Queiroz. Madaíl. E Laurentino Dias.

Diz a imprensa portuguesa que o secretário de estado dos desportos, Laurentino Dias – indivíduo que surgiu na vida pública como presidente de um clube de futebol ascendendo à primeira divisão e posteriormente mergulhado nas impossibilidades do profissionalismo, o que muito diz das capacidades e do perfil do dito presidente – se indignou, considerando um “caso muito sério”, uma hipotética altercação entre Carlos Queiroz e os médicos do Instituto Nacional do Desporto que foram controlar os seleccionados portugueses. O jornal “i” (não vale a pena colocar ligações aos jornais, são supra-perecíveis) adianta que Queiroz teria dito algo como “o Luís Horta que vá para a c… da mãe dele” (referindo-se ao director do referido instituto estatal). Não sei se é verdade mas os rumores indicam que o episódio servirá de causa para o despedimento do seleccionador.

É inenarrável. Sendo verdade o acontecido Queiroz não obstou a nenhuma actividade, insultou um indivíduo (aliás ausente). Regressamos pois ao paradigma DREN, o poder socialista entende passível de despedimento (ou reenvio à proveniência) quem insulta à distância. Se o alvo é Sócrates ou Luís Horta não interessa, vai para a rua.

Entretanto recordo dois pontos, ambos a seu tempo expressos na comunicação social. Gilberto Madaíl, e a direcção a que preside, gostaria de demitir Queiroz – o afinal incompetente seleccionador pois não conseguiu ser campeão do mundo – mas não o faz pois não tem condições financeiras para pagar o contrato que firmou, livremente, há dois anos. Ou seja, um clamoroso erro de decisão que tolhe a liberdade da federação em actuar como agora considera necessário. Algum “incómodo” por parte do secretário Laurentino Dias? Nada. E  também não se incomoda com a memória do presidente da federação Gilberto Madaíl no seu regresso da barracada do mundial da Coreia do Sul e Japão. Então compelido pela opinião pública a explicar o que tão mal acontecera o antigo associado de Valentim Loureiro, ex-deputado e governador-civil, leu à imprensa com notório enfado acintoso o seu extenso relatório, vácuo e redondo, que consistia em exactamente 69 pontos, terminando a leitura com um explícito sorriso de menosprezo. Ou seja, para Dias, o vate de Fafe, o insulto a um qualquer funcionário é “muito grave” mas aquele evidente e grosseiro insulto a toda a opinião pública interessada nada contou, nada conta. Há os insultáveis (a merda do povo, digno de um qualquer manguito em forma de sessenta-e-nove e vão-se foder) e os ininsultáveis (os seus mandarins, os quais não se podem mandar para a “c… da mãe”).

A gente, preocupada com o filho do Ronaldo e ainda doridos da derrota futebolística, esquece-se. Esquece-se do porquê da “intocabilidade” de alguns, da perenidade de Madaíl e quejandos, das diferentes sensibilidades e “indignações”. Pois esquecemos a campanha para a organização do Euro-2004, do ministro da tutela de então, da aliança político-camarária-construtora civil para a monstruosidade dos 10 estádios construídos e de todo o mais despesismo de então (dito “desenvolvimentista” com toda a sem-vergonha). De como tudo isso, de como esse “complexo económico-político” serviu de trampolim para alguns e, mais do que tudo, de algum. E assim sendo esquecemos, até confundimos quem pode ser insultável ou não o pode ser. Esquecemos de quem urge despedir.

jpt


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One Response to “Queiroz. Madaíl. E Laurentino Dias.”

  1. ERFERREIRA diz:

    Esses construtores de 2004(Madaíl e quejandos), entretanto, já andam de rabo a abanar, contentinhos, com outra candidatura qualquer. Apetece dizer – a puta que os pariu!
    O Prof Queiroz bem poderia ser mais abrangente.

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