Nomes

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[Tzvetan Todorov, A Conquista da América. A Questão do Outro, Litoral Edições, 1990. Tradução de Maria Isabel Braga]

É um dos meus livros preferidos, uma maravilha. Não sei se estará esgotado nem se esta editora ainda existe. Mas quando se fala do nomear, das reconstruções históricas das toponímias, mapas identitários donde históricos, vem-me sempre à memória esta brilhantíssima obra. E vou relê-la, trechos avulsos.

Colombo e, depois deles, Las Casas, como muitos outros dos seus contemporâneos, acreditam que os nomes (…) devem ser à imagem do seu ser. (…) Esta atenção especial ao seu próprio nome corresponde, naturalmente, à sua actividade de nominador, no decurso das suas viagens. Tal como Adão no meio do Éden, Colombo entusiasma-se com a escolha dos nomes do mundo virgem que tem diante dos olhos; e, como no seu próprio caso, esses nomes têm de obedecer a um objectivo. (…)

Colombo sabe, pois, perfeitamente que estas ilhas já têm nomes, de uma certa forma, nomes naturais (mas numa outra acepção do termo). Contudo, os termos dos outros pouco ou nada o interessam e ele quer nomear os lugares em função da posição que ocupam na sua descoberta, dar-lhes nomes justos; de resto a nomeação corresponde a uma tomada de posse. (…)

O primeiro gesto que Colombo executa ao contactar as terras recém-descobertas (ou seja o primeiro contacto entre a Europa e aquilo que viria a ser a América) é uma espécie de acto de nominação em grande escala: trata-se da declaração segundo a qual essas terras ficam a fazer parte do Reino de Espanha. (…) O facto de ser este o primeiro acto realizado por Colombo na América revela bem a importância que assumiam aos seus olhos as cerimónias de nominação. (…)

Quando Colombo presta atenção ao resto do vocabulário, mostra-se muito pouco interessado e revela ainda mais a sua concepção ingénua da linguagem, uma vez que confunde sempre os nomes com as coisas: toda a dimensão da intersubjectividade do valor recíproco das palavras (em oposição à sua capacidade denotativa), do carácter humano, e portanto arbitrário, dos sinais, passa-lhe despercebido. (…) como se os costumes espanhóis não fossem uma convenção entre tantas outras, mas sim o estado natural das coisas.” (39-42)

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3 comments ↓

#1 Gemma Nadal on 11.02.09 at 16:41


Uma escrita brilhante e um livro imprescindível para pensar a alteridade.

#2 ABM on 11.02.09 at 18:18


JPT

Estou com pressa porque tenho que ir ajudar a sogra a carregar caixotes e está bom tempo para a actividade “carregadora” em Cascais City. Mas gostava de dizer isto:

1. Vê lá se recomendas livros que estejam em “print”, pois assim fica o povo sedento de saber do que falas e referes obra de editora falecida e tradutora que foi para o céu…felizmente nos beliscas com uns pózinhos das obras para termos ideia do manancial intelectual posto em papel pelo Sr. Trolorov e que presumo rechear a tua invejável biblioteca.

2. O direito de nomear é historicamente prerrogativa do poderoso e dos conquistadores. Já o disse, nada mais barato e eficiente para demonstrar desprezo pelo passado (tipicamente) recente e de proclamar a nova ordem, qualquer que seja. Desde o tempo dos gregos, romanos e sumérios que se faz isso – e muito mais. Imperadores e religiões arrogaram-se o direito de decidir e impor datas com nomes específicos, de decidir quais eram os deuses em favor e os que não eram, quais eram os dias feriados e sagrados, quando é que a história “começava” e qual era o evento cataclísmico de referência (no Ocidente, a data em que Jesus Cristo de Nazaré terá nascido – more or less). Napoleão mudou os nomes dos meses ( a coisa durou até ele levar com a tábua – duas vezes) mas a sua imposição do sistema métrico ficou. Os britânicos, que finalmente dominaram a longitude, impuseram o meridiano de Greenwich como o ponto zero da longitude global e ainda aí está, camuflado com outro nome.

Mas os exemplos não acabam e vão até ao quase ridículo. Bokassa criou o Ímpério Centro Africano e mandou vir uma coroa de ouro de Paris, Mobutu, um africano das Arábias, mudou o Congo para Zaíre, a Swapo a Namibia, Saigão passou a ser Cidade de Ho-Chi-Min, Caetano mudou o nome da PIDE para DGS. Nas coisas mais comezinhas, o nome do BI português passou brevemente para CU (Cartão Único) mas para não se confundir com o outro que nós todos temos, mudaram para CC (Cartão do Cidadão). No discurso político uma “mentira” passou a ser uma “inverdade”, um americano de raça negra passou a ser “african-american” e um varredor de lixo passou a ser “técnico de saneamento”. Um criado passou a ser “empregado doméstico”, um “terrorista” passou a ser “guerrilheiro” ou ainda “freedom fighter”. Um aborto passou a ser uma IVG (“interrupção voluntária da gravidez”), uma puta uma “sex worker”, uma dançarina de cabaré uma “exotic dancer”.

Claro que houve, na penetração europeia do mundo (que agora é mais ou menos vista como uma infecção, ou abcesso civilizacional) infinitas oportunidades de nomear, pois aí as populações eram rurais e não havia nem cidades nem o costume de ter nomes. E para as coisas estarem nos mapas, tinham que lhes dar um nome. Mas mesmo aí havia tareia. Dom Manuel I não gostou do nome do Cabo das Tormentas e baptizou-o com o muito mais politicamente correcto Cabo da Boa Esperança (presumo que, a breve trecho, Cabo Zuma).

Isto tudo é um pântano, uma comédia nalguns casos, uma mágica encenação de egos, uma longa sessão de psicoterapia colectiva, um perpétuo exorcismo dos fantasmas passados e o procurar criar uma nova realidade, mais afim aos dogmas da actualidade. Já tive o tempo em que estranhava esta impenitência toda. Hoje estou-me perfeitamente nas tintas. Se os políticos e as viúvas ficam contentes, isso já é alguma coisa.

#3 jpt on 11.02.09 at 21:28


Diria mesmo mais (como o Dupont diz do Dupond e vice-versa): “Já tive o tempo em que estranhava esta impenitência toda. Hoje estou-me perfeitamente nas tintas. Se os políticos e as viúvas ficam contentes, isso já é alguma coisa.”

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