Sobre a História da Enfermagem em Moçambique, séculos XVI-XX

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por ABM -

Na passada semana, realizou-se em Lisboa, na sede da Fundação Calouste Gulbenkian, um grande simpósio ibero-americano sobre enfermagem, que trouxe uma abundância de académicos, especialistas e profissionais da enfermagem de vários países, para abordar uma miríade de tópicos.

De eventual interesse para a comunidade Maschambiana moçambicanófila poderá ser a mesa redonda, realizada na manhã de 6ª feira, dia 9 de Outubro, e que se debruçou sobre o tema “A História do Ensino de Enfermagem nas Antigas Colónias de Cabo Verde, Angola, Moçambique e Macau”.

Fui lá por três razões:

1. porque, depois de um interregno de quase vinte anos, iria rever o meu velho amigo Diogo Cabrita, colega de carteira da escola primária e da catequese (sim, levámos uma dose quase fatal de catolicismo) na Escola Primária 3 de Fevereiro, que na altura em que lá andámos dava pelo (colonial fascista) nome de Rebelo da Silva. O Diogo hoje é “Doutor Diogo” e prestigiado cirurgião em… Espanha (lá pagam mais e chateiam menos, creio);

2. porque a apresentação sobre Moçambique ia ser feita pela Sra Dona Maria Fernanda Gouveia Pinto, Enfermeira Chefe, Escola Técnica dos Serviços de Saúde de Moçambique, aposentada e mãe do Dr. Diogo, hoje com 80 anos e cheia de speed, farmeira de vinho verde numa quinta no Norte de Portugal junto à fronteira. Ela é víuva do Dr. Cabrita, que praticou em Maputo durante muitos anos e, como descobri, ela trabalhou durante anos no ensino da enfermagem em Moçambique pré-independência; e

3. porque o tema me interessava vagamente, em parte porque eu lembro-me de, aquando dos meus tempos de estudante universitário, nos fins dos anos 70, numa univeridade norte-americana, um dia o seu Centro de Estudos Africanos ter passado uma espécie de filme de propaganda a preto e branco sobre o Moçambique que o “invasor colonial português” criara. Para horror dos presentes, eu incluído, referia que em 1975 não havia nem médicos nem enfermeiros nem medicamentos nem rede hospitalar em Moçambique e que no país inteiro havia apenas um hospital (passa imagens do então quase sumptuoso Hospital Central de Maputo, onde para variar nasci) e que esse era só para os brancos. Chiça patrão, pensei eu.

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(D. Maria Fernanda, vestida de branco, momentos antes da sua palestra)

A palestra sobre Moçambique foi de longe a mais completa e detalhada de todas e eu tive a chance de a gravar na íntegra, em parte para a posteridade, em parte porque alguém há tempos me ofereceu uma máquina de gravar em vídeo e eu nunca a tinha usado (em mais uma conquista do meu domínio das tecnologias, funcionou!). A D. Maria Fernanda especificamente lamentou não estarem presentes no Simpósio representantes do sector da enfermagem moçambicana e sugeriu que futuramente a organização deveria encetar esforços no sentido de assegurar essa participação.

Metodicamente e em 26 minutos, fez o historial da legislação, das acções e das estruturas que foram desenvolvidas antes da independência, especialmente nas duas décadas antes de 1974, acompanhadas de interessantes fotografias, cópias de documentos, etc. À primeira vista, o panorama não era brilhante mas também não era o cenário desolador de haver apenas um hospital para o país inteiro e só para brancos que eu vira no filme uns anos antes nos EUA. Mas isso fica para os historiadores e especialistas, que eventualmente contextualizarão as coisas como deve de ser.

O importante a referir aqui é que a enfermagem é uma componente essencial de um sistema nacional de saúde, esta senhora tem dados importantes sobre a história de Moçambique e creio que seria relevante haver quem em Moçambique estude estes dados e, mais importante, tome a posse dos dados e assuma a representação deste sector nos fórums internacionais. Do que depreendi, as organizações de enfermeiras portuguesas estão mais do que interessadas nisso.

Uma última nota. Há um pequeno episódio da trívia moçambicana em que, antes de se juntar à Frelimo na Tanzania, o jovem Samora Moisés Machel terá cursado, e chumbado, um curso de enfermagem. Esse episódio existiu. O referido curso foi dado pela Sra D. Maria Fernanda, que se lembra perfeitamente dele e que, pelo que entendi, já era a personalidade que mais tarde evoluiu para o líder carismático da Frelimo e de Moçambique independente. O seu precioso testemunho seria deveras interessante para o estudo dos primeiros anos do percurso desta figura incontornável da história de Moçambique.

Depois da mesa redonda fui comer um bitoque com o Diogo.

7 comments ↓

#1 espinhoso on 10.15.09 at 19:33


Escola Primária 3 de Fevereiro

#2 ABM on 10.15.09 at 20:00


Sr Esp

Obrigado, já mandei a secretária corrigir. A 4 de Fevereiro de 1961 houve pancada em Luanda. A 3 de Fevereiro de 1969 Eduardo Mondlane foi assassinado. Posteriormente, a data passou a ser formalmente celebrada em Moçambique como Dia dos Heróis Moçambicanos – estatuto que é especificamente decretado pelo governo.

#3 umBhalane on 10.16.09 at 1:25


1 – “A palestra sobre Moçambique foi de longe a mais completa e detalhada de todas…”

O que eles perderam, desnecessariamente.

2 – “em 1975 não havia nem médicos nem enfermeiros nem medicamentos nem rede hospitalar em Moçambique e que no país inteiro havia apenas um hospital …”

Também nasci em Moçambique, 1950, no Luabo – Chinde – Zambézia – Moçambique, no território do Muene Cazonda.

No hospital da localidade, em madeira e zinco, como era da prache.

3 – A propaganda soviética e seus moleques, portugueses incluídos, cadernos anti-coloniais, afirmavam da existência de hospitais, universidades e escolas de todos os escalões, nas “áreas libertadas”???

Enfim, é melhor parar!

#4 Fique por dentro Enfermagem » Blog Archive » Sobre a História da Enfermagem em Moçambique, séculos XVI-XX | ma … on 10.29.09 at 14:56


[...] Calouste Gulbenkian, um grande simpósio ibero-americano sobre enfermagem, que. fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]

#5 Fernanda Lise on 01.26.10 at 12:39


Bom dia, como enfermeira, passei para conhecer um pouco mais sobre a historia da enfermagem em Moçambique. Admiro muito as lutas e as vitórias de minha profissão e admiro também o povo Moçambicano, Um abraço.

#6 ABM on 01.26.10 at 14:19


Sra D Fernanda Lise

Bem haja. Grande povo, grande profissão. Grandes histórias.

#7 SIDÓNIO PAIS E SAMORA MACHEL | ma-schamba on 03.12.10 at 1:00


[...] de rumar à Tanzania, com alguns colegas, cortesmente, foi-se pessoalmente despedir do Dr. Pais, de chefes e colegas, explicando o que ia fazer, o que diz algo das relações que tinha na [...]

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