O Golo do Maniche

(um canto, o jogador corpo reclinado, a mão sobre sobre a bola, um óbvio “canto curto” de marcação rápida: no sofá onde nos acotovelamos entre beatas, garrafas e acepipes vários, grito à passagem para uma tonta “câmara lenta” - “o jogo está a correr…”, e logo logo, golo, ouço-o até no rádio da rua)
Uma “repetição” num canto, toda a gente sabe que não se faz. Nunca. E principalmente numa meia-final do euro, não falo do marítimo-penafiel (é sabida a tradição da rtp-madeira em falhar os golos nos Barreiros). Mas não o sabe Rogério Borges, o realizador que esteve até ao momento à frente de nove jogos da competição e terá a seu cargo a partida da final no estádio da Luz. E mais, ainda tem a desfaçatez de se justificar: “Houve uma bola fora e nestes momentos tentamos passar repetições, que fazem parte do espectáculo” (!!!!, pois!!!). “Mas trabalhamos em cima de brasas, as escolhas têm que ser feitas em segundos” (pois, isso já se sabe). E, cúmulo, culmina “Quando acabou o jogo estava um bocado frustrado por não ter televisionado o golo todo de Maniche” [um bocado???!!!!].
Em qualquer país civilizado este homem seria imediatamente preso, depositado nas masmorras das Berlengas locais, onde durante alguns anos seria roído por ratazanas, torturas, fomes e tuberculoses variadas, até que por indeterminada decisão seria estrangulado ou decapitado, os restos mortais esquecidos em vala comum. A família, confiscados todos os seus bens, definharia num sítio ermo em total miséria, propícia esta ao alquebrar moral de qualquer filho varão, impedindo-lhe devaneios de conspirações vingativas. Atingida a idade adulta seria, ainda assim, desterrado nos mais desgraçados locais para que febres ou atentados viessem a exterminar o nome de família.
Em Portugal o tal de Borges estará amanhã pronto a repetir dislates.
(sobre o indivíduo ver excelente texto, abaixo transcrito, do Cidadão Manuel Correia Fernandes. Haja gente assim.)
As Deficientes Transmissões
Sábado, 03 de Julho de 2004
Público
As televisões têm que estar atentas ao fenómeno do futebol e tirar dele o maior rendimento. Mas devem fazê-lo com sentido profissional e com qualidade de espectáculo. Que não são a mesma coisa. O primeiro mede-se pelas regras que são impostas; o segundo pelo atenção a avaliação do público espectador. Um bom profissional pode não ser um bom informador ou disponibilizador de boa informação. Pode fazer o que deve (isto é, o que lhe mandam), mas não o fazer bem, ou pode isso não ser o bem. Ou fazer bem, mas não mostrar o que deve.
Nas transmissões dos jogos do Europeu temos assistido a processos verdadeiramente inconcebíveis. Substitui-se o essencial pelo acessório; o geral pelo pormenor, as jogadas fundamentais por um pequeno nada que apenas interessou à avidez vácua do homem da câmara ou à pretensão exibicionista do seleccionador de imagens. Desta forma, ao longo de um desafio, vemos dúzias de cuspidelas, centenas de costas de jogadores, não raros palavrões agressivos e malcriados, saltos de treinadores, os grandes gestos universais. Deixamos de ver jogadas interessantes para nos ser mostrado um inútil pormenor técnico. Já se têm dado casos em que, para apresentar pela terceira vez uma repetição, se esquece que o jogo está em andamento e às vezes em lances perigosos ou interessantes.
Nisto, parece que a pior estação tenha sido até agora a RTP, que abusa destes processos, talvez porque possa dispor de mais meios técnicos. O que mostra que nem sempre a técnica é produtora de qualidade ou de sensibilidade televisiva.
Ora importa pensar que também neste aspecto o futebol é um jogo de equipa, e não uma exibição de pormenores individuais. Tudo o que é excesso de individualismo prejudica o espectáculo. As condições dos estádios agora (o que não acontecia em alguns estádios dos clubes portugueses, cujas transmissões eram ridículas e desgostantes pela má colocação das câmaras) permitem planos que ajudam o espectador a avaliar o jogo de conjunto. Os planos de pormenor devem reduzir-se ao necessário para esclarecer uma jogada, para confirmar ou infirmar um julgamento do árbitro ou outro dado que seja relevante, por exemplo, da reacção da assistência, e como regra fora do andamento da partida.
O que vemos durante as transmissões ronda o imbecil: um jogador não pode dar um pontapé que não vá uma câmara atrás dele; quando a jogada se desenrola junto às linhas laterais, lá tem que correr a câmara ali colocada atrás dos pés do jogador, em vez de mostrar o desenrolar global da jogada, cujo sentido ou intencionalidade se perde. Parece verificar-se uma busca de originalidade pacóvia nestes procedimentos. Não falemos já daqueles planos tirados do topo dos campos, que podem ser óptimos para mostrar marcas publicitárias, mas são inúteis e deploráveis como esclarecimento do espectador, porque fazem perder a noção do sentido dos movimentos e provocam a ilusão na avaliação do lance ou do movimento da equipa.
O futebol é um jogo de equipa, de conjunto, de interacção. A televisão tem obrigação de ser fiel a essa sua qualidade. Desviar para o pormenor é desvirtuar a beleza do jogo.
Por isso proponho: Reduzam os meios e invistam na qualidade; prefiram o geral ao particular, a visão de conjunto ao excesso de individualismo. Ponham menos câmaras no estádio, para que cada uma faça melhor o que deve; substituam a quantidade pela qualidade. Talvez assim se encontre mais gente agradada com as transmissões futebolísticas.
NOTA - Este texto foi escrito antes de a RTP não ter transmitido em directo o segundo golo de Portugal contra a Holanda. Apenas o mais grave de um erro de todos os dias.
Manuel Correia Fernandes

1 comment so far ↓

#1 jpt on 07.02.08 at 1:00

Até aceitaria as explicações do realizador se não se tivesse percebido que o canto iria ser de marcação rápida. Mas isso foi tão óbvio que até gritei: «estúpidos, o canto já foi marcado!»

O que me intriga mais até hoje neste europeu é aquele remate do Rui Costa que o guarda-redes inglês defendeu sobre a linha. Há até quem tenha gravado o jogo e garanta que foi golo.
Mas porque é que nunca houve repetições desse lance?

Publicado por: Fernando às julho 4, 2004 08:11 AM
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