O Fim da Praia do Wimbe

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Qual The Artist Formerly Known as Prince, mas não como se crisálida, que não será de borboletas o futuro feito. Sim, dentro de pouco poderemos falar sobre The Beach Formerly Known as Wimbe.

Praia ícone em Moçambique, um pouco pela beleza natural, amena enseada olhando a baía de Pemba, mesmo ladeando-lhe a barra. Englobando aquela meia-dúzia de praias mais célebres desde o tempo colonial, talvez não tanto pela sua excelência - que partilham com tantos outros recantos da costa - mas pela antiguidade das suas infraestruturas turísticas: Tofo, Ponta do Ouro, Bilene, Zalala, Fernão Veloso. E o Wimbe, claro.

Ainda assim o Wimbe tem uma excelência única, exactamente o aconchego, a  baía como horizonte, a (ainda) pacatez sob o arvoredo.

Memórias a manter, a guardar, agora que tudo isso mudará. Tive o “privilégio” de ver o novo projecto turístico para a praia, que gente ufana me mostrou, dessas crentes no progresso e isso, desenvolvimento turístico chamam-lhe e até acreditam. Na praia! exactamente na praia, no seio do arvoredo protector (a sul do Nautilus, para quem conhece) vão espetar um hotel, a deslizar para a água.

Este será uma construção da Vovó Donalda e do Tio Patinhas, puro Walt Disney. Tem a forma de um barco, como se paquete. Honestamente julguei que estivessem a brincar quando me mostraram as coloridas fotocópias. “Mas quem é que faz uma merda destas?” - perguntei, malcriadíssimo, ainda surpreeendido pois acreditava já ter visto tudo o que é possível nisto do campeonato do mau-gosto dos arquitectos em Moçambique (a colecção de cromos Sommerschield B - Bairro do Triunfo seria um must como programa cómico num sítio onde se saiba soletrar b-o-m-g-o-s-t-o). “Investidores moçambicanos“, dizem-me com orgulho, até nacionalista, ainda que ali um pouco desapontado dada a minha truculência, “arquitecto indiano … da Índia“.

Um arquitecto indiano aqui arribado para brincar ao Huguinho, Zezinho e Luisinho. Uns investidores moçambicanos a derrubarem o arvoredo protector, a alteraram a enseada, a assumirem a linha de água. Em suma, uma aliança internacional para foder o Wimbe. Será só cupidez e ignorância? Ou é mesmo má-vontade demencial?

14 comments ↓

#1 chapa100 on 02.26.08 at 15:28

podes crer que com este andar seremos um pais de cogumelos mal intencionados. a ultima vez que estive em pemba, vim a saber que nas maravilhosas ilhas e praias onde foram construidas complexos turisticos, foram enterrados maquinas e outro material nocivo ao ambiente, porque o tal investidor nao queria devolver as maquinas a dubai, durban, etc. estamos mal.

#2 Alexandre on 02.26.08 at 17:51

alguma coisa haveria de ter ficado de 500 anos de colonização portuguesa….

#3 Fernando Gil on 02.26.08 at 21:29

Sinceramente! Não quero acreditar.
Ainda está bem vivo que encheu aquela praia de palmeiras.

#4 cláudia on 02.26.08 at 23:22

a ignorância, a ganância. um dueto imbatível.

#5 Jaime on 02.27.08 at 21:31

É JPT !
Bem reportado… Está na hora de dar um basta nessa falsa onda de progresso que levará inevitávelmente à destruição dos últimos redutos ecológicos que ainda sobrevivem neste decadente planeta.
Aqui “de longe” já venho observando essa verdadeira e demente estupidez faz algum tempo…e até me atrevi a “denunciar” no ForEver PEMBA, alertado pelas imagens fotográficas que recebo da “apesar de tudo” sempre bela e estimada Pemba. Mas parece-me que o alheamento generalizado da população simples, como a “ganância” pura, egoísta, vaidosa de determinados empresários e também de cidadãos mais “abonados” dessa região, desvinculada de qualquer preceito ecológico, torna-os cegos, preocupados mais com o saldo crescente de suas poupanças bancárias e seus privilégios do que com o próprio País Moçambique e os cuidados que a cidade precisa e merece. Estes - Moçambique e Pemba - que se danem ! E “cada um por si”…como se usa dizer por aqui.
Vou transcrever no meu modesto ForEver Pemba, se não leva a mal.

#6 a.p. on 02.28.08 at 1:04

JPT,

Obrigada por expressares aqui, o que eu também sinto em relacão a esse tipo de “desenvolvimento” no wimbe.

É uma pena e uma vergonha.

Só espero, que as consequências desses gravíssimos
“investimentos”, também venham a ser assumidas com o mesmo “orgulho” e o mesmo “nacionalismo” com que foram empreendidos…

Andrea Paes

#7 Ana Pinto on 02.28.08 at 9:50

Não é só em Pemba que essas aberrações acontecem, infelizmente alguns moçambicanos ainda não entenderam que desenvolvimento não é destruição do antigamente, ou seja o que o colono deixou, não é construir como os outros, mas sim marcar a diferença pelo natural e pelo que é realmente moçambicano.
Infelizmente quem tem dinheiro tudo pode por estas bandas onde não existe sociedade civil e sentido de cidadania. Infelizmente para Moçambique quem tem dinheiro tem mau gosto e não há políticas verdadeiras de ordenamento e conservação.

Paula Pinto

#8 jpt on 02.28.08 at 14:48

Agradeço os comentários e a solidariedade com aquela praia e, por arrasto, com todas os outros itens ecológicos. Permito-me realçar o comentário de Alexandre Monteiro: a. não foram 500 anos de colonização, um bocado de esforço e chega-se aos 80; b. por este andar (e com ele concordando) Moçambique vai ser um “Enorme Algarve”. O pesadelo é horripilante …

#9 Thiago Gomes on 02.28.08 at 16:04

Por favor, diga-me que isso não é verdade…

Deixe-me apresentar primeiro. Sou brasileiro de Curitiba, Paraná e estive em Pemba no ano de 2005 por 3 meses trabalhando juntamente com uma ONG local de nome Arco-Íris.

Se é o que entendi, estão para destruir a praia e restringir ainda mais o acesso dos moradores locais da praia que OS PERTENCE, primeiramente. E além disso, como muito enfatizado, depredar ainda mais os ecossistemas da região.

Não conheço a fundo as leis de Cabo Delgado, mas no Brasil não é tão simples construir qualquer coisa que atravesse a praia e adentre o mar como foi descrita esta construção.

Como impedir esse absurdo de acontecer?!

#10 Tony Ramos on 02.28.08 at 18:40

Pemba, terra minha querida
Quem te viu e quem te vê;
Não sei por mais quanto tempo resistirás
de tanta incúria dos novos ricos.
Do turismo selvagem que carregas sobre as costas, ainda não vingou emprego para as tuas gentes
Que vivem na pobreza consentida
De quem tem os cordeis do nosso destino colectivo.

#11 Rafael da Conceicao on 02.29.08 at 16:03

JPT espero que estejas a sonhar. nao e possivel chegar a isso. Se for verdade tenho pena da malta do Wimbe, nanhimbe, Maringanha, etc. Esses senhores do Turismo estao a fazer o que? Realmente. tenho pena de Mocambique e de mim mesmo ate. Essa coisa chamada Wimbe nao vos pertence senhores, e de muitas geracoes, de ontem, de hoje, de amanha…Sejam comedidos. A ser verdade vou pensar que afinal o dinheiro e que fala. Ja andam por la com muros altissimos, ja tantas vezes nos prometeram regularizar e nunca se faz. Esses muros impedem a populacao de ir para o seu mar a sua praia, la onde vao buscar o seu sustento. Meus senhores sonhadores, olhem para alem da estrada do Wimbe e vejam como a populacao vive. Tenham vergonha. Ja fizeram um teste e como ninguem reagiu andam nestas brincadeiras de estragar impunemente, brincadeiras de tios patinhas e Cia. Tenho pena ate de mim…

#12 Jonathan McCharty on 05.12.08 at 8:03

Prezado JPT!

Adicionei-o aos meus “elos” no meu blogue (ainda no seu primeiro gatinhar). Espero que não esteja a incorrer em matérias do fórum de “invasão de propriedade privada/intelectual”!

Abraço

#13 jpt on 05.12.08 at 8:17

obrigado. bom bloguismo

#14 Jonathan McCharty on 05.12.08 at 15:39

Eu e’ que tenho que agradecer!
Tenha uma optima semana.

Abraço

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