A Ilha de Moçambique, por Eduardo White

omanualdasmaos0001

 

Eu gostava de poder fugir a esta realidade tão fulminante. Dizem-me os amigos para enfrentar o problema, para agarrar o touro pelos cornos. Aliás, dizem-no sempre quando isto não é o que se passa com eles.

(…)

Penso, como consequência, em partir. Para onde? Não sei, se tivesse dinheiro era para uma ilha. A minha ilha, Moçambique. É bela. Antiga. Magistral.

Vejo-a:

(…)

A ilha suspende-se entre o vento e um negro reluzente cruza a praia com os olhos lavrando as areias. Não sei se reza, mas que pensa é mais que evidente. Testemunham os brancos cabelos e as mazelas no caqui dos desbotados calções. Cheira a marisco a brisa que inalam as narinas dentro desta paisagem e a cânfora, alguma, das memórias que ela desenha.

As redes que sobre o chão encontro estendidas, são cartas oceânicas que escreve o fundo do mar. Do texto salta a prata dos peixes, o verde amaciado das algas e uma estrela imóvel que explode, por dentro, a terra toda a girar. Claro que a areia as grava. Nossa forma de escrita mais milenar que a geringonça mágica de Gutemberg. Porque Deus descansa aqui, ao cair da noite. Silenciosamente medita por entre as lágrimas das tartarugas que junto a ele vêm desovar, ou de um negro mácua, estirado sobre o desgosto, a chorar um amor que, por teimosia, não quer morrer.

(…)

Por isso a Ilha é calma. Tonta de tanta quietude e, talvez, será o que querem dizer as faces delicadas das suas negras, as mãos talhadas dos seus ourives.

Assim, o meu velho Camões, macúa zarolho só por ter visto sempre demais, terá, talvez, ali, amado seu negro, seus humanos adamastores e com eles provado essa fatalidade incontornável de ser poeta sem ilha na ilha extensa dos que nela, até hoje, não o sabem ler.

Mas era para lá que eu queria partir.”

[Eduardo White, O Manual das Mãos, Campo de Letras, 2004, pp. 61-62]

3 comments ↓

#1 isg on 05.07.09 at 13:21


voxê tá tite | tá xateado | tá enraivexido | tá kualker-coisa-axim e ixo num vale e prontu.

#2 AvôJoão Melo on 05.07.09 at 17:42


…ainda hei-de ir um dia lá a essa ilha!

#3 Amélia on 05.07.09 at 19:58


Eduardo, sempre…O grande poeta…

Leave a Comment