Incongruências climáticas

(por AL confusa e indignada) –

Começou ontem na Dinamarca a Conferência das Nações Unidas para as Alterações Climáticas rodeada, como de costume, pelo circo armado pela putativa sociedade civil. Não querendo perder o comboio da indústria da pobreza a campanha que mais se salienta é talvez a Hopenhagen, “um movimento gerado pela Associação Internacional de Publicidade representando a indústria global de publicidade em apoio das Nações Unidas”. Excuse me? Isso mesmo! Da indústria que alimenta o consumismo e que cria necessidades.  Da indústria que gera milhões em rendimentos das necessidades que criou.Para não falar das toneladas de lixo em papel que produz.

A missão da campanha é “ligar todas as pessoas, cidades e nações a Copenhaga. Dar esperança a toda a gente e criar uma plataforma de acção. Criar um movimento comunitário com o poder de influenciar a mudança.” Pressupõe-se, portanto, que é uma campanha virada para a sociedade civil com acesso a electricidade, computadores e internet; com barriga cheia e tempo nas mãos para se debruçar sobre estas questões globais, ainda que se sinta marginalmente afectada por elas. Que adira ao merchandising da campanha, porque não? Cujos fundos irão para?

Não disputo o enorme problema global que são as alterações climáticas, nem a  necessidade de este ser debatido, nem a urgência de se tomarem medidas. Nem disputo sequer o tremendo impacto que as alterações climáticas podem ter em comunidades à beira da sobrevivência; do peixe que começa a escassear porque as águas estão agora mais quentes, ou menos salgadas; das culturas que se perdem porque faltaram as chuvas, ou porque vieram chuvas a mais.

O que disputo, me indigna e confunde e me parece descabido são os cartazes da campanha, que são dois.

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Num, o rosto sublime e digno de uma mulher africana com todas as marcas que a vida lhe deu, olhar perdido no horizonte como quem não espera muito mais da Sorte. Noutro, temos um jovem asiático, bem vestido, com sapatilhas de marca, num fundo luxuriante e olhando para cima num gesto de esperança.

Indigna-me este reforço subliminar de que a pobreza é mulher e é africana. Indigna-me o uso que me parece abusivo de um rosto digno. Indigna-me o uso sistemático de África para ilustrar desgraças e de asiáticos para ilustrar esperança ou potenciais soluções. Confunde-me que ambos tenham sido usados e disseminados sem que objecções se tivessem levantado dos que clamam representar e defender os mais vulneráveis; daqueles que os querem proteger de todas as formas de exploração. A Vergonha? Essa não tem cara porque há muito que se perdeu….

13 comments ↓

#1 umBhalane on 12.08.09 at 15:22


Ainda bem que se indigna Al. Que não perdeu essa capacidade, dom, de se indigmar.

“Mais pior” é quando as pessoas “desconseguem” de se indignar, perdem essa paricularidade.

#2 Vera Azevedo on 12.08.09 at 16:38


A mim indigna-me estas cimeiras onde metade do mundo decide o destino da outra metade e defende os seus interesses alegando que é para o bem da humanidade.
Obama só concede baixar as emissões de CO2 em 17% até 2020 e não ratifica o acordo de Quioto.
E depois temos o discurso sobre a pobreza dos outros e a necessidade de desenvolvimento …sustentável dizem, mas o facto é que percebe que os projectos nunca contemplam essa sustentabilidade e levam quase sempre à produção de mais CO2.
E depois esse cartaz (apesar da dignidade que a mulher apresenta – mas não a apresentam todas as mulheres? ) lembra as fotos dos primeiras expedições dos africanistas brrr.

#3 jpt on 12.08.09 at 18:16


“Publicidade” “indústria” “que cria necessidades”!! Ui, ui, se o ma-schamba fosse um blog mui lido terias aqui um coro de assobios e pateadas dos bloguistas liberais (perdão, “liberais”), devido a esse erro crasso. A publicidade é uma informação, entre indivíduos, não altera valores nem práticas, apenas faz optar entre produtos similares – se te esticares muito deixa-me que te diga que a “sociedade” não existe, apenas alguns indivíduos em benéfica interacção – aliás é por isso que o aquecimento global é um mito, como pode o livre intercâmbio comunicativo (que é, por definição, virtuoso) provocar “males” (uma coisa metafísica, mera noção, já agora). [Sim, eu sei, tu és uma blogoexcluída, não apanharás o conteúdo disto, mas olha que há muito troglodita transbloguista, até elevado a cronista jornaleiro, aka, intelectual - e com fartos elogios, que é "liberal" - excepto quando lhe vèm os "comunitarismos" reaccionários anti-liberais, sempre À flor da pele. Saem muitos gases mal-cheirosos do bloguismo português, um efeito de estufa inenarrável]

Bem, quanto ao que tu dizes, para além de reconheceres “dignidade” num rosto “sublime”, por razões hermenêuticas que me ultrapassam, tenho uma questão: será que a “dona” foi paga? isso interessar-me-ia, em complemento ao teu furor semiológico, que muito saúdo …

(ainda que a semiologia, como qualquer incidència intelectual dos falares sociológicos – como a miserável psicologia, a pedagogia, a sociologia e outras ias – seja uma falácia aldrabã, com excepção da ciencia económica, ela própria tendencialmente certa, e, até certa medida, da ciència política, estudada nas melhores universidades anglófonas e, como tal, aceitável até porque há “liberais” que sobre ela escreveeram – dentro desse pacote os imbecis portugueses escrevem sobre alunos que não estudam e os papás que não os educam, sobre a ecologia que é uma armadilha, sobre o mercado que é virtude. E sobre os sacrossantos valores nacionais e tradicionais e religiosos, quando os dedos se lhes distraem nos teclados que tèm)

Depois, há Obama: que, já agora, nao parece assim tão differente do inicial george W bush que se recusava a contrariar o modo de vida americano reduzindo a fumarada. Apesar disso a General Motors (o que era bom para ela era bom para os EUA, dizia-se) faliu. O que falirá a seguir. Palinescos tempos virão …

#4 jaime on 12.08.09 at 22:27


tempos virão dificeis…..
por isso concentrem-se no que é essencial….
mas concordo há muita hipocrisia por esse mundo fora

#5 AL on 12.09.09 at 2:09


umBhalane e eu que julgava que era rezinguice da idade?.. Amiga Vera eu nao demitiria assim as cimeiras; afinal esta e’ das nacoes unidas e todos os paises estao la sentados e representados. E verdade que manda quem pode e os outros amocham, mas e’ importante que as coisas se comecem a discutir. Ainda vejo, apesar de todas as imperfeicoes, um papel para as nacoes unidas.
Quanto a dignidade das mulheres todas a terao mas ha miserias que ate a dignidade comem… Mas agora que mencionaste as fotos coloniais, sim, concordo que nos possa fazer pensar nisso. A mim remeteu-me mais para as mulheres que tenho encontrado ao longo da vida, verdadeiras mae-coragem perante tanta adversidade. Jacinta, Eunice, Francisca, Flora, Dina, Saquina, Geraldine e tantas outras que comigo caminharam e comigo partilharam as suas historias. E e’ isso que me irrita muito, este uso para o choradinho e para a caridadezinha quando ha exemplos de tanta coisa boa e tanta vitoria suada; tantos role-models positivos…
JPT achas que os publicitarios me vao atacar, sei la, com pastilha elastica ou caixas de margarina? :) Chamem-lhe o que quiserem para mim continua a ser a industria do consumismo. Alias ha uns anos atras, num mini-curso que fiz de marketing e publicidade falava-se bastante nas necessidades criadas. Mas como ja disse, cada um e’ livre de acreditar nas mentiras que escolhe e se lhe querem chamar informacao livre inter individual chamem. Eu ate nem desdenho um bom anuncio! Delicio-me com eles, para dizer a verdade. Quanto a dona do rosto nao sei sinceramente se foi paga. Mas conhecendo a cena internacional como conheco nao me admiraria se ela nem soubesse que o seu rosto adorna tal campanha! Ja vi de tudo – de amputados esquecidos nos hoteis depois de terem posto as pedras a chorar nas conferencias contra as minas terrestres, ate criancas a serem empurradas perante audiencias para contarem como foram maltratadas por movimentos rebeldes no seu pais. Aidan Hartley no seu livro The Zanzibar Chest conta como foi a visita da Sophia Loren a um campo de refugiados na Somalia e como andaram desesperados a arrancar criancas dos soros fisiologicos para ela ser fotografada com uma crianca suficientemente doente ao colo.
Jaime tem razao, vem ai tempos dificeis mas o essencial nao nos deve cegar…
Quanto ao Obama que hei-de dizer que nao tenha ja sido dito? Sou neofita nisto dos blogues, mas estou a gostar… :) :) :)

#6 ABM on 12.09.09 at 23:57


Eu devia estar noutro planeta enquanto estavam a discutir isto. Sra Baronesa, os cartazes não me perturbam minimamente pois esta cimeira nada tem que ver com o grau de riqueza ou de pobreza, a geografia ou a raça das pessoas.

A cimeira é sobre “alterações climáticas” e a meu ver representa, depois dos dois mandatos inenarráveis do Sr. George Bush Jr, mais uma mudança de paradigma. Pois tudo aponta em dois sentidos: a) a re-orientação dos esforços de desenvolvimento económico e de gestão dos territórios e oceanos em função da emissão de dióxido de carbono, b) a disseminação, com base em exemplos já a decorrer como acontece na União Europeia, de um sistema de cotações e de pagamentos com base em alocações de pacotes de CO2 a … países. Este segunda parte não faz absolutamente sentido nenhum para mim e acho que não vai funcionar assim tão com como isso mas parece bem, e isso também é importante.

Assim teremos como exemplo um país como Moçambique, que não produz nada para além daquele indescritível emplastro na fronteira entre a Matola e Boane (ainda por cima uma zona ecologicamente muito sensível) que produz alumínio, receber “créditos” de carbono – pois é tido como “accionista” do mesmo ar que todos respiramos – e vendê-los por exemplo à Mercedes-Benz na Alemanha, que faz automóveis, para poder produzir mais CO2. E como os moçambicanos, coitados, talvez em resultado dos famosos quinhentos anos de imperialismo racista português, não desenvolveram e por isso não têm uma fábrica da Mercedes na Matola, e não tiveram assim a chance de poder poluir a atmosfera como os americanos ou os alemães, ao menos vêm algum dinheiro assim.

Mas por algum lado tem que se começar.

Eu cá por mim acho que o segredo disto tudo está em duas causas: a) é em parte resultante da inércia destruidora das sociedades e das suas indústrias, que, seguindo o repto capitalista do lucro, da maior quota de mercado e do custo mais barato, agem alegremente como se o mundo fosse um filão sem fim, b) a população mundial, que segundo o US Census bureau no dia 9 de Dezembro de 2009 era de 6.802 milhões de pessoas. Quando nasci em 1960, era de 2.982 mihões. Em 1900 era de 1.650 milhões. A esmagadora maioria do crescimento populacional está a ocorrer na Ásia, América Latina e África, enquanto que proporcionalmente os maiores poluidores até há pouco têm sido os europeus e os americanos anglo-saxónicos.

Boa sorte a todos eles.

#7 AL on 12.10.09 at 0:17


ABM ainda bem que voltaste! Ja tinha dado pela falta! :) Nao disputo a importancia do assunto; alias a ideia dos creditos de ar limpo como um bem para venda ja vem de ha muito. A primeira vez que a li foi no livro do Al Gore Earth in Balance, publicado em 1992. Mas como tu bem dizes, esta cimeira nao tem a ver com raca, pobreza ou riqueza, o que de certa forma da’ forca a minha indignacao…

#8 umBhalane on 12.10.09 at 10:34


Ok, e porque ainda corre o “assunto” em Copenhaga, trago para a mesa este ponto de vista:

“Adenda: o que está em jogo em Copenhaga não é o clima, mas – claramente – o conjunto das relações sociais de hegemonia, a redefinição geo-estratégica da hegemonia mundial.”

Daqui: http://oficinadesociologia.blogspot.com/

Será?, também será?

Bora, lá, p.f.

#9 Lowlander on 12.10.09 at 11:40


Cara AL,

Compreendo a sua indignacao ate certo ponto mas tenho de perguntar o seguinte:

– se as previsoes do IPCC estiverem correctas quem e que pensa que vai sofrer o maior impacto mais negativo dos efeitos do aquecimento global?
– face a emergencia dos paises BRIC, 3 deles na Asia, como potencias economicas (e militares) e a decadencia economica (para ja) do denominado Ocidente, onde e que pensa que tem de ser depositada a esperanca para que a revolucao que se avizinha e se adivinha nao seja violenta?

Caro ABM:

Sinceras desculpas por ter abandonado a discussao naquele outro post, ainda por cima, porque voce avancou alguns pontos com os quais eu discordo muito (e deu-me a sensacao que voltou a sugerir que eu estou talvez em risco de me tornar um proto-comuna, o que, vade retro (!), curiosamente, muito me perturbou, naturalmente, e, nao tao naturalmente, fez sorrir).
Brincadeiras a parte, gostaria de ter rebatido com calma mas enfim… outras oportunidades virao.

#10 ABM on 12.10.09 at 13:53


Sr 1B

Obrigado por trazer à atenção o blog do Prof Carlos Serra. Não conhecia. Muito interessante.

Sim, claro que está em causa também a negociação de hegemonias. Mas não vai ser por aí que a coisa se vai resolver. As pessoas vão ter que pensar um pouco acima desse tipo de raciocínio. Isso foi o que aconteceu na célebre e carnavalesca “Cimeira da Terra” no Rio de Janeiro em 1992. Hoje há uma muito maior consciência dos assuntos do ambiente e uma incorporação do factor ecológico no mundo em geral. A ver vamos se vai haver bom senso.

Sr LL

Não se frustre, pode continuar a sua discussão à vontade no “outro” post, entre café e leituras eu sigo tudo e fico curioso sobre o que é que foi que referi que terá merecido a sua algo visceral reacção. Para que conste, dos nossos trocaderos, nunca o considerei proto-comuna nem coisa que o pareça. Se o sugeri, pode ter sido efeito de alguma retórica de momento.

#11 AL on 12.10.09 at 14:30


Caro lowlander nao duvido que quem mais imediatamente sofrera as consequencias das alteracoes climaticas, que nao disputo de forma alguma, vao ser as comunidades a beira da sobrevivencia, tal como refiro no post. A minha indignacao nao vem nem da cimeira, nem do assunto em questao; vem sim do que eu considero um uso abusivo da pobreza e da vulnerabilidade para angariacao de fundos que nem me parecem, neste caso particular, transparentes. Tavez por causa de uma vida a trabalhar em “desenvolvimento internacional”, a minha sensibilidade esteja deformada mas e’ esta a que tenho. Porque tenho assistido como a pobreza e’ usada frequentemente mais para manter postos de trabalho e estilos de vida internacionais do que para realmente contribuir com algo de sustentavel nas “constituencies” que e’ suposto representar/ajudar/desenvolver/whatever…
Nao disputo de forma alguma a validade da cimeira, nem sequer disputo as alteracoes climaticas, nem a necessidade de se tomarem medidas urgentes.
Podera ter tambem razao em relacao as razoes BRIC para a esperanca na Asia, mas deixe-me dizer-lhe que eu ja ouvi “ipsis verbo” que era melhor nas brochuras para os doadores apresentar como bem imagem dos objectivos alcancados os projectos asiaticos ou latino americanos, pois as pessoas destas zonas eram mais bonitas. E que para o sofrimento e problemas a abordar deviamos ilustrar com africanos, pois eram imagens mais familiares. A brochura assim composta, teria mais impacto nos doadores, era o argumento avancado.
Nao pretendo aqui iniciar um debate que nao vou poder manter, pois dentro de 2 dias vou ausentar-me por 3 semanas. Mas voces leitores ca’ estarao para o debater se assim entenderem.
O ponto que aqui quero deixar e’ que continuamos todos a representar Africa como o continente perdido, sem esperanca, onde nada vale a pena e, neste comboio, deixamos de fora todas as experiencias positivas, licoes de coragem, etc, e reforcamos uma imagem que permite que o negativo que la acontece se va perpetuando. Ha programas em Africa que estao a ser replicados noutras zonas do globo (por exemplo, o programa de desarmamento em Mocambique chamado armas por enxadas) mas muito pouco credito lhes e’ dado. O mesmo pode ser dito das Operacoes Rachel, um programa institucional de desarmamento entre as policias de Mocambique e da Africa do Sul. Experimente fazer um google com “programme guns for tools” e vai ver o que lhe aparece. Mesmo que google em portugues “armas por enxadas” nao tem de imediato qualquer referencia de que se trata de um programa de desarmamento concebido e implementado por uma pequena ONG mocambicana.
Todas estas questoes, incluindo a hipocrisia tantas vezes inerente a programas de desenvolvimento e o cinismo das campanhas de angariacao de fundos nao devem, em minha opiniao, ser tratadas de forma maniqueista de bom/mau ou certo/errado. Sao bem mais complexas que isso e vivem naquela zona de cinzentos que parece pautar tantas questoes importantes. Mas indigna-me que nao se debatam; que continuem a ser ignoradas. Tinha uma tia-avo que dizia: mais vale uma verdade sentida que andar enganado toda a vida. E parece-me que neste sector existe muito pouca verdade, sentida ou nao…

#12 AL on 12.10.09 at 14:33


Car umBhalane, fui primeiro ler a referencia que me enviou por isso respondo so agora. Contraponho com outra pergunta: nao serao todas as cimeiras sobre questoes globais uma negociacao e um reposicionamento da geo-estrategica hegemonia global? Esta certamente nao sera diferente…

#13 ABM on 12.12.09 at 10:27


Para ter algum senso do carnaval que foi esta semana da “PCI” em “Hopenhagen” leia-se o diário de um jornalista enviado pelo Economist à Dinamarca: http://www.economist.com/daily/news/displaystory.cfm?story_id=15060638&fsrc=nwl

É típico.

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