Uma das características do meio maputense é o silêncio auto-induzido, a lassidão da crítica. Causas várias para tal. Mas uma se impõe, pelo menos para um estrangeiro residente – sendo Maputo uma cidade grande é relativamente pequeno o “cimento” burguês, um tipo critica algo ou alguém, falha com alguém ou algo, e logo o encontrará no dia-a-dia. Para quê gerar desconfortos, ainda para mais através de actos por essência improdutivos? E, mais amplamente, como traçar as minhas memórias de mais de uma década de Maputo sem implicar esse ónus?
Em 1997 José Craveirinha publicou Babaalaze das Hienas. Na realidade foi a sua última obra publicada em vida, catarse da guerra então ainda recente. Acorri ao lançamento do livro na Associação dos Escritores, também editora do livro. Foi um dia inesquecível. O velho poeta, crispadíssimo, eco da angústia que atravessava a obra e da comoção em publicá-la. Mas também fruto do amadorismo anárquico daquela pobre sessão, onde meras trinta pessoas partilhavam o seu desconforto, um evento paradoxal face ao simbolismo de Craveirinha, feito poeta nacional, e ao dramático conteúdo da obra. Crispação muito sublinhada, lembro, com o estado embriagado de alguns dos seus pares, ali anfitriões – para mais Craveirinha era abstémio. Terminada a inenarrável cerimónia logo partiu. Eu fui convencido por dois amigos poetas para o seguir, a tradição incluía uma continuidade na célebre casa da Mafalala. Lá fomos, pequeno grupo, onde se incluíam três jovens jornalistas portuguesas encantadas com o momento, auto-concebido comité de desagravo. Craverinha, furibundo como me veio a contar alguns anos depois, nem nos abriu a porta.
Lembro este meu quase-inicial contacto com a Associação de Escritores pois sempre a conheci um pouco assim, algo anárquica, algo boémia, e foi nessa condição que por ela criei a minha simpatia. Ao longo dos anos muitas críticas ouvi sobre o estado da associação, sua incapacidade organizacional, seus infrutíferos esforços pró-literários. E espanto por eu a frequentar. Mas era exactamente essa dimensão desarranjada que me agradava, sempre uma mesa onde se falava de livros e mulheres, ideias e copos, coisas profundas algumas e fúteis muitas. E, desde que civil, algumas vezes de lá saí quase nos modos do meu ex-fetiche Lowry. Pois ali me aturavam. Um dia narrei-me por lá. E também, para além da dimensão convivencial, sempre pensei que a haver problema não seria exactamente na instituição, mas sim no espaço de produção literária, que eu mero leitor leio como minguando nesta última década, a qual ao meu gosto pessoal apenas deixa as promessas da prosa de Chivangue e Muiambo (que aparenta ter desistido), excertos de White (que se zangará comigo ao ler isto), Saúte e Mia Couto, alguns contos de Panguana e as crónicas do Daniel da Costa, esparsos versos de A. Artur., e acima de tudo a obra de Borges Coelho e a continuidade de Aldino Muianga.
Ou seja, é mais do que óbvio que não é uma Associação de Escritores que produz escrita e escritores. E, também, não é ela que produz leitores. Pode é produzir debate entre escritores, entre leitores, entre escritores e leitores. E pode defender os direitos dos escritores (e da literatura) no mercado, na sociedade, na política.
Outros mais sociológicos entenderão que nesta era – de pluralismo político e de industrialização do mercado livreiro, donde literário – o papel de uma Associação de Escritores sob vínculo estatal se vai desvanecendo, seja como editora, seja como controleira (política e ética), seja como divulgadora, seja como formadora de leitores e indutora da escrita. Nos termos actuais talvez a AEMO seja já uma sobrevivência. Mas em sendo-o tal qualidade inscreve-se num contexto citadino cuja elite intelectual tem décadas de experiência em clubes e associações, tem um pathos de existência que passa por esse associativismo, no qual coexistia rebeldia de costumes, revolucionarismo político, subversão das expressões artístico-literárias e políticas, mas também a festa, a boémia, a contextualização institucional (e até espacial) das afectividades, os espaços de construção identitária.
Por tudo isso, sempre mantive uma simpatia com a AEMO, talvez exagerando a sua geneologia no associativismo maputense (e laurentino), sempre compreendendo a sua inserção no contexto político – a qual era vivida com a tal irreverência de costumes, tantas vezes expressão de uma angústia humana, “demasiado humana” -, e apreciando os esforços das últimas direcções (com Armando Artur e Juvenal Bucuane) em produzir neste contexto algumas acções literárias e em re-operacionalizar a organização.
Agora, e como corolário de uma polémica de há anos atrás sobre a “morte da literatura”, mudou a “geração” (seja lá o que isso seja) que gere os assuntos da casa. Esta mesma semana lá me dirigi para assistir a uma intervenção de um antigo professor meu, homem de livros e literatura, louvável improviso de quem mostra querer ter uma casa aberta. Ao fim de uma hora de charla entra o secretário-geral – que tem um muito particular entendimento sobre a literatura, diga-se -, senta-se na mesa sem uma palavra. Depois no final, inscrito num formalismo hoje muito provincial e já anacrónico na capital, não se coíbe de encerrar a sessão. Para dizer que se tinha atrasado pois na véspera tinha estado nas comemorações do 75º aniversário de Samora Machel, na província de Maputo. Ponto final parágrafo, pois que mais haverá a dizer?, a “visão do mundo” está explícita.
Sei que sou estrangeiro. Que é fácil de dizer do tuga, ainda por cima branco, que não respeita Samora Machel, não compreende o simbolismo fundacional do primeiro Presidente da República, que despreza o país, e todo o gigantesco etc que a vontade de cada um permitirá.
Mas ainda assim gostava de dizer que tenho muitas saudades de todas as minhas 2M a ouvir discutir Sophia, Céline, Nogar, Charruices ou Xiphefices, literatices e mundanices. E a falhar(mos?) cerimónias.

6 comments ↓
caro jpt, bem observado. o problema é ainda mais grave, pois afecta também (e ainda) os meios académicos. resistimos estoicamente à cultura da crítica; não gostamos de ser interpelados criticamente; quando alguém discorda é como se estivesse contra nós. e isto tem consequências na qualidade da política que se faz. se fosse da associação de escritores e estivesse a ler este texto, organizava um debate, encorajava reflexões nos vários semanários que temos, enfim, reagia. o mais certo é que se amuem e fiquem a resmungar por aí…
Caro JPT,
Acho que colocas o dedo na ferida…, Mas aí está! No nosso caso nunca sangra debate. O mais provável é que ninguém te interpele nesta observação que fases do: “quo vadis AEMO?”. E a tua observação sobre as consequências da crítica explica, de alguma maneira, esta atitude. Surgeria debate se atacasses alguém! Bom, nem sei se chamaria isso debate, talvez discussão. Muitos ainda confundem estas duas coisas bem distintas. Pessoalmente, penso que a AEMO nos seus momentos distintos serviu de espaço de legitimação do que talvez se possa designar diferentes “correntes” ou tendências da literatura Moçambicana. É por lá onde se pagavam as propinas da legitimação (re-conhecimento) como escritor. É por lá que se estabeleciam as redes (contactos) para as publicações etc, etc. Isso acontecia, penso, em muitas ocasiões com a informalidade que a 2M proporciona. Aos que não alinhavam pela 2M a AEMO ficava, por vezes, um lugar inóspito. Lembro-me uma vez de Saúte chamar-lhe ABEMO, sarcasticamente. Isso valeu-lhe a alcunha de Dante! Enfim, tudo isto é para dizer… Porque não um pouco de (antropo)sociologia da AEMO? Está aí…, não sei por quê, mas acho (teses/ estudos) sobre estas coisas (banais ou melhor, banalizadas) permitiriam-nos melhor conhecimento de nós do que os mega temas (as representações sociais de… HIV/SIDA, Pobreza…).
Vamos ver se surge debate.
OBS: A propósito da nova direcção. Leste a carta de TVM (Tomás Vieira Mário)?
abcs
EM – tem razao quando refere a ausência de uma cultura crítica no sentido geral, e da “personalização” que de imediato acorre quando alguém não é suficientemente veemente nos encómios. é muito raro que eu saia da carapaça de estrangeiro, qual tartaruga verdadeiramente mais lenta do que a lebre. Mas lembro que me atrevi um dia a criticar em público a formulação de um colega. A resposta, indirecta, foi devastadora: “Quem é ele para me criticar”. No mundo das artes plásticas, no qual tenho mais amigos, ainda é pior. Enfim, também não é uma característica unicamente local …
Quanto a este caso acho que tem razão. Zangar-se-ão os actuais, zangar-se-ão (e isso lamento) os antigos, gente por quem tenho apreço (e tanta mesa conjunta, como bem refiro).
PL lembro bem a saída do Nelson e da bronca que se seguiu. Desbocado, franco. Mas como sublinho, eu era um “cola” nesse ambiente, não é contra ele que me agito, é contra este aparelhismo. A AEMO foi espaço de legitimação – com toda a certeza, e é a reclamaçaõ da manutenção desse espaço que talvez seja anacrónica (pelas características endógenas; pelo mundo literário actual). Mas não há instâncias (Velho termo) sem mecanismos legitimadores – dái que talvez fosse urgente debater, discutir, seja lá o que for (como diz o EM)
não li a carta do Vieira Mário (cujo lado Vimaró tanbém é muito apreciável) – onde a apanho?
JPT.
O TVM publicou o texto no suplemento cultural do Notícias. Aí vai o endereço: http://www.jornalnoticias.co.mz/pls/notimz2/getxml/pt/contentx/131898
Veja também o debate sucitado prlo Antropólogo Português, Paulo Granjo, aqui: http://antropocoiso.blogspot.com/2008/03/e-o-james-joyce-ento-uma-seca.html
Abraço
Fico grato. A nota do Granjo tinha visto mas tinha-me escapado a carta e declarações do TMV.
Nao basta ostentar o nome, é preciso que a AEMO seja de facto! E os seus mebros comungam os mesmos ideais. Basta recordar alguma insatisfaçao dos pronunciamentos de alguns escritores da “Geraçao Charrua”.
O novo Secretario Geral, apesar de muito contestado, é visivel o trabalho que têm realizado.
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