Da descolonização

Em plenos 30 anos do 25 de Abril o regresso à descolonização é normal. Sobre isso já desabafei e até (semi)botei.
Na semana passada Almeida Santos falou sobre a matéria, anunciando ainda um livro. Será interessante ler a sua versão, enquanto participante activo. Também Mia Couto publicou um artigo sobre o assunto [obrigado ao leitor “Mossuril” pelo pronto envio].
Ambos os textos têm interesse ainda que não avancem novidades ou leituras originais. Principalmente por integrarem algo que deveria ser óbvio. O final do colonialismo foi provocado, e portanto a análise da sua história tem que integrar as práticas de quem contra ele combateu.
Em Portugal o discurso traumático continua. A procura de culpabilização de políticas ou de individualidades não passa de uma leitura autocentrada do processo de então. Autocentrada e orfã de Império. O entendimento do final do colonialismo tem que o encarar como fruto de uma luta local e dos apoios que recebeu. Aliás também o 25 de Abril o foi, dito e redito que está o facto dos militares se terem revoltado contra a situação profissional, pessoal e política que uma guerra anacrónica lhes tinha causado, bem como ao país.
Não se trata de apagar as múltiplas perspectivas que havia então em Portugal sobre a questão. Trata-se de não encerrar a leitura do processo nessas dinâmicas. De certa forma é uma questão de português: Portugal não “fez” a descolonização, “aconteceu-lhe” a descolonização. Tivesse esse facto histórico inultrapassável sido planeado e discutido alguns anos antes outra formulação (linguística, refiro) seria possível.
Ainda hoje se fala muito de “culpa” (até Almeida Santos recupera a palavra, sacudindo-a de si próprio) e até de “traição”. Sendo um bocado demagógico, reconheço, apetece perguntar:
- a grande vaga de povoamento colonial ocorreu nos anos 50 e 60. Após a independência das colónias europeias na Ásia, durante e após a independência das colónias europeias em África. Quem “traíu” os futuros “espoliados do Ultramar”, de quem é a “culpa” dos seus destinos? Quem os convenceu que era um projecto para a vida, quando era óbvio que não o podia ser? Ou quem, à direita ou à esquerda, pró-soviético, pró-rodesiano ou pró-no meio, muito pouco podia fazer num mundo que já há muito tinha mudado?
Extra: em vez dessa bafienta elaboração de “culpas” e “traições” tão mais interessante estudar aprofundada e extensivamente o efeito social dos retornados no Portugal de 70. Tanto se fala do impacto da democracia, e depois da CEE/UE. E tão pouco do abanão que essa mole humana vinda de outras práticas terá tido aí no rincão.

0 comments ↓

There are no comments yet...Kick things off by filling out the form below.

Leave a Comment