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Um perspicaz artigo de António Cabrita sobre o estado da discussão, da divulgação e, fundamentalmente, da apreensão da literatura moçambicana.
Algumas coisas são óbvias, e acho que ultrapassam a questão “geração Charrua”: os escritores não são ecoados pelo “meio literário” (seja lá isso o que seja). Calane e Panguana escrevem romances e são seguidos pelo silêncio. Muianga publica amiude e não é retratado. Mia Couto é discutido pelo que escreve nos jornais. Sobre Borges Coelho há um silêncio - como refere Cabrita - tonitruante, que é coisa assente desde o princípio da sua publicação. Andes Chivangue, que acho o mais excitante dos novos prosadores, desaparece sob o mesmo silêncio. Muiambo que era cronista onde andará, quem o convoca? Aos novos poetas apaga-se-lhes a imagem depois do cocktail inaugural a la Mcel.
Todo este silêncio dever-se-á às práticas editoriais. Mas algo terá a ver com os jornais. O fugaz Meia Noite apostou na recensão e reflexão sobre literatura, mas morreu. A Proler foi incapaz de ressuscitar. Ficou o ainda recente suplemento cultural do Notícias, o qual não deu o salto qualitativo que prometeu - muito provavelmente por ter um espectro de atenção muito vasto para os recursos humanos de que dispõe. O resto da imprensa escrita esvaziou-se. Os especialistas em estudos literários raramente escrevem para o jornal (e não há revistas académicas da especialidade) e quando o fazem quase sempre ficam prisioneiros do jargão e da problemática científica, afastando os leitores leigos. Talvez por isso os jornais procuram a publicação dos textos destinados às sessões de lançamento das obras, que são quase sempre textos de ocasião. Ou seja, a saudável recensão, com ou sem arremedo crítico, inexiste.
Mas o silêncio sobre as obras não se restringe à falta de trânsito entre os pequenos grupos literários ou ao esvaziamento das secções culturais da imprensa - ou a questões identitárias mais vastas. Há uma dimensão sociológica nada despicienda, ainda que aparentemente pueril: o meio literário é muito pequeno (bem mais do que o são outros meios similares, como o das artes plásticas ou da música), qualquer crítica não absolutamente positiva culmina na poluição de relações pessoais diádicas. E o ethos contextual não admite senão a adesão ilimitada - nem mesmo em conversa, quanto mais em publicação.
Finalmente: a própria página cultural do Savana, jornal onde Cabrita (e vários escritores) publica é demonstração da pobreza de abordagem. Há semanas ali se elogiava como “bela prosa” um breve ataque a Saramago - djanovista (o escritor era menorizado por desrespeitar a Igreja Católica, assim se subordinando a literatura às posturas políticas e públicas); algo xenófoba (se por cá há bons escritores para quê lê-lo? O Nobel deveria ter sido atribuído a Craveirinha!) e acima de tudo apelando à não-leitura como critério de avaliação literária: “É que nunca li José Saramago. (…) Há escritores mais originais e criativos (…) Mais bonitas, mais criativas e com conteúdo muito valioso.” Entenda-se, nem discuto o texto de Jorge Oliveira (cujo “Fazedores de Almas”, feito com Panguana, lhe demonstrou conhecimento do panorama literário nacional), o qual até pode ter sido um mero desabafo (a irreverência final do texto é absolutamente rara no panorama jornalístico moçambicano, Fernando Manuel à parte, permitindo-me esta dúvida). O realmente interessante é que tamanho pacote foi elogiado de modo literal no Savana, jornal cheio de literatos ali colaboradores residentes e, que eu tenha reparado, nenhum achou pertinente colocar em discussão o espartilho (aparentemente?) preconceituoso assumido pela redacção do jornal (o texto não é assinado pelo que é da redacção, não é assim?). E, se assim o é, porquê o espanto com o “estado da arte”?

9 comments ↓
Belo artigo e belo comentário.
Pela minha parte, confesso que só consegui interpretar a apresentação do Savana ao velho artigo de Jorge de Oliveira (”pedaço da sua bela prosa”) como uma ironia bem assassina (”para que os leitores possam travar contacto com o pensamento de”).
Afinal, não se vai desenterrar uma demonstração de inépcia crítica publicada há 10 anos atrás para dizer bem de ninguém…
Eu hesitei: ou é uma ironia provocatória no texto (como digo acima, dou-lhe o “benefício da dúvida). Ou era uma ironia do jornal. Mas duvido muito das ironias em surdina, e esta a sê-lo foi-o assim. Mas ainda que o fosse … está num jornal (numa peça elogiando o Jorge Oliveira) e ninguém nele se interroga sobre o efectivo tom do texto?
That’s life. Maybe also politics.
É verdade: comprei o novo livro do João Paulo Borges Coelho a um preço bem mais razoável do que aquele de que te queixaste (e que também vi), numa outra livraria que até tem fama de ser careira, ali para a Julius Nyerere.
De 330 para 550, convenha-se que a diferença é quase um roubo. Aparentemente, praticado pela “livraria de referência” de Maputo…
1. sim, talvez seja política. Mas sobre a associação de escritores moçambicanos: não sou associado, não sou escritor, não sou moçambicano. Ainda assim um tipo pode opinar - em abstracto não vejo por que não há-de ser um jornalista do meio o secretário-geral (é uma questão que não levantas, mas houve para aí uma polémica). E se gosta ou não da tammaro também não me parece muito relevante. A priori poderá fazer trabalho, e se os associados o escolheram boa sorte. O que me parece estranho é que gente que bate bem em tantas coisas não discuta estas (que serão até bem mais estruturais, na minha enviesada opinião [ou enviezada?]).
2. do preço dos livros acho melhor nem falar mais - a colectânea de Fernando Couto custou-me 300 meticais no polana shopping e está a 200 no maputo shopping. O grupo livreiro é o mesmo, a editora a mesma, o tempo decorrido para aí uma semana. E ninguém discute a política do preço do livro. Um tipo é estrangeiro, resmunga e compra se quiser. Já agora, protesta-se na livraria e dizem-me, e apenas cito, que é a editora que lança os livros assim e depois de duas ou três semanas os envia mais baratos. Assim como se estivessemos em Nova Iorque ou isso, a comprar o Grisham ou o Roth, ou o Harry Potter, fresquinhos da tipografia. Face ao mercado que existe (1000 exemplares é um luxo) isto é um total desrespeito face ao pequeno grupo de clientes das editoras, que se sentirão enganados.
Já agora, eu participei na organização de um lançamento de um livro de ciências sociais que vendeu quase 350 livros no dia do lançamento - num mercado destes se as editoras se mexessem no lançamento, com meia dúzia de chamussas e duas ou três JC LeRoux vendiam e bem as edições. Mas são incapazes de o fazer, de actuar num mercado deste calibre - toca de pedir patrocínios e vender as edições assim pagas a preços normais e de sobrecarregar as não patrocinadas.
Repito: um gajo é estrangeiro e compra se quiser.
jpt, interessante a tua abordagem, nao li o savana, nao posso comentar acerca do texto e nao assisti ao debate referenciado pelo “confrade” cabrita. so que as vezes nao sei onde a “cena” de ser estrangeiro “mistura-se” com o teu “direito” a opiniao como leitor e residente em mocambique , para nao falar do teu activismo cultural, quando trata-se de falar da cultura, e acho que o teu direito como consumidor podias ser mais critico.
Conheco muita gente que escreve e le em maputo. fazem-no clandestinamente? talvez, mas fazem-no segundo as condicoes do mercado. o livro esta caro em maputo, um preco quase abusivo. existe um decreto que isenta o livro de alguns impostos, principalmente quando importado e os livros de producao nacional tambem, uma proposta bem mais “profunda” foi feita pelo Julio Navarro, trabalhei com ele nisso. pena que o julio ja nao esta entre nos, ele que era uma biblioteca viva, da boa leitura e de boas maneiras, coisas que hoje “fazem falta”. eu conheci uma pessoa muito seria nesta coisa de edicao e distribuicao do livro, o sr. aboobakar da leia comercial, zangou-se com muitas “trafulhas” do sistema e retirou-se, mas foi um grande mecena, para muitos jovens autores. que a questao merece um debate amplo todos nos concordamos, mas temos uma politica de cultura quase que inexistente. so que falar da politica do livro, significa falar da estrutura, para isso nao ha mecenas, nao ha inspiracao que traga gente com vontade e lucidez, a elite intelectual esta na vanguarda de um capitalismo que empurra-nos para o mais fraco no jogo das prioridades da vida e aqueles que ainda conseguem ficaram com activismo pela cultura “one-time and fast”.
sobre a “guerra” das geracoes ou de Escritores, nao entendo, tambem andei metido nessa “bagunca” de legitimidade, eram os tempos de nao sei “o que”. a aemo existe porque o pais existe, e um pais existe porque tem seus escritores. tenho pena daqueles escritores dignos, que pela geografia do discurso e da escrita sao “tomados” como da periferia, porque o pais esta longe nao na sua grandeza mas no talento que se esconde no km que separam maputo do mundo da provincia.
Terás razão quando dizes do direito à crítica enquanto estrangeiro. Aqui separo duas abordagens:
1. a denúncia (mais no sentido da resmunguice) face aos destratos empresariais (e até individuais), que vou fazendo ao sabor do meu mau-feitio.
Será necessário dizer que editores e livreiros não são do pior: empresas como os bancos, a mcel, a tvcabo, etc, continuam com óbvios tiques destratadores de clientes que me parecem provir de uma velha mentalidade monopolista, “herdada” (não sei se o é, se é mera cupidez imbecil) da mentalidade de regimes de concessão ou socialistas anti-concorrenciais.
2. um outro nível, bem mais importante, e que afloras no teu comentário, remete para uma discussão mais profunda - a da actividade legislativa e fiscalizadora, mas também indutora, das instituições estatais no domínio da cultura (e isto sem derivas estatizantes), do funcionamento do ministério da (educação e) cultura. Aí sim poder-se-ia resmungar algo, propôr mais - mas há um silêncio quase geral, não me apetece andar a pontapear pedras enquanto meteco. Francamente a última vez que ouvi falar do INLD do meu amigo Boaventura Afonso foi quando conseguiu aprovar a lei do selo e promover o confiscar de largos milhares de produtos piratas audio e visuais. O que aconteceu? Foram, surpreendentemente, devolvidos aos comerciantes, por estranha decisão administrativa. Que fazer quando o próprio Estado ultrapassa os seus sectores que procuram viabilizar uma política de protecção dos produtos culturais? E de os entender como também produtos económicos e, até, de financiamento estatal? Honestamente não quero começar a discutir isso, como acima te refiro
Finalmente, onde há uma instituição ou associação verdadeiramente actuante de protecção dos consumidores?
Leitura e escrita - há, evidentemente, muita gente que lê. Trabalhei em duas bibliotecas da cidade, trabalho numa universidade. Sei que se lê muito mais do que os gemidos da ileitura actual afirmam (são gemidos de geração, “no nosso tempo é que se lia”, e que não são tipicamente moçambicanos, como é óbvio, encontram-se por tanto lado). E presumo que se escreva - também por isso o entusiasmo, se calhar algo desproporcionado, com isto dos blogs, em particular dos blogs aqui: acredito muito mais (ou interessa-me muito mais) nas possibilidades de auto-edição (e de indução da escrita/leitura) destes do que na sua vertente político-jornalística (também importante, mas a jusante da questão).
Nisso tudo não defendo nada que se deva ler melhor. Apenas que se deve ler mais ou melhor ainda, proporcionar a hipótese de ler mais. Não acho que sejam as editoras e os livreiros a terem essa responsabilidade - mas caramba, a porem o dedo na balança à velho cantineiro não vão lá (e até se inviabilizam a médio prazo). Ou seja, sublinho o que dizes dos trafulhas do sistema. Mas não só - há inacreditáveis problemas de distribuição que se devem não só a questões de “trafulhice” mas fundamentalmente de inércia. Como é possível ir à Escolar Editora à procura de edições recentes da AEMO (do outro lado da rua) e lá me dizerem que pedem os livros e eles não vêm (são coisas de há não muitos anos) Como é possível encontrar escondido um “Mulungu” do Adelino Timóteo, lançado há poucas semanas, numa livraria e ele não existir (e em escaparate) nas outras do mesmo grupo. Como é possível os livros premiados estarem esgotados na altura e assim ficarem? E já nem falo da inexistência de distribuição nas capitais provinciais.
E quando as grandes empresas (HCB, telefónicas, bancos) aventam possibilidades de patrocínio de livros e sua distribuição e da parte dos editores não haver resposta imediata, deixando morrer os compromissos ou vontades assumidas.
Ou seja, nem é um problema de trafulhice, é fundamentalmente um problema de atitude, de amadorismo, de desprendimento.
Insisto um pouco: há um ano organizámos um lançamento de um livro de ciências sociais. Vendeu-se nesse fim de tarde dois terços da edição (e a preço de livraria). O editor surpreso, nunca vira algo assim. Claro que o autor ajuda ao impacto, mas a gente não se pergunta do por que não se fazem assim as coisas? Isto não vai com crítica ao editor (que até é amigo) mas sim com lamento ao amadorismo que vai continuando no reino da edição.
Enfim, obrigado pelo comentário. E pelo espicaçar
jpt, concordamos em muitas coisas. durante algum tempo aventurei-me nessa de distribuidor de livros de autores mocambicanos, fiz com o navarro e o seu gabinete tecnico. foi uma experiencia impressionante, a unica livraria seria com a qual trabalhei foi a minerva central, o resto foi quase um pesadelo, “aprendi” a empurrar a minha vontade de amante dos livros mesmo sabendo que a quem vendo nem “esta ai”. O papel da AEMO na distribuicao e divulgacao de autores é um caso serio. meteu-se na venda para salvar os autores, mas acabou tornando-se o “inimigo economico” do escritor, mas como navarro dizia: a cultura do livro jorge, falta.
prontos, do INLD nem quero comentar. o boaventura é boa pessoa na conversa, um amigo bom. mas o papel do INLD em relacao a pirataria fez-me desconfiar os limites da minha lealdade a nossa amizade ficou “pendurada” nesta angustia de ver a “nossa” cumplicidade na distruicao da propriedade intelectual e dos varios recursos que o pais perde, sao rios de dinheiro que tanto fazem falta a cultura em mocambique. é a vida dizem, mas que porra de vida é esta, sem nem aqueles que sao “poderosos” travam a isto?.
nesta coisa dos precos, ate os livros editados na aemo, patrocinados ou nao custam o olho da cara. enfim jpt, obrigado pelo retorno.
E deu para recordar o Navarro, esse “chato amável”. Que faz falta
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