Deparo-me agora com a revista Visão, o numero anterior à visita de Socrates a Maputo, onde culminou as negociações.
“Renascer em Moçambique“, o título da pobre reportagem. Candura? Vácuo? A parvoíce habitual, jovens portugueses (entre 25 e 32 anos - neles algumas caras conhecidas) por cá, terra exótica e bela, vivendo aventuras, amores ardentes, empresas ascendentes. Capa condicente, casal com cabana atrás (e autóctones, presume-se que convenientemente agradecidos). Nada de novo, ha 8 anos por cá esteve Maria João Avillez a botar um “regresso dos portugueses” tão nada como isto, tão vazio e cego como isto (uma colecção de cromos preguiçosa, o tipo dos “gelados italianos”, claro, o paradigma Cascais, esse que se baldou depois com as dívidas para trás, e uma série de jovens quadros de apelidos sonantes, tipo “vejam, nós tambem podemos ir…”). Gente nada, essa que escreve, gente de quem Rui Knopfli escreveu
“Ninguém se apercebe de nada. / Brilha um sol violento como a loucura / e estalam gargalhadas na brancura / violeta do passeio. / É África garrida dos postais, / o fato de linho, o calor obsidiante / e a cerveja bem gelada. / Passam. Passam / e tornam a passar. / Estridem mais gargalhadas, / abrindo uma sobre as outras / como círculos concêntricos. / Os moleques algaraviam, folclóricos, / pelas sombras das esquinas / e no escuro dos portais / adolescentes namoram de mãos dadas. / De facto como é mansa e boa / a Polana / nas suas ruas, túneis de frescura / atapetados de veludo vermelho. / Tudo joga tão certo, tudo está / tão bem / como num filme tecnicolorido. / Passam. Passam / e tornam a passar. / Ninguém se apercebe de nada.”
(Winds of Change, tão bem lembrado no A Sombra dos Palmares).
Gente pobre, ignara, a dos jornais? Lendo tralha destas logo assim se acha. Para quê coisas tão fracas, nem superficiais chegam a ser? Pergunta cansada, nem quer resposta tamanho o menosprezo que tal gente acolhe. Mas logo depois esta tralha simpática esta, jovens portugueses “a renascer em Moçambique”, burgueses entre belas raias e boers escaldantes, tons ocres, descampados imensos, um futuro cobiçável (e repetível), um país simpático que os acolhe e tal permite, e a tantos outros, gente boa, “terra da boa gente”. E assim os escaparates lusos cheios desta capa, nem precisam de comprar e ler, basta passar na rua, actua o implícito, o indito, o subconsciente.
E na semana seguinte Socrates em Mocambique a “entregar” Cahora Bassa. Antes a opinião pública “preparada”, trabalhada, mexida. Desta maneira melíflua. Ah, “renascer em Mocambique”, entre raias, autóctones e terras assim. Gente pobre, ignara, a dos jornais? Nada!
Um lixo. A Visão. Mas também quem os compra. Entenda-se, que lhes encomenda lixo destes. E quem lho consome.

8 comments ↓
Caro JPT,
Belo texto. Felicitações.
Não serão todos mas que há muitos pobres e ignaros nos jornais…não duvido.
Cumprimentos
Claro que haverá. Mas o sentido do post é inverso. À primeira vista texto da Visao pode parecer, e parece, uma mediocridade, uma parvoice de menina tonta. Mas na realidade é um belo trabalho de manipulacao, os pobres e ignaros somos nós, que lemos e até gostamos do “leve”/”light” sem nos apercerbermos do que se passa. E os piores de todos, mais pobres e ignaros, são os que resmungam contra a incompetencia de tamanho leve/light - sem perceberem que estao a ser “mexidos”
Mais do mesmo, como referes e bem. 2ª versão da capa da revista do Expresso de há uns anos atrás, estava eu em Quelimane. Tanto sucesso, tantos nomes “sonantes”, um verdadeiro mar de rosas reinventado…
Ainda bem que notou! Ainda bem que fez notar! Mais valia que o impacto do post e da revista estivesse invertido mas julgo que a verdade acabará sempre por vingar!Talvez com mais visitas a Moçambique. Olhe eu não me importava de arriscar. Mesmo assim
Denoto aí uma grande dose de inveja por não ter sido entrevistado para a reportagem?
Último anónimo, tem toda a razão, e ainda bem que notou. É aliás bem mais do que isso, um quase desespero. Ter mais do que 32 anos é-me horroroso.
Por acaso vi a capa da revista e acabei por a comprar para ler o conteúdo. De facto fiquei com a mesma impressão. Transparece o mito de um Moçambique de “feitiços” que enamoram os estrangeiros, de uma lua-de-mel numa África idílica e romântica, avessa a conflitos e contradições. Enfim, um cliché em Portugal. Realidades que devem atormentar os empresários – a falta de infra-estruturas e de técnicos qualificados (sobretudo fora de Maputo), a competição e a desconfiança de outros empresários (moçambicanos e estrangeiros), já nem falo no estigma do passado colonial, as dificuldades de cobranças (se já em Portugal não faltam maus pagadores…), a corrupção, a insegurança, entre outras – foram simplesmente omitidas ou bastante secundarizadas. Não foi de facto uma reportagem informativa, muito menos um jornalismo de investigação. Mas acha que foi inocente ou que houve uma intenção manifesta do jornalista? Pela leitura do seu post fiquei na dúvida. Um abraço, João
PS. O Poema de Rui Knopfli é oportuno.
joao feijó, está a ser letal (e justificadamente) para o post. o que eu pretendo sublinhar é que a aparente imbecilidade do texto não é mais do que aparência. Isto é um trabalho encomendado, um fazer-cabeças. Repito, nada disto tem a ver com a minha opinião sobre o processo de Cahora Bassa, saúdo a decisão/conclusão. Mas a revista Visão prestou serviço ao governo - nada mais. A mim, se calhar fora de moda, isso repugna-me. Ainda que de socialistas portugueses isso não surpreenda - são a repugnância essencializada (falo dos indivíduos, não acredito em instituições que pairam sobre simpáticos e bem-intencionados indivíduos)
Leave a Comment