A República Velha, de Vasco Pulido Valente

Abaixo o ABM aconselha a sua actual leitura Portugal – Ensaios de História e de Política, de Vasco Pulido Valente, autor de quem há pouco li Ir pró Maneta, livro onde me diverti e ainda mais aprendi. O ABM refere com particular prazer a leitura do capítulo “A República Velha“. E lembra-me essa leitura, então como opúsculo editado pela Gradiva (1997) – não posso, claro, afiançar que o texto não tenha sido alterado.  E nessa memória a ele me associo no apelo à sua leitura (originariamente um artigo publicado em 1992, na Análise Social). Haverá outras versões sobre a República? Com toda a certeza. Mas convirá lembrar que em ano de centenário seremos intoxicados pelas loas do regime – sempre adversárias do conhecimento, pois conhecer o antes aclara o conhecimento do hoje. A II República (ainda que um regime onde há “primeira dama”, com serviços, colaboradores e tarefas, não é uma República, é só uma piroseira) irá embelezar o passado, urge sobre ele ler.

Deixo uma citação. Que tanto diz sobre o agora-mesmo. Tanto mesmo que me permitirei a realçá-lo.

VPV Republica Velha

 

O PRP tinha transformado a causa da guerra na causa da República. ( …) O problema dele [Afonso Costa] estava só na circunstância despicienda de que nem os Portugueses, em geral, nem os militares, em especial, queriam a guerra. Tratava-se, portanto, de os coagir, tarefa em que sempre brilhavam a experiência e o zelo dos democráticos. Poderá pensar-se que os perigos excediam o razoável. Mas não se deve ignorar que a violência era o modo de vida habitual do PRP e que o fim da operação consistia em conseguir a paz interna através da guerra externa. Como Chagas notava finamente em Paris, quem se atreveria a levantar a mão contra uma República vitoriosa?

O exército (…), resignado a uma pequena presença em África, não queria a intervenção na Flandres. A propaganda belicista tenou mais tarde atribuir esta atitude à mera cobardia da oficialidade. “Heróicos” deputados e jornalistas do PRP, para não falar em médicos e merceeiros, voluntariavam com adequado alarido para o que se denominava sentimentalmente a lama das trincheiras, onde, de resto, raros chegavam. Em contraste, os oficiais, cuja vocação consistia em morrer pela Pátria, se não pela República, recusavam-se a marchar ou marchavam contrariadamente para França. A alegação de cobardia não tem sentido. Em matéria militar, os bravos civis democráticos eram irresponsáveis e portavam-se como os irresponsáveis que eram. Os militares sabiam que o exército português não estava preparado, ou podia ser preparado em tempo útil, para uma campanha na Europa. (…)

Quando no fim de 1917 o desastre se aproximava, alguns dirigentes democráticos e companheiros de caminho, que não estavam ainda completamente cegos, queixaram-se de que o governo não “explicara” a guerra ao país. O que faltava, como de costume, era boa propaganda. (…) Isto presumia, é claro, que a guerra da Flandres podia ser explicada. Mas não podia, porque a sua verdadeira razão, a necessidade de consolidar a República Democrática, embora notória nos círculos informados, tinha de se esconder aos Portugueses e, sobretudo, aos combantentes.” (pp. 91-94)

jpt

3 comments ↓

#1 ABM on 12.02.09 at 9:41


Muito triste. Carne para canhão, foi o que quem morreu lá foi.

#2 jpt on 12.02.09 at 12:37


Para além dos cuidados higiénicos a ter, agora que em época de comemorações, acerca das ideias sobre a I República (muito alimentadas pela sua tradicional associação com “democracia”, vs o Estado Novo, e “racionalidade”, vs o obscurantismo decadente da Monarquia) … é muito interessante notar, então como agora, a ideia da incapacidade intelectual do povo em (se) entender, donde o primado à propaganda …

#3 O Centenário da República e Nossa Senhora de Fátima | ma-schamba on 02.09.10 at 7:19


[...] o ABM a lembrar-se do “República Velha”, de Vasco Pulido Valente. E logo o fui buscar da estante. Depois, e porque o centenário da República já se festeja, e também porque as enormes [...]

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