O Futebol não é importante, não estrutura o futuro, não ensina o passado, não desvenda o presente. Mas a este alegra-o (ou entristece-o).
Daí o prazer que retiro de uma derrota alemã. Sempre. Porque lhes entristece um bocado o presente. Ou muito.
Preconceito meu? Sim, claro. Mas não só. Reacção à arrogância, à superioridade que do alemão desponta. Não lhes é universal? Claro que não. Mas (muito) recorrente. De uma superioridade racional. De uma superioridade de princípios. Talvez não moral, pois o longo século XX alemão não lhes permitirá a reclamação de uma superioridade moral. Mas de superioridade de princípios activos.
Estou no futebol, apenas. Nesse imperfeito espelho das coisas. O jogador alemão de que mais me lembro é Karl Heinz Rumenigge. O avançado que no Mundial de 1982 dizia aos jornalistas que todas as mães alemãs gostariam de ter um filho como ele: alto, louro, olhos azuis. A FIFA mandou-o para casa, para pensar nos ecos da filhadaputice que tinha dito? Não, nada disso. Foi até à final. (Hoje, com toda a luta contra o racismo no desporto, talvez tivesse sido diferente).
O jogo alemão de que mais me lembro é um Alemanha-Portugal (6.9.97). Apuramento para o Mundial de França, se Portugal ganhasse eliminaria a Alemanha, com todos os prejuízos para a organização que se podiam prever. Este foi o jogo em que Rui Costa foi expulso quando ia ser substituído, Portugal ganhava 1-0. O homem ia saindo algo lento mas nada demais. Nunca tinha visto nada semelhante, nunca mais vi nada assim. O árbitro era (claro) francês: Marc Batta. Ali a corporização explícita do eixo euro-estruturante Berlim-Vichy, perdão, Bona-Paris.
Depois dessa infame roubalheira Batta viria nesse ano a apitar a final da Taça Uefa. Condigna recompensa aos bons serviços prestados. A quem já tinha carregado os anfitriões ingleses às meias-finais do Euro-96, roubando descaradamente a Espanha. Um bom árbitro para as ocasiões, n’est-ce pas? O homem a chamar para os momentos difíceis.
O evento desportivo alemão de que mais me lembro é o da escolha do país hospedeiro do Mundial-2006. No final aparentemente a candidatura alemã estava perdida. Mas na votação supresa geral: o velhote representante da Oceânia votou contrário às instruções da sua federação, favorecendo a Alemanha, assim invertendo o resultado, possibilitando uma vitória tangencial. Logo foi ele suspenso na sua sede, mas qual o problema? Acautelado estava já o final da carreira no dirigismo, tão óbvia e escandalosa malandrice aquilo foi.
Hoje os alemães amantes de futebol estão tristes? (nem deviam, bastava um árbitro honesto no jogo com a Letónia, que marcasse as grandes penalidades contra a Alemanha, e hoje já estariam livres de ilusões). Pois ainda bem! Aleluia. Que merecem todas as tristezas. Das da bola, digo.
Mas preparemo-nos. No próximo Mundial, em casa, sob a capa daquela magnífica organização, dos princípios, do rigor, vai ser um fartar vilanagem. Vilanagem técnico-científica, não o festim amador a que estamos habituados entre a rapaziada.
Viva a Letónia. Viva a Checa. Viva a Holanda.
E viva o Becker, a avisar o mundo que não lhes entregassem os Jogos Olímpicos, que lhes viria o fundo ao de cima. E viva os beckeres que por lá ainda devem ser muitos. Esperemos! Esperemos! Roguemos.

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