
[Primo Levi, A Trégua, Teorema, 2004, tradução de José Colaço Barreiros]
“A primeira patrulha russa chegou à vista do campo pelo meio-dia de 27 de Janeiro de 1945. … Eram quatro soldados muito jovens a cavalo, que avançavam cautelosos, com as metralhadoras nos braços, ao longo da estrada que delimitava o campo. Quando chegaram junto do gradeamento, detiveram-se a observar, trocando entre si palavras breves e tímidas, e dirigindo os olhos tolhidos por um estranho embaraço para os cadáveres descompostos, para os barracões desconjuntados, e para nós poucos que estávamos vivos. …
Não saudavam, não sorriam; pareciam oprimidos, não só pela piedade, mas por uma confusa discrição, que lhes selava as bocas e prendia os olhos ao cenário fúnebre. Era a mesma vergonha bem nossa conhecida, a mesma que nos submergia a seguir às selecções, e de cada vez que nos calhava assistir ou ser submetidos a um ultraje: a vergonha que os alemães não conheceram, a que o justo sente perante o pecado cometido por outrem, e o atormenta que exista, que tenha sido introduzido inexoravelmente no mundo das coisas que existem, e que a sua boa vontade tenha sido nula ou escassa, e por isso não valeria a pena defendê-la.” (8-9)
“… e no entanto a 15 de Outubro [de 1945] … atravessámos uma nova fronteira e entrámos em Munique … o facto de sentir pela primeira vez, debaixo dos nossos pés, um pedaço da Alemanha … sobrepunha ao nosso cansaço um estado de espírito complexo, feito de insofrimento, de frustração e de tensão. Parecia-nos ter algo a dizer, enormes coisas a dizer, a cada alemão em separado, e que cada alemão tivesse a dizer-nos a nós … Saberiam “eles” de Auschwitz …. Se sim, como podiam andar na rua, e voltar para casa e olhar para os filhos, passar os patamares de uma igreja? Se não, deviam, deviam sacramente ouvir e ficar a saber connosco …
Parecia-me que cada um deveria interrogar-nos, ler-nos na cara quem éramos, e ouvir com humildade os nossos relatos. Mas ninguém nos olhava nos olhos, ninguém aceitou o desafio: estavam surdos, cegos e mudos, entrincheirados entre as suas ruínas como numa fortaleza de desconhecimento desejado, ainda fortes, ainda capazes de ódio e desprezo, ainda prisioneiros do antigo misto de soberba e de culpabilidade.
Tentativa vã e insensata: visto que não eles, mas outros, os poucos justos, responderiam em vez deles.” (245-246)
“… e não cessou de me visitar … um sonho pleno de terror …estou de novo no Lager, e nada era verdadeiro fora do Lager. O resto era uma breve pausa, ou engano dos sentidos, sonho … Agora este sonho interno, o sonho da paz, já acabou … e oiço ressoar uma voz, bem conhecida; uma única palavra, não imperiosa, mas antes curta e baixinha. É a do comando da alvorada em Auschwitz, uma palavra estrangeira, temida e esperada: levantar, “Wstawac“.” (249-250)

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Aquela descrição da passagem por Munique lembra-me uma outra passagem, de um livro de Jorge Semprun. Depois de ser libertado de Buchenwald, foi a uma das aldeias vizinhas, tocou à porta de uma das habitantes, pediu para entrar na sala dela, de onde se via o campo de concentração. Ela gabava a sala, “é muito confortável, não acha?”
E ele nem sabia o que dizer.
Nunca li Semprun. Mas o episódio é claro: o mundo “é muito confortável”
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