Uma das coisas que se aprende ao trabalhar com pessoas nascidas na década de 1980 é a impossibilidade – normal, claro – que têm em compreender o júbilo que sentimos há vinte anos. O fim da Guerra Fria. A derrota, dizendo-o sem rodeios, do “Império do Mal”. E um mundo melhor. Com todos os seus defeitos incomensuravelmente melhor do que “O Mundo Melhor” que pregavam.
jpt

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De facto assim e, mas nos, os tontos pre-anos 80 nao previmos, na nossa euforia, as terriveis consequencias que se vieram a desenrolar nos anos 90 e seguintes…
Hum … só mesmo no dia da festa é alguém poderia ter aventado a “paz perpétua”. E quando se fala de “terríveis consequèncias” (quais? A guerra dos balcãs, o cáucaso?) convém não esquecer a enorme quantidade de consequências anteriores (os “conflitos regionais”, não era assim que se chamavam). Quantas “terríveis consequências” amainaram ou não foram, depois disto?
A minha visao unidimensional e profissionalmente deformada levou-me logo a pensar na forma como os excedentes militares dos dois blocos, principalmente armas ligeiras, foram literalmente “despejados” em Africa com as consequencias que hoje todos conhecemos… Nem pensei nas Balcas nem no resto do mundo. Se por um lado imensos conflitos regionais acabaram, o enorme influxo de armas para Africa alimentou os “novos” conflitos, ja nao inter-estados mas sim intra-estados como dizemos anglosaxonicamente, permitindo o uso alargado de armas faceis de manejar e leves de transportar com a consequente militarizacao das criancas e com o enorme aumento da violencia contra civis. Nao estou de todo a desvalorizar a data nem a relevancia do acontecimento. Lembro-me nitidamente da epoca, da euforia e da vaga de esperanca que inundou os talvez mais incautos, como eu.
enquanto os muros estiverem dentro das cabeças das pessoas, o mundo é uma grande badalhoquice. é por isso k , apesar de na altura me ter alegrado e festejado esse acontecimento, parva e ingénua, agora não tenho qualquer esperança. o homem é um grande filho da puta , k não eu. puta mas cândida. eheheh
Não nego, não nego. Ainda que os conflitos africanos (intra e interestados) não deixassem de ser (também) epifenómenos da Guerra Fria, ou seja consequências do estado da arte pré-queda do Muro
candida não deixo de concordar que o homem é um grande filho da puta. Mas tem uma grande capacidade, a do alfabeto. Ou seja ainda que no reino dos filhos da puta o que eu gosto mesmo é daqueles que para abreviarem o “que” usam o Q e não o K! Coisas
JPT claro que sim, que os conflitos estavam latentes; nao foram criados pela “nova ordem” e ja vinham de tras. Mas o influxo de armamento barato e facilmente manejavel fez da violencia armada uma alternativa atraente vis-a-vis uma solucao politica, negociada e forcosamente menos imediata dessas mesmas tensoes
Quando eu era miúdo celebrava-se o 28 de Maio de 1926 como um grande dia de …sei lá o quê (libertação? imposição da ordem? sei lá) e eu achava aquilo tudo um enfadonho de velhos em uniforme. A geração portuguesa com 20 anos tem TV a cores no seu quarto em casa com 100 canais, internet de alta velocidade, usa cartão de débito que o papá carrega, computador, não sabe o que é ter fome e frio, ter tido colónias, ter medo de dizer algo de político que fosse susceptível de meter um tipo na cadeia. A maioria dos amigos são filhos únicos ou têm um e, por milagre, dois irmãos. O 25 de Abril de 1974 é um distante evento e a democracia um carnaval sem fim. Contam tirar certamente um curso universitário qualquer e esperam ter casa e carro antes dos 30 anos de idade.
Pedir a estes jovens reverência por grandes eventos do passado como o desmantelar do comunismo, quando as novas prioridades lhes batem na cara (mudanças climáticas, poluição, terrorismo, globalização e pós-industrialização, etc) é quase wishful-thinking.
ABM não contestarei tudo, apenas refiro que eu náo trabalho com a geração nascida em 1980 portuguesa. E que esta em causa tendo várias coisas náo tem ao seu dispor a parafernália que afirmas.
Mais, eu não peço nada, apenas refiro um hiato de visoes do mundo entre gerações – algo que não é novo e que não terminará aqui. Mas que pode ser indiciado. E também que está presente nos diálogos existentes.
He he eh… As diatribes geracionais nao variam, nao e verdade? A musica parece ser a mesma, o que varia e a letra: TV a cores no quarto/pick-up aos berros; internet/guedelhas e mini-saias e assim por diante…
o pior são os piercings e as tatuagens. A democracia (o pior de todos os regimes, à excepção de todos os outros) tem estas coisas, não se podem enviar para campos de trabalhos forçados os infectos tatuados e escarafunchados. Mas que mereceriam mereceriam. Alimentados a papas bichosas, bebendo água estagnada, acorrentados limpando as matas da sua caruma que provoca fogos de veraneio ou alcatroando estradas. Até lhes cairem, por falta de adiposidades circundantes, os piercings e se lhes esbateram, por translucidez, o raio das tatuagens
Estamos juntos nesta dos piercings e das tatuagens. Perdoem-me os leitores tatuados e piercados do maschamba, mas tenho confesso que me dao nojo, sim um nojo fisico. Sou incapaz de tocar num corpo tatuado e arrepio-me toda com certos piercings. E no entanto tenho as orelhas furadas e ate gosto. Pior ainda, nao mas furaram a nascenca; fui eu mesma que furei quase aos 30 anos (recentemente, portanto, he hehe). Mas as orelhas nao contam, pois nao? Afinal e uma forma de mutilacao corporal socialmente aceite e ele ha brincos LINDOS!
Não me falem de piercings, dava dez textos seguidos.
Volto atrás. O JPT teve a particularidade de mencionar o memorável termo proferido por Ronald Reagan quando se referia à União Soviética, então nos seus dias finais e a braços com Lech Valesa, João Paulo I, Margaret Thatcher, uma guerra insólita no Afeganistão, que invadira em 1979 e financeira e moralmente na bancarrota. Uma União Soviética que, aramada em carapau – e para quem não se lembra – abateu um Boeing 747 cheio de gente inocente sobre o mar do Japão para mostrar que podia. Um império que só sabia oferecer aos seus satélites armas obsoletas, ideologia caduca e conselheiros para melhorar os seus serviços secretos e oprimir tudo e todos.
A Baronesa AL referiu um ponto interessante que pode e nunca foi quantificado: os débitos e créditos das lutas de libertação africanas. Sendo que de boas e nobres intenções está o Inferno cheio, no caso português sem distinção as guerras foram tanto sobre nacionalismos incontidos e a incapacidade do regime português de acordar e ver o que se passava à sua volta, como da constituição, armamento e treino dos chamados movimentos de libertação pelo tal de Império do mal. Em Angola fiz uma amizade interessante com um senhor que durante anos era o responsável pelas compras de armamento a Cuba e à União Soviética. Ele recebia as encomendas do terreno e negociava preços e depois era a discussão de preço e de como e quando se pagava etc. Havia aqui muita táctica e estratégia subjacente e note-se que o destino da guerra decorria do que cada lado trazia para o terreno, quando, e em que quantidade. Este processo teve, para ambos os lados tanta importância para o que aconteceu e quando como teve a evolução das intenções desse tal Império do Mal em África. O livro de John P Cann dá umas luzes sobre isso, mas do lado dos portugueses. Gostava de ver isso um dia do lado dos “libertadores”. Ajudava a compor o ramalhete e ainda mais a entender o que aconteceu quando e como.
Já nem me lembrava dessa do Boeing …
E é um bocado isso, a exportação de armas (e conflitos que delas necessitem) para África (atenção: fazer como o Saramago recentemente fez, ecoando o main stream, dos conflitos africanos um reflexo das vontades político-económicas “ocidentais” é um mero racismo, a total infantilização dos africanos. Isto é um aparte, não para Vs, claro) era anterior ao colapso do muro e ao fim da Guerra Fria. Daí o meu desconforto com o termo “consequências” que a AL usou. Ainda que sejam também consequências.
desculpa patrão, não percebestes o teu último poste…
? (o patrão sou eu?) ?
Sim, no comentário nº 14 não percebi o que está lá dito…deve ser de eu ainda não ter bebido o café da manhã mas … não percebo
apenas comentei a reflexão da AL sobre as consequências tétricas que o fim do Muro (e da guerra fria) teve em termos de exportação de material militar e de conflitos
~bom café
O JPT o fara melhor que eu, mas acho que estava a tentar clarificar o que eu deveria ter explicitado melhor e tem toda a razao. Quando num comentario aqui eu dizia que a queda do muro de berlim teve “consequencias” terriveis, parece implicita uma relacao causa/efeito, o que e falso. Isto e, as guerras e a devastacao a que me referia nao acontecerem POR CAUSA da queda do muro de Berlim, como poderia ser interpretado no meu comentario, mas sim porque uma nova ordem veio permitir que estes conflitos viessem ao de cima e se tenham “played-out”. Durante a guerra fria os dois blocos apoiaram e ajudaram a manter no poder regimes com pouca legitimidade e movimentos rebeldes de legitimidade igualmente questionavel. Com o fim da guerra fria esse apoio desvaneceu-se, criando assim abertura para que conflitos latentes e abafados durante decadas, se manifestassem agora. Idealmente, estes conflitos ter-se-iam desenrolado na mesa de negociacoes, na procura de uma solucao politica, processo este moroso, dificil e que obrigaria muito ditador e aspirante a ditador a ter que engolir muitos sapos. Mas, isso seria no mundo ideal; no mundo real as pessoas morrem de fome e a oferta imensa e imediata de armamento barato e facil de manejar representou para estes potenciais negociadores relutantes uma alternativa exequivel.
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