Literatura Moçambicana

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(pressionar a imagem para ler o texto)

Um perspicaz artigo de António Cabrita sobre o estado da discussão, da divulgação e, fundamentalmente, da apreensão da literatura moçambicana.

Algumas coisas são óbvias, e acho que ultrapassam a questão “geração Charrua”: os escritores não são ecoados pelo “meio literário” (seja lá isso o que seja). Calane e Panguana escrevem romances e são seguidos pelo silêncio. Muianga publica amiude e não é retratado. Mia Couto é discutido pelo que escreve nos jornais. Sobre Borges Coelho há um silêncio – como refere Cabrita – tonitruante, que é coisa assente desde o princípio da sua publicação. Andes Chivangue, que acho o mais excitante dos novos prosadores, desaparece sob o mesmo silêncio. Muiambo que era cronista onde andará, quem o convoca? Aos novos poetas apaga-se-lhes a imagem depois do cocktail inaugural a la Mcel.

Todo este silêncio dever-se-á às práticas editoriais. Mas algo terá a ver com os jornais. O fugaz Meia Noite apostou na recensão e reflexão sobre literatura, mas morreu. A Proler foi incapaz de ressuscitar. Ficou o ainda recente suplemento cultural do Notícias, o qual não deu o salto qualitativo que prometeu – muito provavelmente por ter um espectro de atenção muito vasto para os recursos humanos de que dispõe. O resto da imprensa escrita esvaziou-se. Os especialistas em estudos literários raramente escrevem para o jornal (e não há revistas académicas da especialidade) e quando o fazem quase sempre ficam prisioneiros do jargão e da problemática científica, afastando os leitores leigos. Talvez por isso os jornais procuram a publicação dos textos destinados às sessões de lançamento das obras, que são quase sempre textos de ocasião. Ou seja, a saudável recensão, com ou sem arremedo crítico, inexiste.

Mas o silêncio sobre as obras não se restringe à falta de trânsito entre os pequenos grupos literários ou ao esvaziamento das secções culturais da imprensa – ou a questões identitárias mais vastas. Há uma dimensão sociológica nada despicienda, ainda que aparentemente pueril: o meio literário é muito pequeno (bem mais do que o são outros meios similares, como o das artes plásticas ou da música), qualquer crítica não absolutamente positiva culmina na poluição de relações pessoais diádicas. E o ethos contextual não admite senão a adesão ilimitada – nem mesmo em conversa, quanto mais em publicação.

Finalmente: a própria página cultural do Savana, jornal onde Cabrita (e vários escritores) publica é demonstração da pobreza de abordagem. Há semanas ali se elogiava como “bela prosa” um breve ataque a Saramago – djanovista (o escritor era menorizado por desrespeitar a Igreja Católica, assim se subordinando a literatura às posturas políticas e públicas); algo xenófoba (se por cá há bons escritores para quê lê-lo? O Nobel deveria ter sido atribuído a Craveirinha!) e acima de tudo apelando à não-leitura como critério de avaliação literária: “É que nunca li José Saramago. (…) Há escritores mais originais e criativos (…) Mais bonitas, mais criativas e com conteúdo muito valioso.” Entenda-se, nem discuto o texto de Jorge Oliveira (cujo “Fazedores de Almas”, feito com Panguana, lhe demonstrou conhecimento do panorama literário nacional), o qual até pode ter sido um mero desabafo (a irreverência final do texto é absolutamente rara no panorama jornalístico moçambicano, Fernando Manuel à parte, permitindo-me esta dúvida). O realmente interessante é que tamanho pacote foi elogiado de modo literal no Savana, jornal cheio de literatos ali colaboradores residentes e, que eu tenha reparado, nenhum achou pertinente colocar em discussão o espartilho (aparentemente?) preconceituoso assumido pela redacção do jornal (o texto não é assinado pelo que é da redacção, não é assim?). E, se assim o é, porquê o espanto com o “estado da arte”?

15 comments ↓

#1 Paulo Granjo on 04.08.08 at 8:06


Belo artigo e belo comentário.
Pela minha parte, confesso que só consegui interpretar a apresentação do Savana ao velho artigo de Jorge de Oliveira (“pedaço da sua bela prosa”) como uma ironia bem assassina (“para que os leitores possam travar contacto com o pensamento de”).
Afinal, não se vai desenterrar uma demonstração de inépcia crítica publicada há 10 anos atrás para dizer bem de ninguém…

#2 jpt on 04.08.08 at 8:40


Eu hesitei: ou é uma ironia provocatória no texto (como digo acima, dou-lhe o “benefício da dúvida). Ou era uma ironia do jornal. Mas duvido muito das ironias em surdina, e esta a sê-lo foi-o assim. Mas ainda que o fosse … está num jornal (numa peça elogiando o Jorge Oliveira) e ninguém nele se interroga sobre o efectivo tom do texto?

#3 Paulo Granjo on 04.08.08 at 11:43


That’s life. Maybe also politics.

É verdade: comprei o novo livro do João Paulo Borges Coelho a um preço bem mais razoável do que aquele de que te queixaste (e que também vi), numa outra livraria que até tem fama de ser careira, ali para a Julius Nyerere.
De 330 para 550, convenha-se que a diferença é quase um roubo. Aparentemente, praticado pela “livraria de referência” de Maputo…

#4 jpt on 04.08.08 at 12:06


1. sim, talvez seja política. Mas sobre a associação de escritores moçambicanos: não sou associado, não sou escritor, não sou moçambicano. Ainda assim um tipo pode opinar – em abstracto não vejo por que não há-de ser um jornalista do meio o secretário-geral (é uma questão que não levantas, mas houve para aí uma polémica). E se gosta ou não da tammaro também não me parece muito relevante. A priori poderá fazer trabalho, e se os associados o escolheram boa sorte. O que me parece estranho é que gente que bate bem em tantas coisas não discuta estas (que serão até bem mais estruturais, na minha enviesada opinião [ou enviezada?]).

2. do preço dos livros acho melhor nem falar mais – a colectânea de Fernando Couto custou-me 300 meticais no polana shopping e está a 200 no maputo shopping. O grupo livreiro é o mesmo, a editora a mesma, o tempo decorrido para aí uma semana. E ninguém discute a política do preço do livro. Um tipo é estrangeiro, resmunga e compra se quiser. Já agora, protesta-se na livraria e dizem-me, e apenas cito, que é a editora que lança os livros assim e depois de duas ou três semanas os envia mais baratos. Assim como se estivessemos em Nova Iorque ou isso, a comprar o Grisham ou o Roth, ou o Harry Potter, fresquinhos da tipografia. Face ao mercado que existe (1000 exemplares é um luxo) isto é um total desrespeito face ao pequeno grupo de clientes das editoras, que se sentirão enganados.

Já agora, eu participei na organização de um lançamento de um livro de ciências sociais que vendeu quase 350 livros no dia do lançamento – num mercado destes se as editoras se mexessem no lançamento, com meia dúzia de chamussas e duas ou três JC LeRoux vendiam e bem as edições. Mas são incapazes de o fazer, de actuar num mercado deste calibre – toca de pedir patrocínios e vender as edições assim pagas a preços normais e de sobrecarregar as não patrocinadas.

Repito: um gajo é estrangeiro e compra se quiser.

#5 chapa100 on 04.08.08 at 23:52


jpt, interessante a tua abordagem, nao li o savana, nao posso comentar acerca do texto e nao assisti ao debate referenciado pelo “confrade” cabrita. so que as vezes nao sei onde a “cena” de ser estrangeiro “mistura-se” com o teu “direito” a opiniao como leitor e residente em mocambique , para nao falar do teu activismo cultural, quando trata-se de falar da cultura, e acho que o teu direito como consumidor podias ser mais critico.
Conheco muita gente que escreve e le em maputo. fazem-no clandestinamente? talvez, mas fazem-no segundo as condicoes do mercado. o livro esta caro em maputo, um preco quase abusivo. existe um decreto que isenta o livro de alguns impostos, principalmente quando importado e os livros de producao nacional tambem, uma proposta bem mais “profunda” foi feita pelo Julio Navarro, trabalhei com ele nisso. pena que o julio ja nao esta entre nos, ele que era uma biblioteca viva, da boa leitura e de boas maneiras, coisas que hoje “fazem falta”. eu conheci uma pessoa muito seria nesta coisa de edicao e distribuicao do livro, o sr. aboobakar da leia comercial, zangou-se com muitas “trafulhas” do sistema e retirou-se, mas foi um grande mecena, para muitos jovens autores. que a questao merece um debate amplo todos nos concordamos, mas temos uma politica de cultura quase que inexistente. so que falar da politica do livro, significa falar da estrutura, para isso nao ha mecenas, nao ha inspiracao que traga gente com vontade e lucidez, a elite intelectual esta na vanguarda de um capitalismo que empurra-nos para o mais fraco no jogo das prioridades da vida e aqueles que ainda conseguem ficaram com activismo pela cultura “one-time and fast”.
sobre a “guerra” das geracoes ou de Escritores, nao entendo, tambem andei metido nessa “bagunca” de legitimidade, eram os tempos de nao sei “o que”. a aemo existe porque o pais existe, e um pais existe porque tem seus escritores. tenho pena daqueles escritores dignos, que pela geografia do discurso e da escrita sao “tomados” como da periferia, porque o pais esta longe nao na sua grandeza mas no talento que se esconde no km que separam maputo do mundo da provincia.

#6 jpt on 04.09.08 at 3:52


Terás razão quando dizes do direito à crítica enquanto estrangeiro. Aqui separo duas abordagens:
1. a denúncia (mais no sentido da resmunguice) face aos destratos empresariais (e até individuais), que vou fazendo ao sabor do meu mau-feitio.
Será necessário dizer que editores e livreiros não são do pior: empresas como os bancos, a mcel, a tvcabo, etc, continuam com óbvios tiques destratadores de clientes que me parecem provir de uma velha mentalidade monopolista, “herdada” (não sei se o é, se é mera cupidez imbecil) da mentalidade de regimes de concessão ou socialistas anti-concorrenciais.
2. um outro nível, bem mais importante, e que afloras no teu comentário, remete para uma discussão mais profunda – a da actividade legislativa e fiscalizadora, mas também indutora, das instituições estatais no domínio da cultura (e isto sem derivas estatizantes), do funcionamento do ministério da (educação e) cultura. Aí sim poder-se-ia resmungar algo, propôr mais – mas há um silêncio quase geral, não me apetece andar a pontapear pedras enquanto meteco. Francamente a última vez que ouvi falar do INLD do meu amigo Boaventura Afonso foi quando conseguiu aprovar a lei do selo e promover o confiscar de largos milhares de produtos piratas audio e visuais. O que aconteceu? Foram, surpreendentemente, devolvidos aos comerciantes, por estranha decisão administrativa. Que fazer quando o próprio Estado ultrapassa os seus sectores que procuram viabilizar uma política de protecção dos produtos culturais? E de os entender como também produtos económicos e, até, de financiamento estatal? Honestamente não quero começar a discutir isso, como acima te refiro
Finalmente, onde há uma instituição ou associação verdadeiramente actuante de protecção dos consumidores?

#7 jpt on 04.09.08 at 4:08


Leitura e escrita – há, evidentemente, muita gente que lê. Trabalhei em duas bibliotecas da cidade, trabalho numa universidade. Sei que se lê muito mais do que os gemidos da ileitura actual afirmam (são gemidos de geração, “no nosso tempo é que se lia”, e que não são tipicamente moçambicanos, como é óbvio, encontram-se por tanto lado). E presumo que se escreva – também por isso o entusiasmo, se calhar algo desproporcionado, com isto dos blogs, em particular dos blogs aqui: acredito muito mais (ou interessa-me muito mais) nas possibilidades de auto-edição (e de indução da escrita/leitura) destes do que na sua vertente político-jornalística (também importante, mas a jusante da questão).
Nisso tudo não defendo nada que se deva ler melhor. Apenas que se deve ler mais ou melhor ainda, proporcionar a hipótese de ler mais. Não acho que sejam as editoras e os livreiros a terem essa responsabilidade – mas caramba, a porem o dedo na balança à velho cantineiro não vão lá (e até se inviabilizam a médio prazo). Ou seja, sublinho o que dizes dos trafulhas do sistema. Mas não só – há inacreditáveis problemas de distribuição que se devem não só a questões de “trafulhice” mas fundamentalmente de inércia. Como é possível ir à Escolar Editora à procura de edições recentes da AEMO (do outro lado da rua) e lá me dizerem que pedem os livros e eles não vêm (são coisas de há não muitos anos) Como é possível encontrar escondido um “Mulungu” do Adelino Timóteo, lançado há poucas semanas, numa livraria e ele não existir (e em escaparate) nas outras do mesmo grupo. Como é possível os livros premiados estarem esgotados na altura e assim ficarem? E já nem falo da inexistência de distribuição nas capitais provinciais.
E quando as grandes empresas (HCB, telefónicas, bancos) aventam possibilidades de patrocínio de livros e sua distribuição e da parte dos editores não haver resposta imediata, deixando morrer os compromissos ou vontades assumidas.
Ou seja, nem é um problema de trafulhice, é fundamentalmente um problema de atitude, de amadorismo, de desprendimento.

Insisto um pouco: há um ano organizámos um lançamento de um livro de ciências sociais. Vendeu-se nesse fim de tarde dois terços da edição (e a preço de livraria). O editor surpreso, nunca vira algo assim. Claro que o autor ajuda ao impacto, mas a gente não se pergunta do por que não se fazem assim as coisas? Isto não vai com crítica ao editor (que até é amigo) mas sim com lamento ao amadorismo que vai continuando no reino da edição.

Enfim, obrigado pelo comentário. E pelo espicaçar

#8 chapa100 on 04.09.08 at 11:25


jpt, concordamos em muitas coisas. durante algum tempo aventurei-me nessa de distribuidor de livros de autores mocambicanos, fiz com o navarro e o seu gabinete tecnico. foi uma experiencia impressionante, a unica livraria seria com a qual trabalhei foi a minerva central, o resto foi quase um pesadelo, “aprendi” a empurrar a minha vontade de amante dos livros mesmo sabendo que a quem vendo nem “esta ai”. O papel da AEMO na distribuicao e divulgacao de autores é um caso serio. meteu-se na venda para salvar os autores, mas acabou tornando-se o “inimigo economico” do escritor, mas como navarro dizia: a cultura do livro jorge, falta.

prontos, do INLD nem quero comentar. o boaventura é boa pessoa na conversa, um amigo bom. mas o papel do INLD em relacao a pirataria fez-me desconfiar os limites da minha lealdade a nossa amizade ficou “pendurada” nesta angustia de ver a “nossa” cumplicidade na distruicao da propriedade intelectual e dos varios recursos que o pais perde, sao rios de dinheiro que tanto fazem falta a cultura em mocambique. é a vida dizem, mas que porra de vida é esta, sem nem aqueles que sao “poderosos” travam a isto?.

nesta coisa dos precos, ate os livros editados na aemo, patrocinados ou nao custam o olho da cara. enfim jpt, obrigado pelo retorno.

#9 jpt on 04.09.08 at 11:33


E deu para recordar o Navarro, esse “chato amável”. Que faz falta

#10 Texto para desarranjar amigos: a Associação de Escritores | ma-schamba on 10.02.08 at 17:06


[...] querer ter uma casa aberta. Ao fim de uma hora de charla entra o secretário-geral – que tem um muito particular entendimento sobre a literatura, diga-se -, senta-se na mesa sem uma palavra. Depois no final, inscrito num formalismo hoje muito [...]

#11 jorge de oliveira on 10.24.08 at 19:44


O tal de Teixeira

UM BRANCO FALHADO DOS MIOLOS

Por Jorge de Oliveira

Na sequência de uma conversa que José Pacheco Pereira, intelectual e político português, manteve, na Associação dos Escritores Moçambicanos, com escritores e amantes da literatura, um tal de Teixeira – não conheço os outros nomes – escreveu, num blog – ma-schamba.com, creio que sob sua coordenação, um artigo destinado exclusivamente a atacar-me e criticar-me.
Tal artigo, porque destituído de qualquer sentido e completamente absurdo e parvo, tal como o seu autor, merece alguns comentários.
1. É mentira que eu tenha chegado depois de uma hora de conversa. Cheguei entre as 18h15 e as 18h25, o que significa com 15 a 25 minutos de atraso, pois a palestra estava marcada para as 18h. A ignorância do tal Teixeira e a vontade de me atacar acabam por transformar alguns minutos, menos de meia hora, em uma hora.
2. Mais ignorante fica o referido individuozinho quando diz que Chilembene fica na Província de Maputo, quando, na minha intervenção, disse expressamente que tinha estado na Província de Gaza. A arrogância e ingratidão do Teixeira é tão grande que nem sequer se preocupa em saber o mínimo da geografia do país que lhe dá de comer, depois de ter fugido do seu (tal qual um cobarde e traidor da sua bandeira, se alguma vez teve bandeira – e já vou explicar porque o digo).
3. Diz, a pequena cobrinha, que entrei na sala atrasado e sem uma palavra. Ou seja, na sua destravada mentalidade, o Sr Teixeira entende que eu, depois de chegar atrasado, ainda deveria ter mandado o orador calar-se e todos na sala levantarem-se para baterem uma salva de palmas à chegada do Secretário-Geral. A tentativa de não perturbar a conversa e de respeitar quem falava e quem ouvia foi interpretada pelo Teixeira de forma diversa e acusa-me, por isso, de ter entrado calado. Que falta de consideração! Da próxima vez que chegar atrasado a um evento, entro aos pulos e ordeno que toda sala se levante e grite bem alto: Viva o Secretário-Geral!Viva o Secretário-Geral!
4. No fim da conversa, o moderador achou por bem dar-me a palavra, como representante dos escritores e dono da casa. Aceitei e disse fundamentalmente 4 coisas sobre as quais vou já pronunciar-me. Teixeira não viu com bons olhos essa solicitação do moderador. Diz no seu artigo que eu não me coibi de fechar a sessão. Como se eu o tivesse pedido ou exigido, quando, na verdade, mantive-me calado – tal como ele o disse – e só falei porque assim me foi sugerido. Quer dizer, Teixeira, primeiro, acusa-me de ter entrado calado, depois acusa-me de ter falado. Ja não sei se falo ou não falo.
5. Na minha curtíssima (2 a 3 minutos) intervenção, comecei, como educado que sou, por pedir desculpas ao orador e aos presentes pelo atraso. E justifiquei que tal atraso se devera ao facto de ter estado fora de Maputo, nas cerimónias do 75º aniversário de Samora Machel. Não disse mais uma palavra sequer, sobre a cerimónia ou sobre Samora. Apenas disse o nome porque quis justificar aonde estava para ter chegado atrasado.
6. Confesso que vi a cara do orador, mesmo ao meu lado – na do Teixeira não reparei – a corar quando falei nesse nome. Esquisito como pessoas, dirijo-me ao Teixeira, que se dizem liberais, democratas, livres, isentas de qualquer censura não toleram que outras tenham os seus ídolos. O direito à diferença, ao pensamento e à livre criação, nalgumas pessoas, significa que tenhamos que aceitar as figuras que eles veneram e pensar que tudo o resto não vale como referência. E isso é mau. Devemos aceitar que existem milhões de pessoas que gostam, adoram e, sobretudo, seguem Fidel Castro, George Bush e outros. Por muito que isso nos custe ou por muitas razões que tenhamos contra eles, devemos compreender que essas são as nossas razões, mas que o nosso próximo pode ter uma razão completamente oposta e diferente. Isso é que é o direito à diferença! Aceitar que o outro seja diferente e, sobretudo, Sr Teixeira (ignorante de meia tigela), aceitar que o outro PENSE de forma diferente.
7. O Sr Teixeira escreveu duas páginas mas, infelizmente, em nenhum momento se referiu ao conteúdo da conversa com Pacheco Pereira. Divagou sobre as suas discussões literárias na base de uma cerveja 2M e as saudades que tem de uma vida boémia que pretende ser literária. Mostra que faz parte daqueles que acham que um bom escritor deve ser um boémio, que para se escrever bem deve-se andar toda hora bebado. Mais falhado do que isso não poderia haver. A literatura, tal como qualquer outra profissão, exige disciplina, rigor e acima de tudo trabalho e sacrifício. Nada disso se coaduna com bebedeiras nem uma vida boémia como sugere Teixeira.Veja o caso de sucesso de Mia Couto – livre das farras, dos copos e das fanfarronices que Teixeira tanto aplaude. Aliás, as bebedeiras que Teixeira evoca como se de um grande feito se tratasse não se coadunam com nenhuma profissão. É um grande e terrível simplismo andar a dizer como dizem as pessoas como Teixeira: Aquele tipo é um grande profissional só que é maningue bebado. Isso é, na verdade, um tremendo e irresponsável erro. Nenhum bebado é grande profissional em nenhuma profissão – a não ser na profissão da copofonia da malta Teixeira.
8. No final da conversa, e depois de pedir as tais desculpas pelo atraso, eu disse que era uma grande honra e prazer ter um nome como Pacheco Pereira na nossa associação, a quem conheciamos apenas através do Jornal de Letras e da televisão, mas que muito admiramos pelo percurso cultural e político. Acrescentei que já tinhamos recebido José Peixoto, escritor português da novíssima geração, e um grupo de escritores angolanos e que a presença de escritores e intelectuais de outros cantos do mundo é um dos pontos do manifesto do nosso mandato. Agradeci a presença de todos e reiterei o convite para participarem nessas conversas na nossa associação.
9. Ou seja, apesar de nem sequer ser amigo do PSD (partido do orador) e ligar-me mais ao PS, como membro da FRELIMO que sou, tive a correção de elogiar o orador que não estava ali em funções políticas ou outras, mas tão somente literárias. E isso agradou-me porque acho que o intercâmbio literário com intelectuais de outras partes do mundo faz bem a eles e a nós. Essa a razão de o termos convidado para a nossa associação.
10. Tudo isso foi, para Teixeira, inútil e parte de um formalismo provinciano. Não sei, francamente, o que deveria eu dizer. Mas a gota, segundo percebi, foi ter pronunciado o nome de Samora Machel. Muito embora não tenha dito nem que Samora é bom nem que Samora é mau… simplesmente justifiquei que estive no seu aniversário… será isso um pecado mortal?
11. Já agora, com sinceridade, confesso que tenho sentido, ultimamente, muita falta do Papá Samora, como cidadão e como seguidor dos seus ideiais. Se estivesse vivo, acredito que muita coisa que está a acontecer seria profundamente combatida e que muito Filho da Puta que foge da sua terra, e vem para aqui pensar que veio descobrir África, não se atreveria a atravessar a fronteira e entrar em Moçambique.
12. Pior ainda: Papá Samora tinha a ombridade de gostar do povo português, mas a capacidade de mandar para a Puta que pariu os brancos que vinham para aqui pedir esmola (armarem-se em intelectuais) e depois queriam ver o mau onde nada de mal sequer existe.
13. Conhecido em Maputo por ter sido expulso dos serviços culturais portugueses e depois, num acto de autêntica traição, se ter juntado aos franceses, onde também não durou muito tempo, vem Teixeira, um ilustre desconhecido no mundo da cultura moçambicana, falar mal de pessoas que têm trabalhado e dado muito de si para o bem dos agentes culturais nacionais. Muito próximo do atrasado mental.
14. Pedir desculpas pelo atraso – nem é meu hábito chegar atrasado aos eventos, felicitar e agradecer o orador, explicar que a prática inicou e vai se manter e dizer que a associação continua aberta para esse tipo de conversas livres e desprovidas de qualquer preconceito ou alinhamento foi tudo um erro meu, julga Teixeira.
15. O correcto é ele, que teve o trabalho de escrever duas páginas, mas nem sequer uma palavra sobre as sábias palavras que Pacheco Pereira disse. Esquivou-se completamente do conteúdo, o que é característico de quem tem habilidades insuficientes: atacar a forma e deixar o conteúdo de lado.
16. Volta para a tua terra, Teixeira! Estás aqui a ocupar o lugar de moçambicanos que precisam de trabalhar para sustentar as suas famílias. Se não te aceitarem receber em Portugal (o que parece ser mais provável) procura um país árabe ou asiático, pode ser que te cortem essa cabeça vazia e desmiolada mais rápido.
17. E se por acaso esse artigo tiver tido a mão, concordância, anuência ou sugestão do Pacheco Pereira, vão os dois para a puta que vos pariu!

#12 jorge de oliveira on 10.24.08 at 19:57


Quanto ao meu artigo, publicado no Savana este ano, mas escrito por mim há dez anos atrás

Não é verdade que tenha apelado à não leitura como diz o Cabrita. Se lerem com atenção o meu artigo irão reparar que digo que ACHO A ESCRITA DE SARAMAGO CHATA E PESADA. Portanto se a acho chata é porque já a li – não podendo ser verdade o que o Cabrita diz quanto ao meu apelo de Não leitura. Seja como for, mais uma vez, os DONOS da liberdade não se mostram tão livres assim: querem obrigar-me a gostar do estilo de Saramago, ou chamar-me ignorante (Teixeira usa uma figura de estilo e diz que tenho um particular entendimento sobre literatura) por dizer aberta e publicamente que NÃO GOSTO DO ESTILO DA ESCRITA DELE. Meus caros, ainda temos muito que aprender no que diz respeito ao respeito, com respeito, pelas opções dos outros.

#13 jpt on 10.25.08 at 4:36


Um ponto sobre este longo texto:

o orador Pacheco Pereira não tem rigorosamente nada a ver com o conteúdo das minhas afirmações e das minhas interpretações. Nem implicita nem explicitamente. E sobre o evento para o qual foi convidado na AEMO só posso testemunhar o seu agrado pelo convite (a priori) e pela realização (a posteriori).

Apenas porque este texto foi aqui depositado registo que o secretário-geral da AEMO – escrevendo nessa condição como o indica o facto de usar o endereço electrónico e o sítio informático da instituição como referências – se permite insultar brutalmente alguém que acaba de aceder a um convite da associação para ali se deslocar. Insulto ainda para mais assente numa mera conjectura, uma suposição produzida por um pobre pensamento, o da associação de ideias. É, estou certo, uma inovação na história da respectiva instituição.

Sobre a restante prosa, que me é dedicada, passo. Como se compreenderá sem comentários nem ênfase.

#14 | ma-schamba on 10.25.08 at 4:49


[...] comentários deste texto o secretário-geral da AEMO deixou o “Um Branco Falhado dos Miolos“, seu texto que me [...]

#15 Gonçalves Matsinhe on 10.29.08 at 15:27


Perante o que li acima, peço que me desculpem por intrometer-me logo eu, um “leigo” em muitas coisas principalmente no insulto barato.

Mas o Jorge é infeliz. É infeliz na forma como reage à crítica que lhe fazem, e é infeliz na tentativa de fuga que faz sobre o que já leu e o que não leu.

Palavra lançada não volta. Escrita então…

Não é com reacções do género da primeira do ilustre Jorde de Oliveira, secretário geral da associação dos escritores, que se engrandece a agremiação que representa!

Também admiro Samora! Envergonho-me de ter um co-admirador como vossa excelência, Jorge. É que o Samora que eu admiro era educado embora agressivo nas suas abordagens. O Samora que eu admiro não racializava o seu discurso nem o xenofobizava.

O Samora que eu admiro, dizem, sabia ouvir e dava valor à crítica. Não se vitimizava perante os seus críticos antes pelo contrário.

Samora não insultava os seus convidados, tratava os com diligência mesmo quando os via pelas costas. Ao contrário de si.

Jorge, você mente quando diz: “Se lerem com atenção o meu artigo irão reparar que digo que ACHO A ESCRITA DE SARAMAGO CHATA E PESADA. Portanto se a acho chata é porque já a li – não podendo ser verdade o que o Cabrita diz quanto ao meu apelo de Não leitura.” pois vossa excelência diz, no tal texto, que “nunca li Saramago” e que “não se envergonha de o dizer”. Diz também que acha o “seu (de Saramago) estilo pesado e chato.”

Não abonam à sua intelectualidade, que se supõe, “Se não te aceitarem receber em Portugal (o que parece ser mais provável) procura um país árabe ou asiático, pode ser que te cortem essa cabeça vazia e desmiolada mais rápido” do insulto a um (ou serão 2?) portugues V.Excia “viaja” para dizer que os asiáticos e árabes são cortadores de cabeças.

Ao que sei V.Excia para além de escritor (será?) é jurista. Mais do que a qualquer desmiolado, isso devia lhe fazer MAIS comedido nas afirmações e reacções, pelo conhecimento que tem (ou devia ter) das consequências que podem advir da atribuição de comportamentos e qualidades que podem ser tomadas por caluniosas ou serem mesmo caluniosas.

Mais enfim. Mesmo os escritores podem se enganar como eu me enganei ao pensar que a responsabilidade de o Jorge ser o que é lhe tiraria a aura de arruaceiro e o fantastackismo que o caracterizava há uma década.

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