
“Marias Deste Nosso Mundo” (Ndjira, 2006), de Maria Helena Massena Ferreira. Médica pediatra do Hospital Central, professora universitária (presumo que jubilada), de ascendência portuguesa e em Moçambique desde os anos 50, quando aportou já mãe à então colónia. Na nota biográfica descrevendo-se como de um núcleo familiar oposicionista (“Democratas de Moçambique”?, não está explícito).
Sem objectivos literários, em parte memorialista, o livro consta de 5 pequenas histórias (e um poema), das muitas que a médica terá para recordar. Esse o seu interesse, o eco da permanência das “doenças da fome” – tantas vezes esquecida quando no seu avatar subnutrição -, elas descritas bem como a sua constância no mundo infantil. E a memória dos efeitos desestruturadores das redes familiares que a guerra teve, de como potenciou não só as doenças como a incapacidade dos núcleos familiares se reproduzirem.
É um texto sobre mulheres, e sobre a sua fragilidade estrutural (Marido sem amor / Maria humilhada / O desgaste de sofrer) [p. 54], mães e avós tentando fazer medrar as suas crianças. E do esforço da médica, uma postura iluminista, tanto no olhar sobre práticas e concepções outras, tão presentes no sul e centro – os diagnósticos por imputação de feitiço, as madrastas “madrastas”, símbolo da desestruturação das parentelas, os cuidados maternais em linha matrilinear chocando com a lógica patrilinear, etc. - que tanto penalizam as mulheres e sua prole.
Interessante ainda, exemplo geracional, a memória grata sobre os anos 80, o “tempo do carapau e do repolho” como aqui se diz. Ainda que aflorando de modo breve lá está o elogio dos mecanismos colectivos de gestão e a, ainda hoje algo surpreendida, descoberta do tradicionalismo afinal não tão-revolucionário – pelo menos em questões cosmológicas e de género – dos grupos dinamizadores, formas de base da administração pública de então.
Na sua linearidade retórica um testemunho interessantíssimo. Sobre a saúde infantil, sobre o mundo das relações de género. Mas também sobre o processo de constituição do Estado-nação.
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Muito obrigada pela notícia de um livro publicado por tão ilustre e generosa personagem… Não conheço a editora; é exclusivamente Moçambicana? Sabe se podemos ter acesso ao livro em Portugal?
Muito obrigada mais uma vez e espero continuar a poder ler o seu magnífico blog durante muito tempo.
Patrícia
Comentário by Patricia Lopes — 19/08/2008 @ 21:33
A Ndjira é a Caminho em Moçambique. Presumo que a edicao seja exclusivamente aqui, mas será de crer que via caminho possa adquirir um exemplar
(e obrigado pelo afago no eco)
Comentário by jpt — 21/08/2008 @ 0:08