era assessor do então Ministro do Plano Marcelino dos Santos. É bom recordar para a História que nesses anos o que dominava na opinião pública portuguesa era uma representação de Moçambique como um país com uma ditadura feroz, sem direitos individuais e com um presidente (Samora Machel) caracterizado com clichés e anedotas racistas e elitistas. Pessoalmente fui muitas vezes alvo dessas representações em deslocações que fiz a Congressos. No Brasil, em Belo Horizonte em 1987 (o José Saramago, o Alfredo Margarido e a Maria Alzira Seixo foram testemunhas ) recebi uma carta anónima ameaçadora de uns senhores empresários (soube mais tarde) com ligações a Jorge Jardim só porque na mesa redonda de abertura desse Congresso eu disse que a opção pela língua portuguesa em Moçambique era pragmática e não sentimental. O José Saramago percebeu muito bem o conteúdo da minha declaração e por isso me apoiou e aconselhou que entregasse a carta à organização do Congresso o que fiz. Os tais senhores preferiram ameaçar-me e declarar-me traidora à pátria dos meus país (Portugal) e vendida aos meus patrões de Cuba e Moscovo (sic). Compreende por que fico irritada com os adjectivos??? Bem sei que você dispara em todas as direcções e um pouco como o José Saramago (estou a seguir uma declaração dele) faz do conceito representado pela palavra não um elemento básico e mais importante da actividade humana, no caso a sua. O desaparecimento de Saramago fez-me voltar aos de Craveirinha, Leite de Vasconcelos, Rui Nogar, Orlando Mendes, Rui Knopfli, Noémia de Sousa, Heliodoro Batista, Albino Magaia. Controversos. Paradoxais. Inteiros. Utilizei três adjectivos no final sim. Parece que não tem relação alguma com o Mário Lino mas tem.

  20. jpt diz:

    FM: a) “detestar” os romances de Saramago será um bocado exagerado (talvez já lho tenha dito, em registo coloquial, hiperbólico, no calor das conversas). É mais um “não gosto”, abandono – como expresso no texto. E também não entro no derbi futebolístico Lobo Antunes – Saramago (que existe(iu), e também acalentado pelos próprios autores, diga-se). Mas entre os dois prefiro (porque é muito mais o meu mundo) Lobo Antunes [lá estão as armadilhas da linguagem, pois isto significa "prefiro os livros de Lobo Antunes"]. Ainda que com crescente dificuldades afectivas nos últimos livros – mas é capaz de ser meu problema.

    b) Saramago em Maputo: partilhamos da memória. Acrescento alguns comentários de então: outros letrados vigorosos ficaram encantados com a deslocação ideológica. Lembro-me de ler a justificação em crónica do jornal de letras qualquer coisa como: “ao menos permitiu-me (a ao meu amigo director de jornal) percorrer a 24 de Julho e ter encontrado uma livraria portuguesa” [a Escolar Editora, inaugurada em Abril de 1997]. Saramago, pelo contrário, olhou, analisou e falou. Falou “para dentro” (para os patrícios) e fez questão de “falar para fora” (como na AEMO) – e os para dentro e para fora que utilizo aqui são apenas metafóricos.

    Recordo que ainda muito recentemente um conhecido escritor português esteve em Portugal e se organizou um encontro no seu hotel com uma delegação de escritores moçambicanos. Veio a Maputo receber os escritores locais – claro que ouvi os comentários de quem notou isso, claro que esses “quem” invocaram a diferença da atitude de Saramago (11 anos antes). Para mim isto não é mera questão de “agenda” nem tampouco uma questão “pessoal” ou mesmo de “educação” – é mesmo uma postura ideológica, uma cosmovisão, que transparece nestes actos. Saramago tinha a sua (muito criticável) mas também tinha esta capacidade de entender relações que são … é isso, ideológicas e políticas, também isso.

    c) Adjectivos. Terá razão na crítica à minha tendência. Mas não sei escrever (nem falar) de outra forma.

    d) Mário Lino: sei que é muito deselegante o que vou fazer, mas não me deixa outra via. O que sei de Mário Lino em Maputo vem, fundamentalmente, de conversas desta década, tidas em Lisboa com antigos cooperantes comunistas em Moçambique, então jovens. São conversas pessoais, eles que as publiquem se entenderem [e daí a minha deselegância, dupla, pois invoco "conversas pessoais" que são obviamente irreproduzíveis]. Como V. sabe eu não faço uma ligação imediata entre “militante comunista” e “abjecto” [até por razões familiares, filho que sou de um militante comunista, nada abjecto já agora]. Mas há atitudes “políticas” – morais, existenciais – que são abjectas. Principalmente quando apoiadas num poder discricionário sobre a existência e anseios alheios. Mesmo que passem trinta anos depois. Aí eu não retiro uma palavra. Mas mais do que isso recordo que esta minha referência se prende com a costumeira acusação a antigos militantes de um partido (MRPP ou similares) que passaram para um outro partido (PSD normalmente) enquanto outras transições (até de gente que teve, na prática, mais poder enquanto militante do primeiro partido) passam incólumes ao crivo da raiva pública. É este o caso.

    Para além disso, perdoar-me-á a inflexibilidade, mas não há outra forma de falarmos dos actuais agentes do poder português a não ser adjectivá-los.

    Friso ainda que nada disto tem a ver com minha atitude face aos cooperantes, de 70s, 80s, 90s, ou mesmo 2000s (quando o fui). Sobre o modelo “cooperação”, as múltiplas intenções, as flutuações de paradigmas, haverá muito a dizer, mas com toda a certeza que não aqui. Mas seria interessante avançar sobre isso.

    e) O seu episódio de 1987 é bem ilustrativo. Da perspicácia de Saramago. Mas também do ultramontanismo (neo)colonial (que tem ou teve o seu aggiornamento na expressão “lusofonia”). Dá para perceber o fio de pensamento analítico de Saramago. Mas também dá para entender o incómodo de quem está do outro lado face aos desmitificadores, como V. ao referir o “pragmatismo”. É peúga que não lhes calça o mito.

    Até breve

Leave a Reply

XHTML: You can use these tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>