The Very Big Picture*

sig05-010_medium(imagem concepcional da Via Láctea e indicação de onde estou a escrever esta crónica para o Maschamba)

*- A visão muito geral das coisas (trad. ABM)

por ABM (Alcoentre, Portugal, Terra, Sistema Solar, Via Láctea, 22 Novembro de 2009)

Tenho uma confissão domingueira a fazer: a única coisa que não consigo entender mesmo mesmo é o infinito espacial e a duração do tempo em termos do Universo. A ideia de haver um Deus que criou tudo etc e tal descartei ainda criança (infelizmente não foi difícil) e fascinei-me em vez disso a observar durante toda uma vida a nossa animalidade mal disfarçada, a nossa desesperada tentativa de sobreviver com umas roupinhas e uns vislumbres de dignidade, escravos do sexo, da fome, da sede, do medo, do frio, da ignorância, da ganância e da nossa própria degradação a partir do momento em que passa a altura de nos reproduzirmos.

E a verdade, inescapável para mim, é que, por mais que se doure a pílula, nós estamos prisioneiros para todo o sempre neste planetazito que gira sobre si num ângulo esquisito e à volta do Sol e onde nos andamos a armar em “civilizados” há uns escassos 30 mil anos. Antes disso éramos macacos que andávamos de pé e antes disso andávamos de rabo para o ar e com as mãos no chão. Antes disso éramos macacos peludos e antes disso ainda andam a ver o que é que os nossos antepassados éram. Provavelmente coisa nojenta e feia de olhar.

Hoje, ainda somos macacos. Macacos que pôem desodorizante debaixo dos sovacos, que tomam muitos banhos, andamos numas coisas chamadas carros e aviões, de té-lé-lé na orelha, tiramos cursos, aprendemos umas coisas que se descobriram há uns cem anos e a maior parte das quais isoladamente nem sequer começamos a entender (ontem instalei um router novo para o meu computador e ia dando em maluco a tentar configurá-lo, por exemplo).

Mas nós, o nosso passado, o nosso futuro, a Terra, absolutamente nada são, para nada servem. Nada significam. Não podem. São totais irrelevâncias na vastidão do espaço e do Universo e da sua história. Isto é tudo ridículo. Patético, se o exmo. Leitor Maschambiano começar a ver a big picture. Como a que está reproduzida ali em cima, da galáxia em que fica a Terra e em que eu e o exmo Leitor e todos os nossos antepassados vivemos e morremos e todos os nossos descendentes para todo o sempre viverão e morrerão. E a que se estipulou chamar Via Láctea.

E mesmo aí tenho que pedir desculpa pelo exagero: como a Via Láctea, há centenas e centenas de milhões de outras como esta, algumas verdadeiramente, estupidamente maiores.

A Via Láctea, explicam os entendidos, tem cerca de 13 a 14 mil milhões de anos desde a sua formação, presume-se que de poeiras que surgiram ninguém sabe de onde. Tem entre 200 e 400 mil milhões de estrelas (como o nosso sol, não estamos a falar de planetas aqui). Gira sobre si própria e estima-se que leva 200 milhões de anos a dar uma volta completa. Aquela “coisinha” lá em cima em uma dimensão de 78.500 anos-luz, sendo que um ano-luz é a distância que a luz demora, em vácuo, a 200.000 kms por segundo, a percorrer em 365 dias, ou seja, 9.460.536.207.068 kms x 78-500 anos-luz.

Para além de andarmos à volta do centro da galáxia, que parece água a sair da banheira depois de um banho de imersão, não se sabe bem porquê, o sistema solar também ondula para cima e para baixo.

A galáxia a seguir mais perto de nós, fica a 2600 milhões de anos-luz de distância.

E depois há o resto, que não acaba. Ninguém sabe onde começa e onde acaba o Universo. Ninguém sabe quando começou o tempo e quando vai acabar.

E dizem-me que há um objectivo qualquer em estarmos aqui neste momento? um destino? ai sim? para além de escrever isto, qual?

Vou beber um café. Bom domingo!

30 comments ↓

#1 AL on 11.22.09 at 12:46


Adorei! Confesso que sou uma science-freak e, portanto, parcial. E pena que hajam (diz-se hajam?) tao poucos livros cientificos traduzidos para portugues. Livros do Sagan, do Hubert Reeves, do Feynman, do Sachs, do Sen… enfim de uma serie de cientistas que escrevem de forma acessivel e que nos prendem. Infelizmente, por ca prefere discutir-se se se trata ou nao de ciencia pop em vez de se publicarem os autores (eu sei que ha uns do Sagan publicados, mas dos outros nao tenho a certeza). Mas a verdade e que a ciencia nos deslumbra e nos remete a nossa insignificancia. Da-nos autenticas licoes de humildade. Nao tenho a pretensao de entender tudo o que leio neles, particularmente a hipotese do gato na caixa de sapatos recorrente em quase todos os livros de fisica nuclear, mas o essencial percebo. E e bom ler ciencia tambem porque o avanco cientifico e tecnologico tem sido tao rapido, que levanta questoes eticas e sociais relevantes e meritorias de debates informados pela comunidade nao-cientifica.

#2 jpt on 11.22.09 at 13:07


AL a Gradiva tem uma enorme colecção de bons livros de divulgação científica. O mercado não está assim tão mau nessa secção.

ABM não partilho desse teu aparente cepticismo. Estou convicto, e até contente, que a “imensidão” (conceito desprovido de sentido neste âmbito) universal te marcou um destino, até transcendente. Esse que anuncias no texto: o de ma-schambares …

#3 ABM on 11.22.09 at 13:17


JPT

Sim, sim. Estou mesmo a ver o Deus virtual lá em cima sentado num cadeirão branco e dourado feito pela Gucci, em bata branca e sapatos encarnados da Prada, a dizer, em tom de trovão, “Ááá Bêê Éme, tu vais nascer, nadar no Desportiiivo, estudáare, trabalháre, e depois vais Maschambáre, esse é o teu destino, para que tu nascestes!”

Na verdade, gostava de fazer algum bem enquanto estivesse vivo. Mas depois de tentar várias vezes concluo que falta-me o jeito e a paciência. As pessoas em Portugal quando as tentamos ajudar pensam logo que estamos a tentar aldrabá-las com alguma coisa. Vá lá um tipo entender.

#4 AL on 11.22.09 at 13:22


Gradiva? Vou ver, embora nao me importe de ler na lingua original. Mas e bom saber. Obrigada

#5 jpt on 11.22.09 at 13:23


AL (que não HAL): “nas línguas originais”, queres tu dizer, queres tu dizer …

#6 jpt on 11.22.09 at 13:26


Não vejo Deus da forma antropomórfica que lhe dás. Neste momento encaro-o mais como o sistema Wordpress.com

Quanto a isso do “destino” ser fazer o bem, que retiro deste teu comentário, faz-me espécie. Diante da tal imensidão que referes que minudência é essa do “bem”? Para mim fazer o bem está restrito a evitar, com denodo, pressionar o ícone “delete blog”.

#7 AL on 11.22.09 at 13:27


Sim, claro, embora confesse que a minha costela anglofona me puxe mais para edicoes inglesas… Gostei do HAL; nunca me tinha lembrado disso. he he he

#8 AL on 11.22.09 at 13:28


Eu sei que o auto-elogio fica mal e nao se faz, mas tenho-me partido a rir com esta troca de comentarios… Desculpem :) Ate o meu neto se calou quando ouviu a minha gargalhada!

#9 jpt on 11.22.09 at 13:29


Sim, lapsus linguae teu a denunciar-te uma anglofilia que nada mais é do que uma adesão cega à “pérfida Albion”. Não temo o John Bull mas há limites, há limites …

#10 AL on 11.22.09 at 13:34


E’, sao estes lapsos freudianos que nos lixam…

#11 cg on 11.22.09 at 18:58


pelo menos de Reeves há umas coisinhas traduzidas… dos outros (além de Sagan) nem sequer os conheço.

gosto do estilo “a ciência ao alcance de pouco teimosos”, vá lá assim conseguir perceber alguma coisa…

#12 Vera Azevedo on 11.23.09 at 0:40


AL,
O Stephen Hawking e o seu “A Breve História do Tempo” é imperdível, apesar de já ter vinte anos.
Mas esse é sobejamente conhecido, creio.

#13 jpt on 11.23.09 at 0:49


Há uma pilha – eu trouxe um para miudos (mas a Carolina ainda é muito nova) do Fiolhais. Uma delícia

#14 AL on 11.23.09 at 1:27


Qualquer Hawking e bom e vale a pena ler. Tenho andado o dia todo a ver se me lembro o nome do meu preferido, que e um velhinho polaco/americano absolutamente fantastico e… nada! A minha memoria esta a rivalizar com qualquer buraco negro que se preze! Estou a ver a capa, o nome cheio de Rs Ws e vogais com meias luas por cima, mas nem nome do livro nem do autor… Enfim, eu acho que ler ciencia vale a pena, ainda que nao se entenda tudo. Eu ate do Asimov gosto, quero dizer, gosto muito mas mesmo, mesmo muito

#15 ABM on 11.23.09 at 8:30


Peço imensa desculpa ao Steve Hawkins (o livrinho de que falam já li há muito tempo e tenho algures no meu caixote de residuais culturais algures) mas se querem mesmo mesmo ficar confusos o livro que têm mesmo que ler é “A Short History of Everything” pelo Senhor Bill Bryson (http://en.wikipedia.org/wiki/A_Short_History_of_Nearly_Everything). Acho que há uma versão em língua portuguesa (http://imagens.webboom.pt/recurso?&id=111492). É que este livro é muito mais agradável de ler e abrange muito mais tópicos.

Dois exemplos de memória: a) a sua descrição da “verdadeira distância entre o nosso sistema solar até à próxima estrela é impressionante e dá claramente a noção de quão isolados nós verdadeiramente estamos; b) ele faz algo de interessante, que é vai na direcção contrária, para o cada vez mais pequeno – a molécula, o átomo e as suas componentes. É de perder a respiração. Aquilo a que me refiro acima é, por comparação, uma nota de rodapé.

#16 ABM on 11.23.09 at 8:35


Aha, encontrei:

http://www.alfarrabista.com/E/1037366/Livro/Breve%20Hist%C3%B3ria%20de%20Quase%20Tudo

É da Quetzal editores.

Se há um objectivo na vida (esqueci-me de dizer acima) é aprender e gozar o prato. Estre livro faz isso. O que é estranho pois Bryson não é exactamente um cinetista, é mais um caçador de factos.

#17 jpt on 11.23.09 at 8:57


Nunca li esse Bryson. Li um Diário Africano, que não é grande coisa, e The Lost Continent e Notes from the a big country que são bem engraçados

#18 ABM on 11.23.09 at 8:59


Bom dia, este Maschambeiro acordou às 5 da manhã no sofá da sala (adormeci a ver um filme que obviamente não pôde competir com o meu sono).

Sim o Bill tentou fazer uns escritos de viagens que foram menos bem sucedidos. Eu dele só li este e se leres e não gostares devolvo o dinheiro…

#19 Vera Azevedo on 11.23.09 at 12:39


ABM,
Desculpe o preciosismo mas o Steve Hawkins não é o Stephen Hawking a que me refiro.

#20 AL on 11.23.09 at 23:27


Ja por vezes referi a minha fraca memoria e ja estou a ficar baralhada. Estou com o JPT em relacao ao Bryson; ele e extremamente popular mas e’ uma hype que nao me tem exactamente cativado. Ha um outro livro que eu acho fantastico; Guns, Germs and Steel do Jared Diamond que e’ basicamente a historia da terra e das gentes que a habitam. Eu achei fascinante! Tambem gostei muito do Fukuyama, The end of History, muito provocatorio. Ahhh, adoro a ciencia!

#21 ABM on 11.24.09 at 15:46


D Vera

É o mesmo, apenas escrevi mal o nome. É “Steve Hawking”. Não conheço outro. Paraplégico, inglês, mente genial.

AL

Não tenho conhecimento da “obra” de Bryson para além de recensões e só depois de ler o “A Short Story of Nearly Everything”, que comprei e li depois de uma romaria semanal a Nelspruit (“MmmmmBombélááá”!) e um ataque cerrado às prateleiras da Exclusive Books. Folheei o livro e achei interessante, comprei e li e acho interessante para um especialista-leigo nestas matérias. Por acaso vasculhei num dos meus caixotes de livros este fim de semana e econtrei o livro, que está disponível para leres entre baby-sitting e mudança de fraldas do netinho ou para ler nas praias de Goa. Sobre este assunto escreverei esta tarde uma curta crónica.

Li também o livro de Jared Diamond que é igualmente interessante e contextualiza a história moderna de uma forma que inspira e faz pensar.

#22 Vera Azevedo on 11.24.09 at 16:33


Sr. ABM,

Queira desculpar a insistência, mas o Hawking que se caracteriza por ser paraplégico, inglês e mente genial é Stephen.
Se bem que lhe podemos chamar Steve ou Silva.

#23 jpt on 11.24.09 at 17:16


VA eu acho porreiro a discordância e até as caneladas. Mas daí a resmungar com os erros ortográficos ou de pormenor … E mais ainda com a utilização de diminutivos (francamente, qual o problema?)

#24 ABM on 11.24.09 at 17:19


Eu obviamente chamo-lhe Steve. Que é, na língua inglesa, a forma mais comum de abreviação do nome próprio “Stephen” (em português, “Estevão”, ambos originários da versão latina do nome grego Στέφανος – Stephanus). Que quer dizer “coroa”.

Isto é um pouco como chamar Bill ao Sr. William Jefferson Clinton.

#25 Vera Azevedo on 11.24.09 at 20:05


Car@s, tendes razão.

Como considero o Stephen um mito, não me apeteceu nada chamar-lhe Chico quando o seu nome é Francisco.
É claro que em contexto norte-americano estas coisas não têm a mesma relevância que para nós, locais do país dos Drs.
Perdoem-me pois o impulso para o ‘resmunganço’. :)

#26 Ana Leao on 11.24.09 at 20:35


ABM aceito o repto do Bryson e vou levar para ler em Goa. O que tenho lido dele tem sido alguns livros de viagens, que foram qb mas nao me arrebataram… Steve, Stephen, Stevie, Estevao chamem-lhe o que quiserem que o homem e brilhante nos nomes todos e e’ de se lhe tirar a coroa, perdao, o chapeu! :)

#27 ABM on 11.24.09 at 20:45


Sra Baronesa

O livro está embrulhado e pronto a colocar na sua valise Luis Vitão para a esperada digressão pelas colónias na Índia. Juntarei uma loção anti-mosquitos.

#28 jpt on 11.24.09 at 20:59


AL: “e e’ de se lhe tirar a coroa, perdao, o chapeu!” ou, como se reza nesta catacumba, o nome

#29 jpt on 11.24.09 at 21:00


AL tenho um post em rascunho que a ti será dedicado (manda abraço ao JL)

#30 AL on 11.24.09 at 21:17


Luis Vitao nao e muito da minha preferencia; nao gosto do tecido! Alem de que acho ridiculo pagar precos absurdos para andar feita billboard a passear logotipos por ai… Mas agradeco o Bryson.

JPT abraco entregue! Fico a aguardar…

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