João Paulo Borges Coelho ganhou o Prémio Leya

João Paulo Borges Coelho acaba de ganhar o Prémio Leya, no valor de 100 000 euros. O prémio foi atribuído ao romance inédito “O Olho de Hertzog“, uma narrativa aventurosa decorrida no final da I Guerra Mundial entre Moçambique e a África do Sul, concertando a fantástica epopeia do General von Lettow-Vorbeck, o que o torna o grande romance da I Guerra em português, com uma fabulosa e minuciosa construção do Lourenço Marques de então, onde avultam personagens – entre as quais o vulto Albasini, figura lendária das letras locais – cuja múltipla origem transforma a cidade assim criada como um centro do mundo. Sendo uma demanda até policial o livro é um manifesto, da grandeza do local.

JPBC é uma grande figura da prosa ficcional em português. Uma obra muito cuidada, tecida com saber e imaginação e muito interpretável. Escapado – desde o seu primeiro livro – aos exotismos do escritor africano. Merece muito mais atenção, muito mais leituras, do que aquela que lhe vêm dando, do que aquelas que tem tido.

Espero que o prémio “abra os olhos” da sua editora para a sua divulgação em Portugal (onde é secundarizado – como constato cada vez que defronto os escaparates portugueses). E também aqui em Moçambique, onde os seus livros chegam a inexistir – ainda que agora, finalmente, comecem a sair as reedições locais. E que seja editado no Brasil, onde estranhamente ainda não o foi. Que eu saiba vão-se aprontando uma tradução em catalão e uma outra em italiano. Tudo isto manifestamente pouco.

[Depois, ele é um tipo fantástico. E isso também vale imenso, ainda que não lhe melhore os livros].

Abaixo ficam as capas dos seus livros. No fim da colecção ficam as suas longínquas bandas desenhadas, um mundo mais antigo mas que de quando em vez regressa – como um pouco neste lindíssimo “O Olho de Hertzog“. Vão lá lê-lo, ao autor, vão lá lê-los, aos livros.

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12 comments ↓

#1 Amélia Russo on 10.13.09 at 21:23


Estou mesmo feliz por ele! Merece mesmo….Como se diz em cima, nao é suficientemente conhecido, mesmo em Moçambique!

#2 Ermelinda Garrido on 10.13.09 at 21:44


Não imagina como esta notícia me agrada.
Um abraço.

#3 Olga on 10.13.09 at 22:17


Eu também fico muito feliz com a notícia. Finalmente!

#4 cg on 10.13.09 at 23:22


porra, parabéns mesmo!

#5 Paulinho Assunção on 10.14.09 at 0:42


Desde Belo Horizonte, a minha felicidade pelo prêmio ao João Paulo. Muitos e efusivos parabéns para ele.

#6 ABM on 10.14.09 at 2:37


Gostava de, sem por um momento estragar o tom merecidamente festivo do momento, chamar a atenção para o seguinte:
1. Contrariamente ao JPT, que é um convertido, a julgar pelo entusiasmo e acompanhamento assíduo da obra de JPBC, eu conheço mal a pessoa e obra de JPBC, que parece ter um conteúdo bastante evolutivo, sendo que pela críptica descrição dada (esta obra é inédita) a temática “cai” finalmente perto da área de especialização do Autor. Como eu, deve haver legiões de gente que ainda conhecem mal a pessoa e a obra (para caçar uns dados biográficos mínimos e uma fotografia pequerrucha tive que ir pescar uma entrevista de 2006 num outro site. Ou seja, tirando esta distinção, ele ainda não é suficientemente conhecido.
2. Surge agora uma oportunidade preciosa de promover a pessoa e a obra. Mas -ah – ele vive em Moçambique e a não ser que isto seja um Nobel e não um Leya, o potencial mercado nº1 desta obra é Portugal – onde há gente que se interessa pelo episódio de von Vorbeck e dinheiro para comprar o livro que há-de sair. Ele tem que aprender umas coisas com o Mia, que faz “shuttling” para Portugal regularmente e onde, cnsequentemente, é muito conhecido e apreciado.
3. Isso implica que a editora dele vai ter que se mexer e fazer um bocadinho de jogo de cintura. Vender livros cá provavelmente devia ser a prioridade cá, bem como o JPBC meter-se num avião e vir cá dar as entrevistas da praxe na televisão.
4. Infelizmente, até com os autores moçambicanos mais consagrados, a venda de livros em Moçambique, por os mesmos serem obscenamente caros para a bolsa de 90% dos moçambicanos (que ainda por cima não lêem tanto quanto se gostaria acontecesse) acaba por ser quase residual. É um dos maiores paradoxos do “publishing business” moçambicano e Mia é se calhar também o melhor exemplo desse paradoxo.
4. Para além da entusiasmada inserção do JPT e do que eu li, pouco ou nada mais se sabe sobre o livro premiado, para além da menção do nome de Lettow von Vorbeck, do de Albasini (o João?) e quanto ao Hertzog fico sem perceber se é o legendário general boer (não lhe conhecia laços com Vorbeck para além de um leve grau de germanofilia, por contraste com Smuts) ou aquele piloto alemão maluco que voava para a empresa Rudolph Hertzog e que foi apanhado na actual Tanzania em 1914.
5. Portanto parabéns e boa sorte. Como dizem os americanos, “your luck has just started” =)

#7 jpt on 10.14.09 at 2:58


1. o livro é inédito
donde
4 (bis). pouco se sabe do livro

ainda
4 (bis). os pormenores leremos quando sair o livro

Sobre 4 (verdadeiro) Os livros em Moçambique náo se vendem aos milhares. Mas podem-se vender mais ou menos. Por outras palavras, podem ser vendidos ou não. Espero que este (e os outros) venham a ser mais vendidos

Finalmente 2/3 – náo se trata de aprender com o Mia. Trata-se da editora promover o autor. Chego aí e – no “segmento” escritores africanos em língua portuguesa (que é coisa da comercialização, e nada mais) – vejo nos escaparates os livros do Mia (que tem mercado antigo) e do Ondjaki (que, para náo dizer mais, está no início), do Agualusa, e do Luandino (o Camoes faz vender, pronto) De vez em quando apanha-se o Manuel Rui e o Ruy Duarte (entao este quase nunca). Acho um absurdo, sem me por a valorizar

Acho um absurdo editorial num mercado que vende meia dúzia de milhares de exemplares chegar a Lisboa na altura do Natal, querer comprar livros do jpbc para oferecer e não existirem nas livrarias mais centrais. Dos outros mais badalados há – repito, estou a falar de um “segmento” que tem apenas validade enquanto rótulo comercial.

E acho muito mais absurdo um livro ganhar o premio nacional de literatura em Moçambique, estar esgotado e assim continuar um ano.

Como vês não tem a ver com um autor aprender a comercializar ou não. Trata-se de uma editora ter ou não unhas para o grande catálogo que tem.

#8 O Prémio LeYa 2009 visto pelo blogue moçambicano ma-schamba | Bibliotecário de Babel on 10.14.09 at 9:47


[...] O texto completo pode ser lido aqui. [...]

#9 A B de Melo on 10.14.09 at 14:21


JPT – Escapou-te a leve (ah tão leve) mas crucial ironia no que disse acima sobre o JPBC aprender com o Mia. São percursos completamente diferentes. Destaco apenas a necessidade de potenciar esta fantástica oportunidade de promoção, em que a editora e o autor têm que desenhar uma estratégia … na face dos precedentes que tão sucinta e magistralmente relataste.

Presumindo que a obra é tão boa como o júri da Leya diz que é.

Sr Bibliotecário de Babel – Albasini “figura lendária das letras locais”? está a falar de quem? “o” Albasini que conheço foi um português das arábias, uma conhecida figura histórica do relacionamento entre os portugueses proto-coloniais e os boers da República Sul Africana. Morreu muito antes de von Vorbeck meter um pé em África e não consta ter produzido “letras”.

#10 jpt on 10.14.09 at 14:35


ABM não me escapou a tua ironia. Apenas achei necessário reforçar a canelada (tipo “entrada a pés juntos” em futebolês – e que ganhemos a Malta) na editora

O Albasini lenda das letras locais é do meu texto e não do BB. E estás equivocado

#11 Gisela Scheinpflug on 10.16.09 at 9:15


Fico feliz com essa premiação. Me encantei com As Duas Sombras do Rio e aguardo ansiosamente a possibilidade de ler este novo livro de JPBC.
Pena que no Brasil, país de minha origem, seja tão difícil chegar esta literatura. E pena também que em Tete, onde resido, o preço dos livros sejam impraticáveis até mesmo para os estrangeiros que lá vivem. Aguardarei a oportunidade de comprá-lo em Maputo.

#12 Antonio Bure Simango on 03.09.10 at 9:43


Estou lendo neste momemto o Meridiao,Indicos Indicios II. Devo confessar que o premio Leya, atribuido ao seu romance ” O olho de Hertzog” e apenas o culminar dum grande reconhecimento de Joao Paulo Borges Coelho, como um dos mais concorrentes autores da Literaratura mocambicana. Merece-lhe o premio e mais, porque nas suas diferentes narrativas descreve com arte e paixao, a cultura e gente de Mocambique, como se as palavras estivessem a sair da boca dessa gente, que parte dela, talvez nem sabe que cada conversa que teve com o autor n ao foi em vao.

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