Este blog é um diário

Imediatamente abaixo referi um texto de Carlos Serra. Nele se gerou uma longa troca de comentários. Um comentador - que sendo anónimo o é por razões bem mais justificadas do que o corrente lumpen anónimo que habita nas caixas de comentários -, meu antigo aluno, acusa-me de ser homófobo nas salas de aula. Pedi-lhe que me informasse, pela via que entender, do teor dessas minhas atitudes.

Elas poderão ser contra-interpretadas. Eu posso-lhes dar outro sentido, outros também o poderão fazer. Outros ainda atribuir-lhes-ão o mesmo sentido do aquele que o comentador afirma. E até outros significados. Mas isso nunca fará esquecer o facto de eu ter ferido a sensibilidade de alguém no meu exercício profissional, ainda para mais no seio de uma relação tradicional e institucionalmente assimétrica como o é a relação docente-discente.

Não conheço ainda (mas espero vir a conhecer) o exacto conteúdo daquilo que o meu ex-aluno refere. Mas nisto das sensibilidades pessoais pouco há de “certo” e “errado”, dificilmente se poderá apelar a um “ponto de vista superior”, de suprema racionalidade, que sobre a sua justeza arbitre. Assim sendo nunca poderei, em perfeita consciência, contra-argumentar. É(-me) óbvio que independentemente da minha opinião, da minha interpretação, da minha retórica (a posteriori) o agressor fui eu. O ónus da incorrecção, do impensamento, da insensibilidade, é meu. Sobre mim incorre (est)a vergonha. A exigir-me um doloroso (e envergonhado) “mea maxima culpa“.

Espero que o meu ex-aluno me transmita o conteúdo do acontecido. Porque isso poderá ser contra-argumentado, contra-interpretado. Talvez (espero) permitindo matizar a sua opinião, a sua interpretação. Ou talvez não (temo). Mas nunca, claro, apagando o que acima digo. Porque uma coisa é um diálogo sobre determinada acontecimento, situação ou argumento, outra coisa é a aceitação da legitimidade da ocorrência de algo que é entendível como uma agressão (se voluntária ou involuntária é, neste caso, algo perfeitamente secundário).

É-me ainda referida a autoria de textos homofóbicos. Com isso não posso concordar. Das atitudes, contextualmente enquadradas e irrepetíveis para posterior consideração, já referi o quanto me é crise as suas possíveis interpretações. Mas os textos não. Ainda que eles não sejam separáveis do seu autor - sê-lo-ão no caso de grandes artistas, mas decerto que não no deste bloguista - eles são interpretáveis, contra-interpretáveis, revisitáveis. Racionalmente apreensíveis, assim discutíveis. E, francamente, concorde-se ou não com eles, apreciem-se ou não, não posso concordar que neles se encontrem traços fóbicos. Ou seja, nesse domínio sinto-me absolutamente livre para contra-argumentar, e considerar essa imputação uma tresleitura.

Este blog é um diário. Terrível nos dias em que o espelho não me mostra, afinal, tão belo.

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