Há dias enviaram-me transcrição de um texto desvalorizando as críticas às torturas dos norte-americanos no Iraque (muito provavelmente violando a convenção de Genebra) por não serem acompanhadas de denúncias sobre as torturas e ilegalidades do PREC. Estranhei tal mistura de alhos e bugalhos, imprópria ao refogado, o qual se quer atinado para correcta satisfação do palato e pacificação digestiva. Que nisto da alimentação ele há o devorar e o saborear.
[não que a história PRECquiana seja desprezível. Ainda que a sociedade portuguesa tenha optado por sombrear muitos dos desmandos. Com alguns custos, como a vergonhosa sentença dos FP-25 (alguns ainda andam por aqui). E a espantosa condecoração a Isabel do Carmo. Já para não falar na influência em partidos nacionais de gente como Ferreira Torres e Valentim Loureiro. Enfim, talvez seja altura de escrever e divulgar mais sobre essa época.]
Nesse mesmo dia dei com um texto bloguístico do mesmo teor, gozando as sensibilidades de quem se preocupa com tais minudências lá pelo Iraque. Irritei-me, depus longo comentário. E pensei em botar por cá sobre o assunto. Entre tantas coisas passou-me.
A este respeito queria então abordar dois pontos: 1. as implicações da violação (posteriormente confirmada) da convenção de Genebra; 2. os fundamentos do raciocínio que produz estes textos.
1. A aplicação da convenção ainda se liga à classificação de “forças armadas” legítimas porque formalizadas. Ou seja, legitima as partes inimigas segundo a presença de um Estado ou sistema político-militar algo centralizado. Implicita a velha distinção entre sociedades estatais e não-estatais (o art. 4º, ponto 2, poderá indiciar isso).
Mas o ponto fundamental é outro, mais perceptível via história. Até porque para des-politizar nada melhor do que des-actualizar. Lembro a II G.M. com a sua aplicação (em versão anterior), pelo menos relativa, entre alemães e aliados ocidentais (não esquecer que sou da geração do Colditz - via BBC e Livros do Brasil)
Assim a aplicação da convenção traduz classificações que graduam a Humanidade do inimigo. Obrigatoriamente aplicável aos mais próximos (”racial/cultural”, mas também “politicamente” - por comunhão de “civilização”, donde de Humanidade acrescida). De mais fluída aplicação no confronto com inimigos desvalorizados. Enfim, pela atitude face à convenção de Genebra regressam os marcos distintivos do “Nós” e do “Outros” (desculpem o antropologês), os quais se imaginariam hoje ultrapassados entre “Nós”.
Porque é essa ultrapassagem do “Nós/Outros”, essa universalidade, que julgamos (julgávamos?) traço central do nosso “Nós”.
2. O desvalorizar destes acontecimentos, este radical filoamericanismo, pode parecer estranho, uma sobrevivência de tempos recuados. Mas não. Na prática é um modo de pensamento/argumentação igual ao seguido durante décadas pelos comunistas. Óbvio em tantos textos de verdadeiros homens de cultura, de meros crentes, ou de apenas apparatchiks.
Essa gente tudo aceitava aos russos, todas acções, invasões, crimes, mentiras. Ou negando-as, como falácias da “contra-informação” burguesa (que sorriso ao lembrar essa arenga). Ou justificando-as, em nome de um objectivo final, de uma ideologia. Acríticos sempre. Ainda que prontos a ligeiras calibragens consoante os ventos de leste (e mesmo assim…).
O modelo de pensamento político é o mesmo, um fundamentalismo escatológico. A sua impotência cognitiva idem. E também partilham uma inadequação às respectivas epistemologias, marxista e liberal.
Mas acima de tudo surpreende-me algo mais que os ex-filorrussos e os actuais filoamericanos partilham: essa crença mágica no poder dos textos.
Acreditam que escrever coisas assim, acríticas, indubitáveis, influencia o real. Pois haverá outra razão para pessoas cultas (medianamente que sejam) serem tão facciosas? Tão indubitadas? No fundo acreditam-se feiticeiros escatológicos, com poderes de intervirem pela palavra no destino do mundo.
E como qualquer feiticeiro, dependente do poder dos seus antepassados, presos aos particularismos. Ditos irracionais.
Confesso que esta crença no poder mágico/feitícico da palavra escrita, que esta superstição me espanta. E a esse propósito lembro-me sempre do meu espanto lá pelos meados dos anos 1980, quando li “Margarita e o Mestre” (aquela velha edição, Estúdios Cor?) e “Novela Teatral” do Bulgakov: “como é que o comunismo resistiu a estes livros?”.
Hoje pergunto, se nem um Bulgakov mexeu com um regime político como poderá ambicionar um mero mortal escrevinhador reforçar um desses poderes do mundo. Que vaidade! Vã, como sempre.
Mas porque é que voltei a isto? Pois estreei-me num blog e lá reparei num texto sobre a questão (”Miséria”) o que me levou a recuperá-la (se um blog não tem função também não tem actualidade). E a morte de Reagan ainda para mais, a lembrar o tempo em que os russos eram os nossos inimigos.


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