“Éramos doze filhos, nove rapazes que é como quem diz, pois rapazes não é o termo: bezerros, alguns, touros os maiores. Bestas de força. Não era da comida, que de fome andávamos nós fartos. Vinha do sangue, por isso escapámos todos, que a minha mãe não teve a sorte de outras que deitavam os filhos como coelhas, mas depois era como dizia uma vizinha Ah! Meu rico senhor, isto eles morrem muitos! A minha mãe coitadinha inquietou-se para inventar maneiras de fazer a gente pensar que comia. O único rancho melhoradinho que se tinha no ano era no dia da festa da padroeira. Na véspera punha-se a panela grande ao lume e uma galinha a afundar-se em muita água. Eu a duvidar: a galinha fugiu? Não, tinha-se derretido. Eu revirava a sopa e só encontrava batata. Era só para dar gosto, como agora se faz com as barrinhas de Knorr. …
Aqui, sempre me desenrasquei. E tive mesmo de me desenrascar depressa que isto por cá se não se tem olho vivo e pé ligeiro fica-se para semente. Tive de aprender muito por mim. E graças a Deus aprendi e afinal já sei que não sou burro. Tinha era fome e precisava de olear as máquinas. Por isso ainda se admiram quando falo bem desta terra! O senhor não vai acreditar, mas eu até palavras novas de português vim aprender aqui na América! Palavras que juro que nunca aprendi nem ouvi na minha terra!
Deve ter sido a minha única interrupção, excepto quando não consegui conter o riso incitado por algumas daquelas saídas mais desbragadas: Ouça lá! Eu acredito nisso tudo e reconheço que, a falar-me dessa maneira e nesse tom, será impossível não estar a contar-me experiências autênticas do seu passado na ilha. Mas agora essa de vir aprender aqui palavras novas de português… parece-me já demasiado. Dá-me uma só, como exemplo?
- Claro que dou! FASTIO!
(Onésimo Teotónio Almeida, Aventuras de Um Nabogador & Outras Estórias-em-sanduíche, Bertrand, 2007, 150-156/7)


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